
André Galvão durante o ADCC 2011, na Inglaterra. Fotos: Dan Rod / GRACIEMAG.
O paulista André Galvão saiu de casa para treinar Jiu-Jitsu no Rio de Janeiro aos 16 anos, acompanhou de perto crises e rupturas nas equipes Alliance, Master, Brasa e TT Jiu-Jitsu. Nada, contudo, sequer parecido com a tormenta que o líder da Atos Jiu-Jitsu tem encarado esta semana, no seu dojo em San Diego, Califórnia.
Faixa-preta desde 2005, André, de 43 anos, viu seu nome envolvido em acusações graves de má conduta em relação a uma atleta da equipe. O caso caiu como uma bomba de mil megatons na comunidade do Jiu-Jitsu, por uma série de motivos que se somam à tristeza que uma alegação de assédio já traz à vítima e todos os envolvidos.
André Galvão, afinal, surgiu no cenário esportivo em 2003, quando ganhou o hoje chamado Grand Slam como faixa-roxa, de lá para cá sempre foi reconhecido por GRACIEMAG e por toda mídia marcial como uma figura familiar, acolhedora, bondosa e defensora de valores cristãos e bíblicos.
Para completar, ele ainda é pai de uma das maiores estrelas do Jiu-Jitsu esportivo feminino atual, a faixa-preta Sarah, enquanto a Atos é a atual equipe campeã mundial no feminino pela IBJJF. A equipe de André ficou em quarto no masculino e em terceiro no juvenil, no Campeonato Mundial de Long Beach em 2025.
Campeão dos maiores torneios com e sem kimono, Galvão refutou todas as acusações em carta aberta aos seus alunos e admiradores. Ainda assim, já perdeu alguns patrocínios.
A carta de André dizia, na íntegra:
“Nos últimos dias, rumores falsos têm circulado online alegando conduta inadequada com alunas dentro da minha academia. Essas alegações não são verdadeiras, e estamos tomando as medidas legais cabíveis para proteger a integridade da Atos.
“Dediquei minha vida ao Jiu-Jitsu brasileiro e à construção de academias onde as pessoas possam treinar com segurança, confiança e dignidade. Tenho orgulho da nossa cultura: respeito, disciplina e profissionalismo – dentro e fora do tatame. Nosso espaço de tatame é cercado por funcionários, alunos e câmeras e sempre trabalhamos para manter um ambiente de treinamento seguro, respeitoso e transparente.
“Não irei me envolver em disputas nas redes sociais. No entanto, já estou tomando todas as medidas necessárias para proteger nossa comunidade e o nome da minha família. Garanto que, em breve, toda verdade será esclarecida, inclusive os fatos reais sobre a saída de alguns membros da equipe em razão de recentes mudanças administrativas e financeiras.
“Tudo isso teve início com uma pessoa que saiu da Atos recentemente, antes mesmo de toda essa situação, que nem sequer é mencionada nos rumores, mas que age movida por um ato de vingança pessoal decorrente de cortes financeiros e decisões administrativas. É doloroso ver atitudes mal intencionadas por parte de alguém que se beneficiou tanto ao longo dos anos e que deveria ter, no mínimo, um pouco de gratidão e respeito pela equipe.
“Se você é aluno(a) ou responsável e tiver qualquer dúvida ou preocupação, indico que entre em contato conosco diretamente. Toda preocupação legítima será tratada com seriedade e pelos canais adequados – não por meio de acusações vagas nas redes sociais.
“A todos que têm apoiado nossa academia e nossa equipe, meu sincero agradecimento. Seguiremos focados no que realmente importa: oferecer instrução de nível mundial em um ambiente respeitoso e manter nossa academia como um espaço onde todos possam crescer.
“No fim, tenho fé de que a verdade prevalecerá. Permaneço ao lado da minha família, Sarah e Angélica, em todas as tribulações. Que Deus abençoe a todos.
André Galvão”

André durante o Mundial de Jiu-Jitsu 2012. Foto: Dan Rod/GRACIEMAG
A competidora faixa-roxa Alexa Herse, 18 anos, pivô das acusações que começaram a brotar na semana passada, em fóruns esportivos na internet, expôs os acontecimentos e confirmou sua saída da Atos. Ela foi seguida por alguns campeões e campeãs da equipe.
Seu relato foi o seguinte:
“Nos últimos seis meses, fui deixada muito desconfortável em diversas ocasiões por André Galvão. Ele me tocou de forma inapropriada durante os treinos. Ele repetidamente fez comentários sobre meu corpo e minha aparência. Durante os treinos, ele me separava do parceiro de treino que eu havia escolhido, mandava meu parceiro treinar com outra pessoa e me obrigava a treinar com ele. Ele gemia de forma sexual no meu ouvido enquanto estava em cima de mim. Em outra ocasião, quando sua cabeça estava perto da minha, ele lambeu minha orelha.”
A lutadora disse ainda estar arrasada, já que admirava o professor desde a faixa-cinza. E contou ter procurado Angélica Galvão, esposa de André e uma das lideranças da equipe em San Diego:
“Entrei em contato com Angélica Galvão, alguém que sempre admirei como uma segunda mãe e que me conhece e me orienta desde criança. Ela não só não fez nada a respeito, como me disse para não falar nada. Ela escolheu me ignorar, me silenciar e proteger o marido.
“Eu nunca quis isso. Não tenho nada a ganhar tornando isso público. Estou escolhendo deixar para trás todos os meus amigos e familiares. Esta é a minha verdade. E sei com certeza que não sou a única vítima disso. Para as outras meninas, espero que isso lhes dê coragem para se manifestarem.
“Por mais que doa, estou fazendo a minha parte para tornar este esporte um lugar mais seguro. Recuso-me a carregar uma vergonha que não me pertence. O silêncio só protege os abusadores, e eu me recuso a ficar calada por mais tempo. Já registrei uma queixa na polícia local”.
A Federação Internacional do esporte, em suas redes sociais, divulgou uma longa declaração oficial, reforçando seu comprometimento com um ambiente seguro nos campeonatos e academias de Jiu-Jitsu filiadas, e que está acompanhando o andamento do caso para estudar possíveis sanções e “medidas decisivas”:
“A IBJJF condena de maneira inequívoca todas as formas de comportamento abusivo e conduta anti-profissional. Não toleramos ou apoiamos qualquer atitude que ameaça o bem-estar de praticantes de jiu-Jitsu e a reputação do nosso esporte”, diz um trecho. “A segurança de alunos e a integridade do ensino da arte marcial são valores inegociáveis, e vamos continuar a desenvolver nossos protocolos para proteger toda nossa comunidade.”
