Leia um episódio exclusivo do livro novíssimo de Ralph Gracie

Share it

 

 

 

Por: Ralph Gracie

 

Meu maior problema desde que cheguei na cadeia era esse: ficar sozinho.

A solidão era o habitat dos meus demônios, e eu não estava nem um pouco a fim de recebê-los para um café.

O primeiro dia foi foda.

A sorte, quando você chega lá e ainda está nervoso, é que teu estresse te cansa. Então você tem uma tendência de dormir muito, dormir o tempo todo. E, de fato, eu apagava toda hora.

Quando acordava, fazia flexão. Aí dormia de novo, acordava meio perdido, fazia mais flexão… E assim as horas se arrastavam.

A cadeia tinha cinco celas embaixo e cinco em cima, e no centro um espaço grande que dava acesso pra todas essas celas. Tipo um shark tank.

Mas por causa da pandemia, eles não liberavam a área grande pra geral. Para ficar ali era um por vez. E cronometrado.

Você ia praquele espaço, passeava, e depois de um tempo o oficial pedia pra você voltar pra sua cela, pra que um outro preso pudesse sair e circular um pouco. Era assim, um de cada vez.

Quando soltavam a gente pra ficar no shark tank, dava pra ver as pessoas. Você via o preso de baixo, via o preso de cima, passeava pela frente das celas…

Ninguém tinha acesso físico a ninguém, só nos víamos através do vidro das portas. Mas eu já estava animado só de poder conhecer as pessoas dali, mesmo que fosse daquele jeito.

Pensava: “Eu tenho de me adaptar a qualquer lugar. Eu tenho de ser maleável, ‘be like water’. Se eu estou aqui, tenho que ‘virar’ isso aqui – por mais que, no meu coração, eu não pertença a esse lugar.”

Portanto, quando tinha a oportunidade, saía da minha cela e circulava ali, observando como aquela porra funcionava. Como é que os caras se viram? É assim, é assado? Eles se comunicam, trocam coisas, resolvem as paradas?
E fui aprendendo…

Por exemplo: como os caras não podiam se falar de longe, eles faziam muitos sinais, tipo língua de surdo.

Eu não entendia porra nenhuma daqueles sinais, o bagulho era complexo.

Os caras da cadeia não precisam abrir a boca pra falar. Se comunicam com as mãos.
Um dia um cara tentou falar comigo por sinais e eu pensei: “Irmão, eu sou o cara errado… Não sou daqui – apesar de ter uma aparência de assassino psicopata, eu não sou daqui, não sou da cadeia…”

Por causa da covid não tinha comida quente, e a gente não estava recebendo as comidas que vinham de fora.

A comida, naquela época, era sanduíche. Basicamente isso: sanduíche de ovo. No almoço e no jantar. E eu não comia pão.

E como eu não comia pão, comecei a trocar.

Perguntei pra um maluco: “Ei, você quer o pão?”

O maluco ficou eufórico: “Quero! Quero sim! Me dá o pão, por favor.”

Aí eu dava uma chapada no pão – ele vinha num plástico – dava uma amassada naquele saco e escorregava o troço por debaixo da porta.

E assim fui conhecendo os caras lá dentro.

E como eu sempre gostei de agradar, dava uma paradinha na frente da cela de um e passava um pão, parava na cela de outro e passava um biscoito…

Quando não dava, eu guardava pra trocar depois. E com o tempo fui criando uma espécie de mercado ali, que garantiu minha sobrevivência de um jeito diferente.

Eu comia só laranja, maçã, ovo e umas carnes – um tipo de presunto – e era isso. Também não comia o biscoito. Era um biscoito doce pra caralho, um negócio horrível… Mas era uma puta moeda de troca. Porque todo mundo queria o biscoito.

Por mais que ainda estivesse sozinho na minha cela, eu já estava conseguindo fazer alguma conexão com as pessoas. Tinha um sujeito, um chinês doido pra caralho, que adorava o tal biscoito. Aí ele passava na minha cela, pegava o biscoito, batia um papo…
Isso me dava um alento.

Porque pelo menos eu conversava um pouquinho, né?
Era uma sensação boa.

E assim foi indo, dia após dia.

Quando eu ficava solto, trocava o meu pão por laranja, trocava por maçã…

E de vez em quando eu simplesmente dava as coisas pros outros, sem pedir nada em troca.

Por mais que eu estivesse preso, eu não era um cara ruim. Não sou um bandido nem nada parecido.

*** Em “É o que é – Histórias do Pitbull”, de Ralph Gracie (Editora LVM, 2026). Trecho cedido pelos editores ao GRACIEMAG com exclusividade. Confira mais sobre o livro, aqui.

 

 

Ler matéria completa Read more