
Vitor Shaolin estuda MMA com o colega Marcos Lôro em imagem do baú de GRACIEMAG. Foto por Luca Atalla.
Quatro décadas após o povo do Jiu-Jitsu cair de amores pelas cumbucas de açaí no Rio de Janeiro, agora seus atletas estão tendo a oportunidade de lutar dentro de uma delas, em tamanho família.
É a arena do UFC BJJ, que a partir desse formato inovador e regras próprias, tem causado curiosidade entre os fãs de Jiu-Jitsu e atraído grandes astros do esporte, entre wrestlers, grapplers e faixas-pretas. Se o evento vai conquistar o público e virar mania, como o açaí em Copacabana nos anos 1980, ainda veremos.
O tatame, que lembra as velhas pistas de skate, foi inspirado no evento Karate Combat e em edições do Pit Submission Series. A arbitragem do UFC BJJ tem arrancado elogios, graças a campeões experientes, como os brasileiros Leticia Ribeiro, Ricardo “Cachorrão” Almeida e Vitor Ribeiro, o Shaolin, ao lado dos americanos Eliot Kelly, Chris Crail e Jason Harzog.
Em conversa com o GRACIEMAG.com, a fera Shaolin conversou sobre as características e desafios do evento em forma de tigela, e sobre as regras e lições que ele ainda extrai, ao arbitrar lutas em ritmo tão intenso – como as lutas de astros como Nicholas Meregali, que retornou após severa contusão com vitória, no meio de fevereiro.
Entre um evento e outro, Vitor segue ensinando o bom Jiu-Jitsu em sua novíssima academia, na cidade de Scotch Plains, Nova Jersey. Confira!
GRACIEMAG: Você passou dos 40 anos de Jiu-Jitsu, e completou dez como árbitro no UFC. Que lições você ainda consegue aprender sobre Jiu-Jitsu, ao ver grandes lutas ali do melhor lugar do estádio?
VITOR SHAOLIN: Eu levo muito a sério a função de árbitro, e procuro rever lutas e estudar muito. Quando entro ali para mediar um combate, minha meta é atuar com o máximo de tranquilidade para reduzir ao mínino o risco de erro. Fomos atletas, e sabemos como é doloroso ver um árbitro cometer um erro, por precipitação ou desatenção. Eu tenho me dedicado a essa função de árbitro com toda minha energia, e por isso não tenho competido há tempos. Não gosto de fazer nada meia-boca. Dou minhas aulas para meus jovens alunos em Nova Jersey, e o resto do meu tempo eu foco em ser um bom árbitro.
O que passa na sua cabeça enquanto arbitra uma grande luta, como foi o retorno do Meregali?
Uma vez lá dentro, é puro caos. Eu só posso estar lá de cabeça serena, totalmente vazia, como se fosse uma final de Mundial. É assim que eu procuro agir, sem interromper os atletas até que eu esteja convicto que chegou a hora de separá-los. Procuro estar, como nos meus tempos de atleta, calmo durante o maremoto.
O que pensa sobre o formato bem peculiar da arena do UFC BJJ?
Em lutas de atletas explosivos, bons de quedas e rápidos, volta e meia o árbitro se via numa situação de precisar interromper a luta em momentos chaves, quando ambos ameaçavam caírem fora do tapete. Isso sem falar naqueles casos que tantas vezes vimos, quando os competidores chegam ao limite do dojo com uma finalização quase encaixada e dá a maior discussão.
É bom para os atletas? Eles têm elogiado?
O formato do dojo do UFC BJJ requer atenção em especial quando os lutadores ou lutadoras caminham para trás, buscando uma defesa, afinal é um formato inclinado. É preciso assim se ligar, para manter o equilíbrio. Mas é uma ideia promissora, que ao meu ver minimiza muitas reclamações e tem facilitado o nosso trabalho de arbitragem. Claro que sempre há um treinador ou atleta que vai chiar, mas normalmente são atletas que vão reclamar até de uma unha quebrada. Há prós e contras para lutadores de todas as origens. O bom representante do Jiu-Jitsu, assim como os bons lutadores de wrestling, vai se adaptar e seguir vencendo como costuma fazer nas outras ligas.
E as regras?
Creio que, mais do que o formato do dojo, os três assaltos de cinco minutos podem ser mais desafiadores. Porque o camarada precisa saber dosar a energia para não chegar ao último round cansado, devido ao ritmo do combate. Então é aquela tática, procurar ganhar posição que não deixe você exausto, já que é preciso gás total para o último assalto. Ninguém quer ir para a última etapa de boca aberta, entregue às moscas. Mas isso é outro aspecto que você se adapta e prepara bem durante os treinamentos.
Você tem arbitrado lutas de jovens craques do Jiu-Jitsu. Acha que o jogo da nova geração é melhor que o das anteriores?
Não sei se é justo comparar, eu também lutei e treinei com campeões muito rápidos, e com finalizadores muito técnicos. Caras como Léo Vieira, Royler Gracie, Robinho Moura não ficam nada a dever a ninguém de nenhuma geração. O nível de lutas no UFC BJJ está absurdamente alto e a torcida fica de boca aberta, claro. E o que mais me alegra é ver onde o esporte chegou. Se você for pensar, esse estilo de Jiu-Jitsu sem kimono era treinado pelos mestres Carlson e seu irmão Rolls, seguiu evoluindo com seus alunos e está hoje no UFC. Queremos que isso só melhore, por isso fazemos reuniões de arbitragem o tempo todo, para entendermos como podemos melhorar e colaborar ainda mais com esse esporte.
Como está a vida por aí?
Eu tenho apenas uma escola, para ter mais tempo para mim. Vejo a Gracie Barra e a Alliance fazendo um ótimo trabalho de expansão e franquias, e o Jiu-Jitsu de qualidade está num ótimo caminho, atingindo cada vez mais pessoas. Eu quero manter um ritmo mais tranquilo, e poder curtir minha família e meus quatros cachorros. E, de vez em quando, pegar a estrada para arbitrar lutas sempre que precisarem dos meus conhecimentos.
