Ouro duplo em Vegas, lesão e retorno: a resiliência do campeão Antonio Denkvitts

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Após uma temporada avassaladora em 2024, coroada com o cobiçado ouro duplo no American National em Las Vegas, o faixa-preta Antonio Denkvitts parecia trilhar um caminho rumo ao topo do ranking mundial em sua categoria. No entanto, o esporte de alto rendimento impõe pausas forçadas, e uma séria lesão em 2025 levou o atleta ao estaleiro.

Longe dos holofotes e das áreas de luta, Denkvitts mergulhou em um processo de introspecção e reconstrução. O que para muitos seria um motivo de desânimo, para o lutador tornou-se uma oportunidade de “afiar o machado.” O retorno aos pódios em 2026 não é apenas uma volta à rotina de medalhas, mas a afirmação de um atleta que compreendeu que a resiliência é uma ferramenta tão vital quanto o knee cut ou o armlock que executa com perfeição.

Nesta entrevista exclusiva, Antonio fala sobre a volta por cima este ano (já com três pódios em três competições no eixo Florida-Texas), abre o jogo sobre as lições aprendidas no departamento médico, e explica por que, no tatame da vida, o segredo do sucesso reside na capacidade de evoluir 1% a cada novo amanhecer.

GRACIEMAG: A temporada 2024 foi bastante vitoriosa para você. Então veio uma séria lesão em 2025 e agora, em 2026, você já está voltando a subir ao pódio das competições. O que você aprendeu com esses altos e baixos na carreira de um campeão de Jiu-Jitsu?
ANTONIO DENKVITTS: Acredito que trabalhei muito duro para a temporada de 2024. Foi um período de muita dedicação, muito treino e foco total no objetivo, e isso acabou se refletindo nos resultados, como o ouro duplo no American National. Porém, logo depois veio uma lesão séria em 2025. Talvez eu tenha sido um pouco descuidado em algum momento ou exigido demais do meu corpo, e isso acabou cobrando o preço. O Jiu-Jitsu nos ensina muito sobre resiliência, e esse período foi uma grande prova disso para mim. Aprendi a escutar mais o meu corpo e entender que descanso também faz parte do treinamento. Muitas vezes o atleta quer treinar o tempo todo, mas saber a hora de recuperar é fundamental para ter longevidade no esporte. Durante a recuperação eu nunca parei completamente de treinar, apenas adaptei os treinos e respeitei os limites do meu corpo. Usei esse tempo para estudar mais o jogo, trabalhar posições que antes eu não treinava tanto e fortalecer pontos fracos. Essa é uma das coisas mais incríveis do Jiu-Jitsu: sempre existe algo que pode ser adaptado e desenvolvido. Hoje vejo que até os momentos difíceis acabam sendo oportunidades de evolução.

Quais foram as suas principais conquistas no Jiu-Jitsu e o que elas representam para você?
Com certeza uma das conquistas mais marcantes foi o título do American National, especialmente por ter sido um ouro duplo em um campeonato grande, muito competitivo e realizado em Las Vegas. É um evento que reúne atletas de alto nível e conquistar esse resultado foi algo muito especial para mim. Mas além das medalhas, uma das maiores conquistas da minha carreira foi receber a faixa-preta. Para quem vive o Jiu-Jitsu, a faixa-preta representa muito mais do que habilidade técnica. Ela simboliza anos de disciplina, persistência, superação e aprendizado dentro e fora do tatame. Tanto as conquistas em campeonatos quanto a faixa-preta representam para mim a prova de que o trabalho duro, a consistência e a persistência sempre trazem resultados. O caminho muitas vezes é longo e cheio de desafios, mas quando você se mantém fiel ao processo, as recompensas acabam chegando.

Qual é o segredo para transformar um atleta mediano num grande campeão?

Acredito que o principal segredo é treinar não apenas o corpo e a técnica, mas também a mente. O aspecto psicológico é um dos maiores diferenciais no alto nível. Muitas vezes o que separa dois atletas tecnicamente muito bons é justamente a força mental e a capacidade de lidar com pressão. No meu caso, procuro trabalhar isso todos os dias. Não é apenas sobre chegar no treino e repetir movimentos, mas sobre estar mentalmente preparado para competir, superar dificuldades e manter o foco mesmo quando as coisas não saem como planejado. Outro ponto muito importante é fazer do Jiu-Jitsu o seu principal objetivo. Ser campeão exige sacrifícios, disciplina e muitas renúncias. O treino precisa ser prioridade. Não pular treinos, dar o máximo em cada sessão e buscar evoluir constantemente. Quando você sabe que fez tudo o que precisava ser feito na preparação, isso gera confiança. E essa confiança se reflete diretamente no psicológico e na forma como você entra para competir.

