O caminho para desafiar a idade e seguir treinando Jiu-Jitsu com saúde e sabedoria

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[Por Luiz Dias, professor da GAS Jiu-Jitsu]

Escrevo ao portal GRACIEMAG.com de Bali, paradisíaca ilha da Indonésia, para onde fui curtir as ondas de Padang Padang. A verdade é que era mais fácil há uns anos atrás, e em duas horas e meia, desci quatro ondas, estupendas.

Em vez de me lamentar, pensar no peso da idade e no cansaço, saí da água com um sentimento de felicidade. Porque percebi que, mesmo com o tempo pesando em meus ombros, a verdade é que eu aproveitei o dia. Curti a viagem, surfei no meu máximo e estou voltando ao Rio de Janeiro com ótimas memórias.

Seguir no tatames depois de décadas de treino provoca sensações parecidas. A idade, que há pouco parecia um adversário irrelevante, se mostra cada vez mais poderoso. E, de repente, você percebe que muito do que você foi o tempo levou.

No caso do Jiu-Jitsu, é normal sentir falta de algo aqui e acolá. Por exemplo, onde foi parar sua força, massa muscular, aquele gás, o velho e bom aeróbico, a flexibilidade? De quebra, surgem as inevitáveis dores crônicas, reflexo não apenas dos treinos e velhas lesões, mas da idade em si – olhe em volta, estão todos doloridos na sua idade.

Para quem ama treinar, ou surfar, nada disso deve ser um fator impeditivo. Simplesmente vá.

Se a atividade faz bem ao seu corpo, à sua mente, ao organismo e à paz interior, é vital esquivar do fantasma da idade. O macete para seguir com o máximo de foco e vontade é uma só: aceite seus novos parâmetros e não buscar comparações. Principalmente com pessoas mais novas. Adaptação, lembra?

Você anda se sentindo lento? Desenvolva novas estratégias. Dolorido? Faça mais pausas, sauna, banheira de gelo e massagens. Se você só puder treinar uma vez por semana, tudo bem – você ainda está com saúde para aproveitar um dia de Jiu-Jitsu. Lute por você, não para sobrepujar este ou aquele amigo na academia.

Esses pensamentos retornam à minha mente todos os meses, tão logo percebo amigos deixando de lutar – e de fazer vários outros esportes que amam. Esses meus camaradas acham que ficaram velhos. Ilusão.

Eu acredito em aceitar e saber envelhecer abraçando e agradecendo à vida –porque ela ainda permite que você aproveite coisas boas, ainda que sem o rendimento esperado, mesmo sem aquele ritmo de antigamente.

Se você estiver no tatame, ou no mar pegando onda, não exija mais do que seu corpo hoje pode oferecer. Mude seus parâmetros, lute a partir dos movimentos que você ainda consegue realizar. Converse com seu professor, escolha com sabedoria com quem vai rolar – repare na idade, experiência, peso. Se você está voltando de lesão, não vai querer pegar aquele faixa-azul com saúde de vaca premiada e babando sangue, certo?

Você costumava fazer seis treinos por dia, mas começou a bufar no quinto?  Sem problemas, mantenha o máximo de eficiência e realize três. Pegue o kimono e vá treinar. O mais importante é estar treinando.

No meu modo de observar, eu só perco no Jiu-Jitsu quando desisto. Como aprendi com meu ídolo Paulinho da Viola, o meu tempo é o agora – detesto o termo “no meu tempo…”. Ué, eu não estou vivo?

Treinar com meus amigos e meus alunos me faz me sentir ainda mais vivo. A lição, portanto, não é que você passe a treinar de qualquer jeito, só para estar com a turma. Ninguém gosta de perder, nem rola amistoso. Mas só de estar treinando você é um vencedor.

Não absorva a classificação master ou sênior como um marco do fim. Orgulhe-se disso. O Jiu-Jitsu é uma arte tão flexível que você é capaz de treinar dentro de qualquer limitação, de criança aos 90 anos.

Quanto mais idade, mais importante é achar sua turma e seguir treinando. É o melhor modo de aprender que só existe limite até onde nossa mente nos impõe.

Ontem, no mar em Bali, percebi que eu era o mais velho ali, e agradeci por isso com um sorriso. Eu sabia que, se não fosse pelo Jiu-Jitsu e sua força mental, eu nem estivesse mais surfando.

Persista, vista o kimono, chame aquele amigo e aquela amiga que pararam. Não deixe o ego ou a preguiça finalizar você.

O bem que o Jiu-Jitsu faz não é necessariamente arrochar aquele golpe. O melhor é chamar atenção para a saúde do seu corpo, foco na alimentação saudável, blindar seu cérebro contra pensamentos derrotistas e pessimistas.

Eu me preocupo em malhar, comer bem, treinar dentro do que posso. Meu lema: treino bom é treino feito.

Limites físicos podem surgir em qualquer idade, em qualquer fase da sua vida. Mas em nossas mentes, somos os responsáveis pelo que pensamos e como agimos. E o que acreditamos em poder fazer. Envelhecer não é sinônimo de reta de chegada.

Pegue seu kimono e vá treinar!

 

 
 
 
 
 
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