
Por Professor Bráulio Estima *
A visita de Sua Majestade à escola Roger Gracie, no dia 24 de junho de 2026, foi muito mais do que um momento marcante. Para mim, foi a confirmação de que o verdadeiro impacto do Jiu-Jitsu vai muito além dos tatames.
Ao olhar para aquele dia, vi décadas de história reunidas em um só lugar.
Mestre Maurício Gomes, que trouxe o Jiu-Jitsu Brasileiro para o Reino Unido, em outubro de 1998. Roger Gracie, que ajudou a projetar essa história para o mundo. E eu, Bráulio, que tive o privilégio de chegar em 2002 para dar continuidade ao trabalho da Gracie Barra em Birmingham e, ao lado do meu irmão Victor, dedicar a nossa vida ao crescimento do Jiu-Jitsu no Reino Unido, na Europa e, através dos nossos alunos e professores, contribuir para o desenvolvimento da modalidade em todo o mundo.
Ao mesmo tempo, Sam Sheriff mostrou que os valores do Jiu-Jitsu podiam ir ainda mais longe. Criou a REORG e transformou a nossa arte em uma ferramenta de recuperação, esperança e propósito para militares, veteranos e profissionais dos serviços de emergência. Como Embaixador Global da REORG, foi uma honra testemunhar esse reconhecimento. Não apenas pelo trabalho da instituição, mas pelo que ela representa para toda a comunidade do Jiu-Jitsu.
O maior ensinamento que levo desse dia é que o nosso legado não se mede apenas pelos títulos que conquistamos ou pelas academias que construímos. Mede-se pelas vidas que conseguimos transformar.
A visita do Rei Charles foi um reconhecimento da REORG, mas também mostrou ao mundo que o Jiu-Jitsu amadureceu. Hoje, ele já não é visto apenas como um esporte ou uma arte marcial. É uma ferramenta de educação, inclusão, recuperação e serviço à sociedade. E acredito que essa seja uma das maiores conquistas que todos nós, como comunidade, poderíamos alcançar.
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Uma das coisas que mais me marcou naquele dia foi a oportunidade de sentar e conversar diretamente com o Rei.
Era para ser uma conversa rápida, de aproximadamente oito minutos, mas acabamos passando muito mais tempo juntos, porque a troca foi muito natural e profunda. A primeira pergunta que ele me fez foi como eu havia começado no Jiu-Jitsu. Expliquei que comecei ainda jovem no Brasil e que, com o tempo, aquilo deixou de ser apenas uma arte marcial e passou a fazer parte da minha vida. O Jiu-Jitsu me deu um sonho: buscar o meu melhor e tentar chegar ao mais alto nível.
Logo em seguida, ele me perguntou sobre os desafios que enfrentei nessa caminhada. Compartilhei com ele um dos momentos mais difíceis da minha trajetória: quando sofri uma lesão séria, perdi temporariamente movimentos do meu corpo, precisei passar por uma cirurgia e enfrentei a incerteza se conseguiria voltar.
Expliquei que através da disciplina, mentalidade e dos valores que o Jiu-Jitsu me ensinou, consegui retornar e competir novamente no mais alto nível. Ele ficou muito impressionado com essa capacidade que o Jiu-Jitsu tem de transformar vidas.
O que me chamou atenção foi a curiosidade genuína dele em entender o “por quê”.

Fotos: Reprodução Instagram
Ele já havia ouvido dos membros da REORG, militares e pessoas das forças de segurança o quanto o Jiu-Jitsu tinha ajudado na recuperação, na saúde mental e na criação de um novo propósito. Mas ele queria entender por que esses mesmos benefícios também acontecem com pessoas fora desse ambiente: empresários, médicos, atletas, profissionais e pessoas comuns que encontram no Jiu-Jitsu uma ferramenta de evolução pessoal.
Conversamos bastante sobre isso. Expliquei que o Jiu-Jitsu é muito mais do que aprender técnicas de luta. Ele reúne alguns pilares que muitas vezes faltam na vida moderna: comunidade, exercício físico, aprendizado constante, desafios, superação e presença.
Quando você está no tatame, você está vivendo aquele momento. Você precisa estar presente. Os problemas externos ficam do lado de fora por alguns instantes e você entra em um ambiente onde todos estão tentando evoluir juntos.
Também falamos sobre algo muito especial do Jiu-Jitsu: apesar de ser considerado um esporte individual, ninguém evolui sozinho. Você precisa confiar nos seus parceiros todos os dias.
Existe uma conexão criada através do treino, da vulnerabilidade, das dificuldades e da ajuda mútua. Essa confiança cria uma comunidade muito forte. Ele demonstrou muito interesse nesse ponto — como uma arte marcial consegue aproximar pessoas de histórias completamente diferentes e dar a elas uma sensação de pertencimento, direção e crescimento.
Foi uma conversa muito leve também. Ele fez brincadeiras, mostrou bom humor e uma curiosidade verdadeira pelas histórias das pessoas.
No fim, o que ficou para mim foi perceber que ele não estava ali apenas para conhecer o Jiu-Jitsu como esporte. Ele estava interessado no impacto humano. Em como algo criado nos tatames pode ajudar pessoas a reconstruírem confiança, encontrarem propósito, melhorarem a saúde mental e buscarem uma versão melhor de si mesmas.
Foi um privilégio poder compartilhar um pouco da minha jornada e mostrar que o Jiu-Jitsu não muda apenas os esportistas. O Jiu-Jitsu muda vidas.
* Bráulio Estima, o Carcará, é professor da GB. É tricampeão mundial de Jiu-Jitsu na faixa-preta e campeão absoluto do ADCC, no evento de Barcelona em 2009.