GRACIEMAG: Como andam os planos para a escola na Irlanda, Rodrigo?
RODRIGO BOROSKI: Eu vejo minha equipe retornando às origens do Jiu-Jitsu. Após uma caminhada bem sucedida nas competições – fomos para as cabeças no ranking e fiz o primeiro representante da Irlanda campeão do mundo – decidi investir mais na defesa pessoal.
O que motivou você a optar por esse caminho?
Creio que foram os podcasts. Eu vejo muitos, e assisti a um que me chamou atenção, com os irmãos Valentes. A escola deles é voltada para o Jiu-Jitsu Gracie, para a defesa em situações reais. Isso mexeu comigo pois essa base é a que aprendi, e o que sempre quis incutir nos jovens alunos. Quero transformar meninos e meninas em pessoas sem medo de sair na rua.
E o que mais influenciou na sua decisão?
Eu vi também outro episódio, com mestre Rorion Gracie. O filho mais velho de grande mestre Helio lembrou que o Jiu-Jitsu deve servir tanto para a criança quanto o idoso. A luz, talvez, tenha vindo de outras entrevistas. Quando li o Rodolfo Vieira e o Marcus Buchecha dizendo que a pior dificuldade que eles notaram na transição para o UFC foi absorver os chutes e socos. Aquilo me fez pensar. Sempre aprendi nos tatames sobre o poder do famoso treino de taparia, o recurso do pisão e tantas liçõs fundamentais. Vi que era hora de voltar às origens.
Você já sentiu na pele como o Jiu-Jitsu salva?
Outro dia, vi um aluno meu da turma infantil voltar da escola e contar que levou um sopapo, e não soube como reagir. Logo depois, eu mesmo fui atacado num supermercado na Irlanda, mesmo com meu tamanho e essa cara de mau (risos). Foi a gota d’água. Percebi que eu precisava deixar de lado as técnicas mais esportivas e voltar a ensinar o que realmente é o Jiu-Jitsu fundamental.
Comercialmente, isso é bom?
Convivo com uma doença há tempos, e os diversos tratamentos contra o câncer me ensinaram que nem tudo deve girar em torno de dinheiro e clientes. Sempre tentei abraçar as duas esferas, num meio-termo entre as aulas de defesa pessoal e as de competição. Mas talvez o meio-termo não seja eficaz. Me senti um professor morno. E lembrei de uma carta de São Paulo, em que é dito que “Deus cospe o morno da boca”. Eu nunca fui morno na minha vida, e nem quero ser. Quero me dedicar 100% a proteger meus jovens alunos e os cidadãos que necessitam de um suporte.
Qual será a maior diferença agora nas aulas?
Creio que o competidor se coloca em posições onde ele não precisa se preocupar se vai levar chutes, socos ou mordidas. Ele treina segundo regras cristalinas. Já na defesa pessoal a base é diferente, o posicionamento do corpo seja na guarda ou na passagem é completamente diferente. Afinal, a qualquer momento ele pode tomar até uma cabeçada, vir um segundo agressor, cair na calçada, machucar o joelho no chão…
Acha que a defesa pessoal também evoluiu dos tempos de mestre Helio Gracie para cá?
Acho que muitos professores não aprenderam e não sabem como ensinar técnicas eficientes. E isso está tirando a eficiência da nossa arte, como aconteceu com outas artes marciais. Um exemplo disso é o karatê. A arte ensinada hoje não é a mesma que o Lyoto Machida aprendeu e usava no UFC, certo? Acredito piamente que um atleta que sabe se defender, a partir de quedas variadas, bloqueio de socos e fugas de quadril, vai precisar apenas de pequenos ajustes para entrar em campeonatos. E o contrário acontece: o bom competidor que quiser aprender a defesa depois de velho pode não dominar o básico.
Acha que os alunos e parentes vão curtir esse retorno às origens?
Quando o aluno entra na minha escola, a primeira coisa que pergunto é: Por que você está aqui? Alguns dizem que querem fazer uma atividade física divertida. Mas 99% quer aprender a se defender. E 0% me fala: quero ser lutador profissional. Isso parte da instituição de ensino, professores muitas vezes forçam os alunos a competir.

