
Anderson e Pelé em encontro no Rio de Janeiro. Foto: Reprodução/Twitter
O grandalhão Ben Brobby jamais teve dúvidas sobre quais foram os melhores anos de sua vida.
Foi aquela época maravilhosa, entre 2010 e 2018, quando, como ele diz, teve “a sorte de ser o guarda-costas do Rei do Futebol”, Mister Pelé.
Nascido em Gana, Ben sempre foi muito calmo, lição que aprendeu com o avô que adorava jogar damas e o criou, entre uma partidinha e outra.
Aos 17 anos, Brobby decidiu zarpar para Londres. Estudava tecnologia da informação, mas certo dia abriu o jornal e leu sobre um curso de segurança pessoal, oferecido por ex-militares do exército britânico. Após seis semanas de treinamento, decidiu se especializar num curso de gerenciamento de riscos.
Tornou-se segurança do empresário inglês Paul Kemsley, envolvido com o futebol, até que este comprou o time nova-iorquino Cosmos, e os direitos da marca Pelé. Após seis anos com Kemsley, Ben ouviu o convite do patrão:
– Ben, que tal ir cuidar do Pelé? Eu preciso de alguém como você para garantir que ele esteja sempre bem.
Fanático por futebol e fã do legendário camisa 10, Ben sempre foi profissional e durão na medida certa. “Apesar de mágico, não era um trabalho fácil”, admitiu Ben Brobby à revista brasileira “Placar”. “Porque Pelé era Pelé, e nunca dizia não para um fã.”
O Rei do Futebol, que atuara pelo Cosmos de 1975 a 1977, passara a viver a vida de um homem de negócios, palestrante e convidado em eventos os mais variados.
E foi numa dessas que Pelé e Ben passaram um sufoco daqueles – na verdade, o único que Ben Brobby viveu com o Rei do Futebol.
O ganês recordava: “Voamos para uma convenção de fazendeiros, no interior do Brasil, num jatinho. Assim que descemos, percebi que seria caótico.”
Era o cenário clássico:
“Gente demais, estrutura de segurança de menos”, recordou o guarda-costas. “Assim que Pelé terminou o trabalho, fomos para um quartinho que tinham montado para ele lanchar e descansar. Era uma dessas estruturas pré-montadas de madeira e metal. A multidão então começou a cercar o local. Eu olhava para fora e só via mais e mais gente nos cercando. Não dava mais para sairmos na boa, e eu já temia que alguém tentasse forçar a entrada. Por rádio, pedi então que o motorista encostasse na parte de trás.”
A fuga do Rei foi de cinema.
Assim que o carro chegou, Ben saiu quebrando a estrutura com socos e pontapés, abriu um rombo e evadiu com o amado jogador, pelos fundos.
Enquanto o guarda-costas dava seus chutes e arrebentava a parede, Pelé só dizia: “Calma, Ben, não fica nervoso. Calma, Ben…”
Calmo e eficiente, o bom e velho segurança acabou por aprender belas lições de vida, ao se ver acuado com o Rei do Futebol. A primeira: o bom jogador vê, mas só o craque antevê – como já dizia o jornalista Armando Nogueira, diretor de TV, comentarista esportivo e amigo de Pelé.

O rei Pelé treinou judô e karatê quando jovem, artes que o ajudaram a evitar quedas e aprender a cair nos gramados. Foto: José Herrera/ Divulgação
Por não ter planejado nada, por não ser capaz de antever como escapulir dali, Ben acabou por se desesperar, e precisou abrir caminho com a sola do pé.
Mas a melhor lição veio mesmo do Rei do Futebol: calma, Ben, respire, Ben. Afinal, quando tudo parece sem solução, oxigenar a mente e raciocinar é sempre a melhor saída.
Mesmo que, com a mente clara, você perceba que a saída seja fugir pelos fundos com o Rei do Futebol.
Era essa, afinal, a vida de Pelé e sua necessidade de segurança. Não é que ele um dia atraísse hostilidade. Pelo contrário. Era preciso proteger Pelé, dos anos 1950 até sua partida, em 2022, do enorme amor e admiração que ele causava. Os fãs queriam estar por perto, tocá-lo, conseguir uma foto ou um autógrafo. Daí a necessidade de ter sempre um auxiliar ou segurança por perto – e Pelé teve outros, como o cubano Pedro Garay, por exemplo, nos anos 1970.
Seja você um profissional de segurança, um praticante de Jiu-Jitsu ou um fã de futebol, lembre da lição de Pelé: respire, mantenha a calma e pense taticamente na próxima saída para qualquer problema.
