
Ivan Rocha com seu filho, Gregor Rocha, e a sua esposa, Camila Almeida – Foto: arquivo pessoal
É a equipe vencedora que faz um atleta medalhista de ouro ou são os jovens campeões que forjam uma equipe vencedora?
Faixa-preta e líder da GB em Tampa, na Flórida, o campeão Ivan Rocha tem colhido os frutos de um trabalho persistente e de uma filosofia de treinos inteligente, que procura motivar os jovens atletas sem aquela pressão prejudicial.
Nos últimos meses, o professor conhecido como Cabecinha viu seu filho e sua esposa faixa-roxa conquistarem o ouro pan-americano.
O filho, o jovem Gregor Rocha, venceu o Pan Kids. Já a instrutora Camila Almeida sagrou-se campeã pan-americana ainda como faixa-azul.
Em conversa com a equipe GRACIEMAG.com, o experiente Ivan refletiu sobre os caminhos e descaminhos que jovens competidores enfrentam, e deu lições essenciais sobre motivação, apoio dos pais e filosofia de treinos. Para saber mais, siga @gbtampa.citruspark no Instagram.
GRACIEMAG: Que erros os pais e professores costumam cometer no início da trajetória de um jovem campeão ou campeã?
IVAN “CABECINHA” ROCHA: Quando o sonho de formar um campeão se torna maior do que o desenvolvimento da criança, a consequência pode ser a perda do prazer de treinar.
Isso acontece por fatores variados, mas o maior inimigo dos jovens atletas é a cobrança excessiva. É aquela forçação de barra que só traz pressão emocional e prejudica a criança e todos em volta.
Há outros erros?
Sim, vários. Outro erro muito comum no Jiu-Jitsu e em outros esportes é comparar constantemente o filho com outros atletas. Esquecem aí que cada criança tem seu próprio ritmo de evolução. Os pais têm papel fundamental no apoio, incentivo e exemplo – é preciso ter consciência de que campeões são construídos com paciência, disciplina e amor pelo que fazem, não apenas com a busca por medalhas e títulos. Já vi muitos talentos desistirem não por falta de habilidade, mas por excesso de pressão. A função dos pais não é ser técnico, árbitro ou cobrador. É ser o porto seguro da criança.
Como a família pode se tornar um porto realmente seguro, pela sua experiência?
Quando a criança sabe que será apoiada independentemente do resultado, ela desenvolve confiança e tem muito mais chances de alcançar seu verdadeiro potencial. Eu cometi muitos erros nesse processo com meu filho, o Gregor. Como pai e professor ao mesmo tempo, muitas vezes foi difícil separar esses dois papéis. Em alguns momentos, a cobrança do treinador acabava falando mais alto do que o olhar do pai.
Como corrigiu isso em você?
Tudo é o tempo e a sabedoria, aquela capacidade de ver que a coisa não está funcionando, e corrigir a rota. Fui aprendendo aos poucos que meu filho precisava mais do meu apoio e da minha compreensão do que da minha cobrança. Foi um processo de aprendizado para mim também. Aos poucos, venho buscando esse equilíbrio, entendendo que a formação de um atleta é importante, mas a formação de um ser humano feliz e confiante é ainda mais valiosa. Foi um aprendizado constante encontrar esse equilíbrio.
Como era a sua atitude ao convocá-lo para os torneios?
Rapaz, eu nunca o obriguei a competir. A decisão de participar de campeonatos sempre foi dele, e sempre respeitei suas escolhas. O que eu dizia a ele, desde pequeno, era que eu gostaria muito de vê-lo se tornar faixa-preta de Jiu-Jitsu um dia. E não por causa de medalhas ou títulos, mas porque eu conheço o impacto transformador que o Jiu-Jitsu tem na vida das pessoas. Depois de mais de 25 anos vivendo esse esporte, sei que o verdadeiro valor do Jiu-Jitsu vai muito além das competições. Ele ensina disciplina, respeito, perseverança, humildade e confiança. Meu maior desejo nunca foi formar apenas um campeão no tatame, mas ajudar a formar um homem preparado para os desafios da vida.
Como você conseguia manter o lado divertido da competição?
Equilibrar diversão e resultado é um dos maiores desafios para qualquer família que vive o esporte de competição. O Gregor hoje tem 15 anos, treina e compete em alto nível, então naturalmente existem responsabilidades, metas, sacrifícios. Mas sempre procurei lembrar que, antes de ser atleta, ele é um adolescente. Existem momentos em que ele precisa abrir mão de passeios, festas ou de estar com os amigos para treinar ou competir. Faz parte da escolha de quem busca grandes resultados. Ao mesmo tempo, eu acredito que ele precisa viver as experiências normais da idade dele, criar memórias, se divertir e aproveitar a juventude.
Então tudo é uma questão de comunicação. Diálogo e olho no olho, sempre. Como qualquer coisa na vida, aliás.
