
Cecilia Meireles em foto de capa de seu livro Crônicas de viagem. Arquivo
Antes de se tornar uma imensa poeta, Cecília Meireles (1901–1964) foi filha de professora. Orfã de pai e mãe, mergulhou nos livros. Tornou-se uma influente educadora – foi professora primária, escritora de livros infantis e professora de literatura. Terminaria célebre, ainda, como tradutora, ao verter para o português livros de poesia da Índia e da China, escritos originalmente em sânscrito, hindi ou mandarim.
Como cronista, aquela carioca do bairro do Rio Comprido inspirava e emocionava o leitor. Cecília deixou incontáveis crônicas, publicadas nos maiores jornais do país. Ainda jovem, a futura autora dos consagrados livros “Romanceiro da Inconfidência” e “Batuque” refletiu sobre as qualidades e pilares fundamentais dos bons professores.
A crônica “Qualidades do professor” apareceu nas páginas do jornal carioca “Diário de Notícias”, em 10 de agosto de 1930, e está em variadas antologias – como “Cecília Meireles: obra em prosa” (Editora Nova Fronteira). Cecília, nas primeiras linhas, lança um elogio e uma provocação aos mestres:
“Se há uma criatura que tenha necessidade de formar e manter constantemente firme uma personalidade segura e complexa, essa é o professor.”
Em seguida, ela sugere que transformar vidas, no fim das contas, passa por três aspectos fundamentais: o coração, a imaginação e o conhecimento. Ensina, Cecília:
1. “Ter o coração para se emocionar diante de cada temperamento.”
2. “Ter imaginação para sugerir.”
3. “Ter conhecimentos para enriquecer os caminhos transitados.”
Confira a crônica na íntegra, a seguir no GRACIEMAG.com, e aprenda com a mestra Cecília Meireles.
• “QUALIDADES DO PROFESSOR” •
(Crônica de 1930)
Se há uma criatura que tenha necessidade de formar e manter constantemente firme uma personalidade segura e complexa, essa é o professor.

A poeta Cecilia Meireles foi eternizada na cédula de 100 cruzeiros nos anos 1990. Reprodução
Destinado a pôr-se em contato com a infância e a adolescência, nas suas mais várias e incoerentes modalidades, tendo de compreender as inquietações da criança e do jovem, para bem os orientar e satisfazer sua vida, deve ser também um contínuo aperfeiçoamento, uma concentração permanente de energias que sirvam de base e assegurem a sua possibilidade, variando sobre si mesmo, chegar a apreender cada fenômeno circunstante, conciliando todos os desacordos aparentes, todas as variações humanas nessa visão total indispensável aos educadores.
É, certamente, uma grande obra chegar a consolidar-se numa personalidade assim.
Ser ao mesmo tempo um resultado — como todos somos — da época, do meio, da família, com características próprias, enérgicas, pessoais, e poder ser o que é cada aluno, descer à sua alma, feita de mil complexidades, também, para se poder pôr em contato com ela, e estimular-lhe o poder vital e a capacidade de evolução.
E ter o coração para se emocionar diante de cada temperamento.
E ter imaginação para sugerir.
E ter conhecimentos para enriquecer os caminhos transitados.
E saber ir e vir em redor desse mistério que existe em cada criatura, fornecendo-lhe cores luminosas para se definir, vibratilidades ardentes para se manifestar, força profunda para se erguer até o máximo, sem vacilações nem perigos.
Saber ser poeta para inspirar. Quando a mocidade procura um rumo para a sua vida, leva consigo, no mais íntimo do peito, um exemplo guardado, que lhe serve de ideal.
Quantas vezes, entre esse ideal e o professor, se abrem enormes precipícios, de onde se originam os mais tristes desenganos e as dúvidas mais dolorosas!
Como seria admirável se o professor pudesse ser tão perfeito que constituísse, ele mesmo, o exemplo amado de seus alunos!
E, depois de ter vivido diante dos seus olhos, dirigindo uma classe, pudesse morar para sempre na sua vida, orientando-a e fortalecendo-a com a inesgotável fecundidade da sua recordação.
