No final de 1999, na pacata cidade de Mucuri, no extremo sul da Bahia, um jovem capoeirista aceitou o convite de um amigo para experimentar uma modalidade até então misteriosa para ele. E assim foi finalizado de todas as maneiras imagináveis. Para muitos, a frustração seria o fim da linha; para Angelo Rios, foi o início de um fascínio incurável. O jovem que descobriu o Jiu-Jitsu pela vulnerabilidade decidiu mergulhar de cabeça nos tatames e, ali, encontrou não apenas uma profissão, mas a bússola para toda a sua vida.
Em Ipatinga, Minas Gerais, Angelo moldou sua técnica sob o olhar de grandes mestres, enfrentando os percalços naturais de quem busca a excelência no interior do país. Da faixa-branca à faixa-preta, compreendeu três máximas fundamentais da arte suave. A primeira: desistir jamais! A segunda: técnica refinada sempre será soberana contra a força bruta. A terceira: é preciso coragem.
Sim, foi preciso coragem para romper barreiras e não só lutar ou ensinar, mas sobretudo, empreender. Angelo fundou a própria academia em 2016. Ipatinga é conhecida como a “Cidade do Aço”, um polo operário onde o sustento é conquistado com suor pesado e resiliência diária. Angelo absorveu essa energia industrial e a transpôs para o tatame. Hoje, coordenando uma estrutura de ponta com seis aulas diárias e uma equipe altamente qualificada, equilibra a mente estratégica de um gestor com o corpo calejado de um competidor de alto rendimento.
Por muito tempo, cruzou o país como um “lobo solitário”, lutando sem corner e controlando o placar, o árbitro e a pressão das torcidas adversárias de forma totalmente autônoma. Mais do que colecionar medalhas, a verdadeira obra de arte de Angelo está no impacto social e na transformação humana. Através de três projetos sociais, sua escola atende mais de 80 crianças e adolescentes, provando que o tatame é uma ferramenta poderosa de inclusão e cidadania.
Formando cidadãos e exportando professores para países como Austrália e Estados Unidos, Angelo Rios conversou com a GRACIEMAG e revelou os segredos da disciplina, a importância de ser “treinável” e como o trabalho duro transforma alunos comuns em grandes campeões. Confira!

GRACIEMAG: Toda grande árvore tem raízes profundas. Como você começou no Jiu-Jitsu? Quem são os professores que moldaram o seu Jiu-Jitsu da faixa-branca até a faixa-preta e qual é a maior lição que você aprendeu com eles?
ANGELO RIOS: Comecei em 1999, com o professor Jetro, em Mucur, na Bahia. Uma cidade pequena, eu era praticante de capoeira e fui para uma aula de BJJ através do convite de um amigo. Fui finalizado de todas as formas possíveis e aquilo me deixou fascinado. Voltei para minha cidade, que é Ipatinga, em Minas, por volta de 2000, onde mergulhei de cabeça no Jiu-Jitsu. Com o professor Everilton Soneca, treinei da faixa-branca até a faixa-roxa. Em 2003 ele se mudou para os Estados Unidos. Ficamos um tempo treinando entre nós mesmos, meio que sem rumo, até chegar em Ipatinga o professor Phelipe Lira, da Pitbull de Teresópolis. Com ele, treinei até a faixa-preta. Lembro ter ficado até 2016 em sua escola. Infelizmente, o Lira não aceitava nenhum faixa-preta dar aula, não queria uma filial da escola, então em 2016 eu saí e montei a minha própria escola. Nessa época conversei com o professor Diego Carioca (Team Balloutta), com quem me filiei e dei sequência como professor. Sempre tive bons professores e o maior aprendizado que tive com todos eles é que no Jiu-Jitsu a técnica sempre irá superar a força.
Você comanda uma academia famosa na “Cidade do Aço”, em Ipatinga, Minas Gerais. Como a energia e a resiliência dessa cultura operária local influenciam a sua mentalidade e a dos seus alunos no tatame?
Em nossa região as pessoas estão acostumadas a trabalhar muito, somos do interior e as oportunidades se tornam um pouco mais difíceis. Com isso aprendemos desde cedo a trabalhar e a correr atrás do nosso sustento. O Jiu-Jitsu nos fortalece ainda mais, pois sabemos que a cada treino buscamos nossa superação diária.

Quais benefícios a sua escola de Jiu-Jitsu oferece à população da cidade de Ipatinga?
Nossa escola oferece o bem estar mental e físico, através de uma didática de ensino muito bem planejada. Temos três projetos sociais, atendemos mais de 80 crianças e adolescentes, mostrando que o Jiu-Jitsu pode transformar a vida dessas pessoas, além de ser uma excelente profissão, tendo portas abertas em todo o mundo. Nossa escola já tem professores vivendo exclusivamente de Jiu-Jitsu na Austrália e nos EUA.
Como é o seu planejamento diário para conciliar a rotina de professor em uma academia de ponta com a preparação física e mental exigida de um competidor de alto rendimento?
Hoje, em nossa escola, temos seis aulas diárias. Contamos com sete professores ministrando as aulas, em horário diferentes. Temos reuniões mensais com os professores para alinharmos todos os detalhes didáticos sobre as aulas e planejamento das mesmas. Não é fácil coordenar as atividades e ainda ser competidor de alta performance, mas sempre trabalhei muito e acredito que em equipe conseguimos alcançar grandes metas. Tenho uma equipe de profissionais muito qualificada e eles me ajudam muito em todo esse processo de dar aulas e competir nos melhores e maiores campeonatos de Jiu-Jitsu do mundo.

Muitas vezes, nos campeonatos, notamos que você luta sem ninguém no seu corner. Dá uma impressão de “lobo solitário”, no sentido de que você viaja sozinho para outras cidades do Brasil para competir… É assim mesmo que acontece? E como você lida com isso?
Realmente eu viajei para muitas competições sozinho, estava iniciando minha escola e ainda não tinha alunos me acompanhando. Com isso eu tive que lutar prestando atenção em todos os detalhes, lutar olhando o placar, olhando para o árbitro e lidando com a pressão da equipe adversária.
Qual é o segredo para transformar um aluno mediano num grande campeão?
O segredo é a disciplina, o foco, a determinação e a constância. O aluno precisa se tornar uma pessoa “treinável”. Você entende que tudo que acontece é para sua evolução e que o Jiu-Jitsu é um estilo de vida.
Quais são as dicas que você costuma dar a quem tem o sonho de empreender no Jiu-Jitsu e comandar uma academia de sucesso?
Sempre falo com meus alunos, o segredo para ter sucesso em qualquer área na vida é o trabalho. Muita dedicação, seriedade e determinação, entende? Fazer aquilo que ama, não por obrigação. Pensar sempre em união, crescer juntos como família. Juntos vamos muito mais longe.