Exato, o equilíbrio acontece através do diálogo – entre pai e filhos, entre alunos e mestres. Nem tudo pode ser treino e competição, assim como nem tudo pode ser diversão. Procuramos organizar a rotina para que ele possa perseguir seus objetivos nos tatames sem perder a adolescência, sabe?
E o que você fala para o Gregor e para outros jovens alunos para que eles compreendam tudo isso?
Eu costumo repetir que os resultados não podem definir a felicidade de um jovem atleta. Se ele ganhar, ótimo. Se perder, a vida continua. O esporte precisa ser uma ferramenta de crescimento e não uma fonte de pressão nociva. Quando existe esse equilíbrio, o atleta consegue evoluir, competir em alto nível e, ao mesmo tempo, aproveitar a jornada.

Ivan Rocha é líder da Gracie Barra em Tampa, na Flórida – Foto: arquivo pessoal
Ivan, como você motiva seu garoto após um eventual mau resultado?
Minha primeira reação é lembrar meu filho que o valor dele não está ligado a uma medalha ou ao resultado de uma competição. No esporte, vencer e perder fazem parte do processo de crescimento. Sempre que termina um campeonato, independentemente do resultado, a nossa primeira mensagem para ele é: “Está tudo bem. Levanta a cabeça. Nós te amamos muito. Somos um time e, ganhando ou perdendo, estaremos sempre juntos.” A criança precisa sentir que o amor e o apoio da família não dependem do resultado que ela teve naquele dia. Também procuro mostrar para ele o tamanho do orgulho que tenho, mas não por causa das medalhas.
O que mais orgulha você no Gregor, hoje?
Meu maior orgulho é ver o ser humano que ele está se tornando. Ver seu caráter, sua disciplina, sua humildade, sua coragem e a forma como ele trata as pessoas. Isso vale muito mais do que qualquer título. Como pai, esse é o maior prêmio que posso receber. Depois, conversamos sobre o que aprendemos naquela experiência. Analisamos juntos o que deu certo e o que pode melhorar. E a mensagem é sempre a mesma: vamos treinar juntos, vamos evoluir juntos e vamos nos preparar para a próxima oportunidade. Eu sempre digo que o verdadeiro campeão não é aquele que nunca perde. O verdadeiro campeão é aquele que nunca desiste e que está sempre buscando evoluir, seja nas competições, nos treinos ou na vida pessoal. É isso que tento ensinar para ele todos os dias.
E você tem suas próprias medalhas e lembranças para ajudá-lo nisso, certo?
Exatamente. Porque, no fim das contas, as medalhas ficam guardadas em uma caixa, mas os valores que o esporte ensina ficam para a vida inteira. A gente busca que ele tenha uma cabeça de campeão. Se é isso que ele realmente quer para a vida dele, então ele precisa seguir firme, com disciplina, foco e com uma vontade cada dia maior de evoluir.
Como você mede a evolução dos alunos e alunas?
É uma coisa bem mais ampla, que está além da cor da medalha. Ganhar campeonatos é muito bom, é importante, é o objetivo de qualquer atleta que compete em alto nível, e não há problema em querer vencer. Mas a gente reforça que o mais importante é não esquecer do ser humano incrível que ele está se tornando, e que ele ainda vai se tornar. Porque a verdadeira evolução não é só no resultado, mas na forma como ele cresce como pessoa. Ter cabeça de campeão é continuar melhorando todos os dias, mesmo depois de vitórias ou derrotas. É aprender, ajustar, insistir e nunca desistir. É isso que a gente tenta construir nele: uma mentalidade forte no tatame e uma pessoa ainda melhor fora da academia.
O que conseguiu avaliar do jogo dele no Pan Kids, nas duas lutas que ele fez?
O Pan Kids é sempre uma experiência especial, porque reúne os melhores jovens atletas do mundo e exige não só técnica, mas também maturidade emocional. Nessa edição, ele fez duas lutas muito sólidas. Na primeira, ele estava vencendo por 8 a 0 e conseguiu a finalização com bastante controle e precisão. Já na final, ele venceu por 5 a 0, também com uma atuação consistente do início ao fim, mantendo o controle total da luta. Um detalhe é que, nas duas lutas, ele não sofreu pontos ou nenhuma vantagem, o que mostra o nível de domínio e segurança que ele teve durante a competição. Foi incrível, afinal ele lutou de forma inteligente e estratégica, fazendo os adversários entrarem no jogo dele. Ele conseguiu ditar o ritmo e impor seu estilo, algo que foi muito treinado e construído ao longo do tempo. Mais do que as vitórias, o que me chamou atenção foi esse domínio técnico e mental. No geral, foi uma competição produtiva. O resultado veio, mas o mais importante foi a forma como ele competiu: com inteligência, controle e maturidade. Isso mostra que todo o trabalho vem sendo bem feito e deixa a certeza de que ele está no caminho certo.
