
Felipe Preguiça foi o primeiro atleta da história a conquistar dois títulos do absoluto do ADCC – Foto: reprodução Instagram
O ADCC 2026 terminou em Cracóvia, na Polônia, com uma sensação diferente das edições anteriores. O Brasil continua sendo uma potência incontestável, mas já não ocupa sozinho o centro do mapa. A competição, que historicamente funcionou como uma vitrine máxima do Jiu-Jitsu brasileiro, apresentou uma fotografia muito mais internacional: Rússia, Polônia, África do Sul e Estados Unidos colocaram campeões no topo. Oito atletas conquistaram seu primeiro título do ADCC, enquanto a Europa teve sua melhor participação na história do evento, com oito medalhas, sendo dois ouros.
O mapa do grappling mudou, é verdade, mas, quando falamos em Brasil, talvez ninguém represente melhor a continuidade da tradição brasileira do que Kennedy Maciel. Filho de Rubens Charles “Cobrinha”, tricampeão do ADCC (2013, 2015 e 2017), Kennedy conquistou o título até 66kg e repetiu o feito do pai na mesma categoria. Na final, diante de Gavin Corbe, Kennedy confirmou o título com um triângulo de braço. O resultado criou uma das imagens mais simbólicas da edição: pai e filho campeões do mesmo torneio, na mesma categoria, separados por gerações, mas unidos pelo mesmo DNA competitivo.
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Se Kennedy representa o futuro conectado à tradição, Felipe Preguiça representa a capacidade de um campeão sobreviver ao tempo. Preguiça tornou-se o primeiro atleta da história a conquistar duas vezes o absoluto do ADCC. E o título veio depois do brasileiro perder na semifinal da divisão acima de 99kg. O faixa-preta da Gracie Barra não desanimou. Ele decidiu seguir no torneio e voltou para disputar o absoluto.
Felipe venceu quatro lutas no peso aberto e terminou o campeonato no topo depois de derrotar Roosevelt Sousa na final com um mata-leão. Esse foi o quarto título da Gracie Barra no absoluto, isolando a equipe como a maior campeã da divisão mais importante do grappling mundial. Antes do segundo título de Preguiça, Roger Gracie em 2005 e Braulio Estima em 2009 já tinham conquistado o título.
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Outro capítulo marcante foi escrito por Victor Hugo, que anunciou a sua aposentadoria do ADCC. O brasileiro conquistou o título acima de 99kg com uma campanha impecável, finalizando os quatro adversários que enfrentou, e, aos 28 anos, encerrou a sua trajetória na competição no topo.
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Fenômeno americano
Durante muito tempo, atletas estrangeiros chegavam ao ADCC como desafiantes que precisavam superar o domínio brasileiro. Em Cracóvia, essa relação mudou. Magomed Dzharbaev, da Rússia, conquistou os 77kg. Pawel Jaworski levou o título dos 88kg para a Polônia. Luke Griffith colocou a África do Sul no topo. E os Estados Unidos conquistaram títulos com Jasmine Rocha e Helena Crevar.
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Poucas atletas simbolizam melhor essa mudança do que Helena Crevar. A americana, de apenas 19 anos, conquistou o título e confirmou uma ascensão que já vinha sendo observada há alguns anos. Mais do que isso: ela venceu todas as suas lutas por finalização.
Crevar já vinha chamando a atenção por sua qualidade técnica, mas neste ADCC ela apresentou um jogo muito mais completo, capaz de conectar wrestling, guarda, passagem e finalizações. E esse é o ponto que mais chama atenção. Aos 19 anos, Helena já não pode ser tratada apenas como uma promessa e sim como uma das referências da nova geração. E provavelmente ainda estamos vendo apenas o começo.
