
Chicão Bueno começou a lutar Vale-Tudo nos anos 90 – Foto: arquivo pessoal
A relação de Francisco “Chicão” Bueno com as artes marciais começou muito antes de ele pensar em se tornar lutador profissional. Aos três anos de idade, o Judô foi a porta de entrada para uma trajetória que já dura cinco décadas e passou por diferentes modalidades, países e algumas das principais organizações do MMA em sua época. Para Chicão, porém, a luta sempre representou algo maior do que a competição.
Ainda criança, Chicão também teve contato com o Taekwondo. A experiência, no entanto, durou pouco. Por ser muito novo, acabou não podendo continuar na academia do renomado mestre Kim. Mais tarde, vieram o Karatê, o Boxe, o Muay Thai e, posteriormente, o Jiu-Jitsu e o Wrestling. O contato com diferentes estilos teve papel fundamental em sua formação. Em vez de enxergar as modalidades de maneira isolada, Chicão passou a absorver características de cada uma delas e, com o tempo, desenvolveu uma maneira própria de trabalhar.
“Cada modalidade acrescentou demais à minha formação como ser humano. O Judô é uma disciplina incrível, o Karate, o Boxe, o Muay Thai, o Jiu-Jitsu, o Wrestling também. Acho que tudo fez parte da minha formação e, criei também, junto com isso tudo, um sistema meu”, explica.
Dos Estados Unidos ao início do Vale-Tudo profissional
A busca por novas experiências levou Chicão aos Estados Unidos em 1997, quando recebeu um convite de um empresário. Na Califórnia, passou a participar de diversos eventos de Vale-Tudo, em uma época em que o esporte ainda estava distante da estrutura e da popularidade que o MMA alcançaria nos anos seguintes.
“Cheguei nos Estados Unidos em 97, a convite do empresário, e aí fiz várias lutas. Tinham muitas lutas naquela época que não são mencionadas hoje. São os eventos que tinham em San Pedro, na Califórnia. Eu lutei muitas, muitas vezes. Era Vale-Tudo, na verdade, não era nem o MMA, nem o No Holds Barred, era Vale-Tudo mesmo, real”, relembra.

Atualmente Chicão treina lutadores de alto nível como Carlos Mota Tizil, ex-campeão da LFA – Foto: arquivo pessoal
Um ano depois, em 1998, Chicão recebeu o convite para participar da primeira edição do ADCC. Ele chegou à final, mas uma lesão o impediu de disputar o combate decisivo. A estreia no MMA profissional só aconteceria em 1999, no IVC, quando teve pela frente o lutador americano Jason Godsey. A partir dali, Chicão passou a buscar definitivamente uma carreira como atleta de alto rendimento.
“Eu buscava realmente ali uma carreira como atleta de alto rendimento. E, depois do IVC, tive oportunidade de lutar em grandes organizações da época como o Meca, o Cage Warriors, o WVC e o maior deles, o Pride. Aí começou um outro nível de competição”.
Foi justamente nessa fase que Chicão passou a integrar uma geração histórica do esporte. O peso-pesado brasileiro teve a oportunidade de competir em diferentes organizações e chegou ao Pride, então uma das maiores vitrines do MMA mundial. Entre suas experiências mais marcantes está o confronto com o ucraniano Igor Vovchanchyn no Pride 8, que ocorreu em 1999. Para Chicão, a luta teve um impacto que ultrapassou o resultado esportivo.
“O período mais marcante realmente foi a vitória contra o Satoshi Honma, que me botaram de escada, e também a derrota para o Igor Vovchanchyn, que, enfim, me congelou um pouco. Eu não estava emocionalmente pronto naquele momento. Mas a vida não é só feita de vitória. E as derrotas, às vezes, podem ser vitórias também. E vice-versa, dependendo de como você olha para a coisa.”

Chicão foi formado por André Pederneiras e hoje é faixa coral de Jiu-Jitsu – Foto: arquivo pessoal
A formação construída desde a infância também ganhou reconhecimento dentro do Jiu-Jitsu. Faixa-preta formado por André Pederneiras, Chicão recebeu a graduação à faixa-coral, um marco que, para ele, representa muito mais do que uma faixa.
“Para mim, a faixa nunca foi uma coisa muito importante. É o que você carrega dentro, o que realmente vale. Mas, enfim, para o mundo, uma faixa-coral representa o tempo, o que você realizou no esporte, o que você conquistou dentro dos tatames, dos ringues, dos octógonos. Então a faixa-coral passou a ser um marco da minha história.”
Hoje, depois de décadas dedicadas às artes marciais, Chicão olha para trás e entende que todas as etapas fizeram parte de uma mesma formação. Para o faixa-coral, a maior conquista dessa jornada não está necessariamente nos títulos, cinturões ou graduações, mas na capacidade de continuar aprendendo e evoluindo.
“A arte marcial, realmente, é uma escola de vida. Acho que é uma oportunidade para você se reconectar com você mesmo. No final do dia, a coisa mais importante é a evolução. 1% a cada dia, ou 1% a cada ano, cada um no seu tempo. A arte marcial, realmente, é o autoconhecimento, é o maior tesouro que temos”, concluiu.