Como você define o seu estilo de lutar e competir?
Eu gosto de lutar de forma solta e dinâmica. Sempre me senti muito confortável jogando por baixo, trabalhando a guarda. Gosto bastante da guarda com lapela, da De La Riva e da guarda aranha, posições que me permitem manter o quadril solto e criar diferentes tipos de ataque. Ao mesmo tempo, gosto muito de passar a guarda também. Minhas passagens favoritas são o knee cut e o leg drag, porque são posições que controlam muito bem o quadril do adversário. No Jiu-Jitsu, a passagem de guarda é um dos grandes desafios desse “xadrez” que acontece no tatame, talvez só atrás da finalização. Um cenário que gosto muito é puxar para a guarda, conseguir a raspagem e já cair por cima iniciando a passagem de guarda. A partir daí já começo a buscar a finalização. Falando em finalização, o armlock sempre foi meu golpe favorito desde a faixa-branca. Sempre me senti muito confortável atacando os braços do adversário. Quando consigo chegar na posição certa, sinto que tenho um bom controle para finalizar, especialmente começando do cem quilos.

Qual é a frase motivacional que você gosta de repetir para você mesmo quando está passando por uma situação difícil na carreira?

O Jiu-Jitsu nos ensina constantemente a sermos resilientes. Então algo que sempre repito para mim mesmo é: tente encontrar algo para melhorar no dia de hoje. E também gosto de lembrar que amanhã será um novo dia. Eu procuro buscar sempre aquele 1% a mais, mesmo nos dias difíceis. Nem sempre tudo vai sair perfeito, nem todos os treinos vão ser incríveis, mas sempre existe algo que podemos aprender ou melhorar. O importante é continuar evoluindo, passo a passo, sem desistir do processo e o amanhã estará lá para melhoras.

Quais são as dicas que você costuma dar a quem tem o sonho de se tornar um competidor relevante?
A primeira coisa é fazer do Jiu-Jitsu o seu principal objetivo. Se você realmente quer chegar longe no esporte, precisa estar 100% comprometido com isso. Muitas vezes não existe plano B, é necessário acreditar no que você quer e fazer o que precisa ser feito para alcançar esse objetivo. Também é fundamental cuidar do corpo. Preparação física, alongamento, recuperação e alimentação são fatores extremamente importantes para que o atleta consiga manter um alto nível competitivo por muitos anos. Outro ponto essencial é a humildade. No Jiu-Jitsu todos erram, todos passam por derrotas e momentos difíceis. Ter humildade para reconhecer seus erros, escutar seus professores e aprender com cada experiência faz toda a diferença na evolução. E uma dica que muitas pessoas ignoram é aprender inglês. O Jiu-Jitsu é um esporte global. Grandes eventos, seminários, oportunidades e entrevistas muitas vezes acontecem em inglês. Falar o idioma abre muitas portas e permite que você alcance muito mais pessoas com a sua história e com o seu trabalho.

Quando alguém hesita em treinar Jiu-Jitsu, o que você costuma dizer para convencer essa pessoa a vestir o kimono e começar a jornada na arte suave?
Começar algo novo nunca é fácil, independente do que seja. Sempre existe insegurança ou receio, mas normalmente são justamente as coisas mais difíceis que mais valem a pena a longo prazo. O Jiu-Jitsu traz inúmeros benefícios, tanto para a saúde física quanto para a saúde mental. Durante o treino você acaba esquecendo dos problemas do dia a dia, descarrega energia e sente uma grande sensação de recompensa depois de um treino intenso. Além disso, o Jiu-Jitsu cria amizades muito fortes. O ambiente do tatame gera uma comunidade onde as pessoas se ajudam, evoluem juntas e criam laços que muitas vezes duram a vida inteira. Um exemplo pessoal que sempre gosto de mencionar é o meu pai. Ele passou muitos anos querendo começar e finalmente iniciou os treinos há dois anos com seus 56 anos. Hoje ele está completamente envolvido com o esporte e sendo um faixa-azul. Isso mostra que nunca é tarde para começar e tem zero arrependimentos de ter feito.

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