Surpresa e o encontro de gerações
No feminino, talvez a maior surpresa tenha sido a eliminação da multicampeã Gabi Pessanha nas quartas de final. A brasileira chegou ao ADCC cercada de enorme expectativa depois de uma temporada extraordinária, mas encontrou em Anabel Lopez uma adversária capaz de levar a luta para um cenário diferente. O combate terminou empatado e foi decidido a favor de Anabel pelos árbitros.
A derrota não diminui o tamanho de Gabi, mas mostra uma diferença importante entre o circuito tradicional da IBJJF e o ADCC. O wrestling, a administração do tempo e cartilha de regras ganham um peso diferente. Para uma atleta acostumada a dominar adversárias, a estreia no ADCC também serve como aprendizado sobre como vencer lutas apertadas dentro de outro sistema.
Enquanto Gabi Pessanha conhecia o ADCC pela primeira vez, Ana Carolina Vieira já sabia exatamente o que precisava fazer. A irmã de Rodolfo Vieira conquistou o bicampeonato até 65kg ao derrotar Sarah Galvão na final. O confronto carregava uma simbolismo especial: de um lado, a irmã de uma das grandes referências do Jiu-Jitsu brasileiro; do outro, a filha de André Galvão, lenda do Jiu-Jitsu e um dos maiores campeões da história do ADCC.
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Mas a final não foi vencida por sobrenome. A luta foi para o overtime e Ana Vieira encontrou as costas para finalizar Sarah com um mata-leão. O resultado também mostrou que a experiência ainda tem enorme valor em um esporte cada vez mais jovem. Sarah, porém, saiu de Cracóvia ainda maior do que entrou. Assim como Helena Crevar, ela representa uma geração que já não chega ao ADCC apenas para ganhar experiência. Chega para disputar o título.
O próximo ADCC já começou
O Brasil continua produzindo campeões e histórias que parecem pertencer à tradição do esporte. Kennedy Maciel repetiu o feito do pai. Felipe Preguiça entrou para uma lista que agora pertence apenas a ele. Ana Vieira confirmou sua posição entre as melhores do mundo. Mas, ao mesmo tempo, atletas de diferentes países mostraram que podem competir no mesmo nível.
O ADCC nasceu profundamente ligado ao Jiu-Jitsu brasileiro, com um ou outro estrangeiro de outra modalidade se destacando, mas o esporte cresceu. Nas últimas edições, atletas como Gordon Ryan, Giancarlo Bodoni e Kade Ruotolo já mostravam que o ADCC está muito mais global. Nesta edição, Luke Griffith, da África do Sul, Pawel Jaworski, da Polônia, e o russo Magomed Dzharbaev, comprovam essa mudança.
O mundo aprendeu. E agora quer o ouro. Para o Brasil, isso não precisa ser uma ameaça. Pode ser justamente o estímulo que faltava para uma nova evolução. O ADCC 2026 mostrou que o futuro do grappling não será brasileiro, americano, europeu ou russo. Será de quem conseguir juntar tudo isso em um único jogo. Oss
RESULTADOS COMPLETOS:
Masculino:
-66 kg: Campeão — Kennedy Maciel | Vice-campeão — Gavin Corbe
-77 kg: Campeão — Magomed Dzharbaev | Vice-campeão — PJ Barch
-88 kg: Campeão — Pawel Jaworski | Vice-campeão — Marlon Tajik
-99 kg: Campeão — Luke Griffith | Vice-campeão — Kaynan Duarte
+99 kg: Campeão — Victor Hugo | Vice-campeão — Josh Saunders
Feminino:
-55 kg: Campeã — Jasmine Rocha | Vice-campeã — Ana Rodrigues
-65 kg: Campeã — Ana Carolina Vieira | Vice-campeã — Sarah Galvão
+65 kg: Campeã — Helena Crevar | Vice-campeã — Anabel Lopez
Absoluto masculino: Campeão — Felipe “Preguiça” Pena | Vice-campeão — Roosevelt Sousa
Superluta: Vencedor — Yuri Simões | Derrotado — Kaynan Duarte
