
Romualdo Lucas executa uma queda durante competição do ADCC
Com 24 anos dedicados ao Jiu-Jitsu e nove anos como faixa-preta, Romualdo Lucas construiu uma trajetória que combina desempenho competitivo, formação técnica e impacto social. Natural de Arcoverde, no interior de Pernambuco, ele iniciou na arte suave aos 12 anos e transformou a prática em profissão, consolidando-se como atleta ativo no circuito internacional da IBJJF e como formador de atletas dentro e fora do Brasil.
Graduado faixa-preta por Gessé Filho, da Nova União Pernambuco, Romualdo carrega uma formação tradicional e disciplinada. Hoje representando a Gracie Barra, uma das maiores organizações de Jiu-Jitsu do mundo, ele atua simultaneamente como competidor e professor, ampliando sua influência para além das competições e contribuindo diretamente para o desenvolvimento técnico de novos praticantes.
O momento de virada: quando o Jiu-Jitsu se tornou propósito
Embora o processo tenha sido natural, houve um ponto de consolidação na sua mentalidade profissional. Ao relembrar a fase de transição, ele explica que a mudança começou aos 19 anos, ainda faixa-azul, durante sua primeira viagem para competir fora do estado.
“Foi algo transformador. Viajar para competir no Rio de Janeiro abriu minha visão. Logo depois entrei na faculdade de Educação Física e a ideia de viver intensamente do Jiu-Jitsu começou a se tornar concreta”, afirma.
Segundo ele, aquele momento marcou a compreensão de que o esporte poderia ser mais do que competição: poderia ser ferramenta de vida, carreira e transformação.
Formação sólida e responsabilidade precoce
Vindo de uma cidade pequena, onde havia poucos faixas-pretas experientes, Romualdo desenvolveu senso de responsabilidade desde cedo. Ele comenta que sua referência eram os praticantes mais antigos do tatame e, principalmente, seu professor.
“Desde a faixa-roxa eu já puxava treinos e dava aula em projeto social na Fundação Terra. Minha cabeça já estava voltada a ser exemplo com atitudes, não só com palavras”, ressalta.
Ao falar sobre Gessé Filho, seu professor responsável pela graduação, ele diz que a influência foi além da técnica.
“Ele não é famoso por títulos, mas com ele aprendi muito. Ele é do BOPE, vive uma vida intensa. Como ele mesmo fala: ele não vive do Jiu-Jitsu, ele vive para o Jiu-Jitsu.”
Essa mentalidade moldou sua postura profissional e sua disciplina competitiva.
Conquistas internacionais e presença no circuito IBJJF
Ao longo da faixa-preta, Romualdo acumulou títulos expressivos em competições continentais e internacionais da IBJJF, especialmente nos Estados Unidos. Entre suas principais conquistas como campeão estão:
- bi-campeão sul-americano no-gi adulto meio-pesado
- campeão sul-americano no-gi 2022 adulto meio-pesado
- campeão sul-americano no-gi 2023 adulto meio-pesado
- campeão houston international open ibjjf 2025 (gi e no-gi – open class e meio-pesado)
- campeão austin winter international open ibjjf 2025 (no-gi – open class e meio-pesado)
- campeão los angeles winter international open ibjjf 2026 (gi e no-gi – meio-pesado)
- campeão rio international open ibjjf 2023 (master 1 open class)
- campeão austin international open ibjjf no-gi 2021 (open class e meio-pesado)
Além dos títulos, ele mantém presença constante em pódios de brasileiros e sul-americanos na faixa-preta. Recentemente, no Austin Open, competiu múltiplas categorias no mesmo dia.
“Foi bem, cansativo pra caramba. Lutei tudo num dia só, mas consegui dois ouros, uma prata e um bronze”, relata.
O volume competitivo e a consistência reforçam sua inserção ativa no cenário internacional.
Estilo técnico e identidade competitiva
Romualdo desenvolveu um estilo objetivo, eficiente e estrategicamente estruturado, baseado no controle da luta desde a fase em pé até a finalização. Sua base sólida de quedas permite que dite o ritmo do combate logo nos primeiros momentos, construindo vantagem de maneira progressiva. Ao descrever sua identidade técnica, ele explica que sua estratégia é simples na teoria, mas exige refinamento constante na prática.
“Tenho um jogo de queda bem estruturado, o que facilita para ser passador e buscar a finalização. Basicamente é: derruba, passa e pega”, diz o faixa-preta.
Ele comenta que essa construção foi aprimorada ao longo dos anos em competições nacionais e internacionais, onde, como ressalta, o controle estratégico e a eficiência técnica são determinantes para o resultado.
O desafio de ser professor e atleta ao mesmo tempo
Um dos pontos que marcam sua trajetória é a necessidade de equilibrar alto rendimento competitivo com liderança técnica dentro da academia. Ele afirma que essa dupla função é um dos maiores desafios de sua carreira.
“Sempre fui o professor/atleta. Competir em alto nível sem ter alguém para puxar meus treinos e me corrigir é um desafio constante.”
Romualdo explica que muitas vezes precisa primeiro elevar o nível dos alunos para então extrair treinos mais intensos para si mesmo. Segundo ele, essa realidade exige disciplina e organização, mas também fortalece sua capacidade de liderança.
“É fazer o melhor independente das ferramentas que tenho”, destaca.
Visão sobre o cenário atual e responsabilidade como referência
Ao analisar o comportamento de novos atletas, Romualdo faz uma observação direta sobre a cultura contemporânea do esporte.
“O erro mais comum é querer o glamour da vitória e a vida de Instagram, mas não querer pagar o preço. É nos bastidores que as coisas acontecem”, afirma.
Como orientação prática, ele diz que direciona seus alunos a desenvolverem profundidade técnica antes de buscar amplitude.
“Peço para focarem em uma posição ou finalização específica. Quando você investe energia em algo, começa a evoluir e encontrar novas vertentes dentro da mesma técnica.”
Impacto internacional e legado
Para Romualdo, o verdadeiro valor da carreira não está apenas nos títulos acumulados, mas na capacidade de gerar transformação. Ele explica que sua atuação vai além da competição e está ligada à formação humana.
“Quero ter conseguido ajudar o máximo de pessoas possíveis através do Jiu-Jitsu. Os benefícios dessa arte são grandiosos.”
Ele afirma que acredita no valor internacional do seu trabalho porque o Jiu-Jitsu é uma ferramenta universal de desenvolvimento pessoal.
“O Jiu-Jitsu é minha ferramenta de trabalho para transformar vidas.”
