
Cruzar oceanos para divulgar a bandeira da arte suave em solo estrangeiro exige muito mais do que técnica apurada e um histórico de vitórias memoráveis. Demanda resiliência, capacidade de adaptação a novos climas e culturas, além de uma visão holística que enxerga o esporte não apenas como combate, mas como ferramenta de transformação social e educacional.
Neste cenário de embaixadores da arte suave está o professor e competidor Marco Alemão. Sua jornada além-fronteiras teve início em 2017, quando ainda na faixa-marrom arrumou as malas rumo ao prestigiado Pan da IBJJF nos Estados Unidos. Aquele batismo de fogo internacional foi o estopim para uma carreira vitoriosa em campeonatos, colecionando medalhas que vão desde o ADCC Open até os Opens de Lisboa, Dublin, Orange County e San Diego.
Nesta entrevista exclusiva, o dinâmico faixa-preta abre o livro de sua trajetória internacional e compartilha os bastidores de sua saga pelos Estados Unidos e Europa. Ele detalha como o aprendizado multicultural moldou sua visão como gestor de equipes, revela os segredos para manter portas abertas e o respeito mútuo entre escuderias rivais e explica como utiliza essa bagagem única para impulsionar a profissionalização e a difusão do BJJ.
GRACIEMAG: Você tem uma longa trajetória como professor e competidor de Jiu-Jitsu fora do Brasil, em especial as suas passagens pela Europa e pelos Estados Unidos. Quais são os destaques dessa saga internacional e o que de melhor você aprendeu?
MARCO ALEMÃO: Minha trajetória internacional começou em 2017, quando viajei aos Estados Unidos para disputar o Campeonato Pan-Americano da IBJJF ainda como faixa-marrom. A partir dessa experiência, passei a competir regularmente em eventos internacionais de alto nível, acumulando resultados expressivos em diferentes países. Entre os principais destaques da minha carreira internacional estão os títulos: Campeão ADCC Open, Lisboa Open, Dublin Open, Orange County e San Diego Open. Conquistados diante de atletas de alto rendimento provenientes de diferentes escolas e países. Também obtive resultados relevantes em competições da IBJJF e em torneios reconhecidos internacionalmente, consolidando minha presença no cenário competitivo. Essas conquistas me permitiram representar o Jiu-Jitsu brasileiro em eventos de grande visibilidade e construir uma trajetória reconhecida tanto pela performance esportiva quanto pela capacidade de transmitir conhecimento técnico em ambientes multiculturais.
Você transitou entre duas escolas distintas, a Gracie Barra e a CheckMat, mantendo um bom relacionamento com as lideranças de ambas as escuderias. Como você contribuiu dentro dessas duas famosas redes de academias para a difusão do BJJ pelo planeta?
Sou faixa-preta formado pelo professor Gilberto Gabas, da Checkmat Araçatuba. Em 2018, durante minha mudança para Portugal, iniciei uma nova fase da minha carreira dentro da Gracie Barra, onde aprofundei meus conhecimentos em gestão esportiva, metodologia de ensino e desenvolvimento de equipes. Posteriormente, em outubro de 2022, fundei e liderei a unidade Gracie Barra Barreiro, em Portugal, tornando-me responsável pela implementação dos programas técnicos da organização na região. Durante esse período, desenvolvi o trabalho de formação de alunos, expansão da prática do Jiu-Jitsu e fortalecimento da presença da marca em uma comunidade onde a modalidade ainda estava em crescimento. Sob minha liderança, a academia alcançou resultados como: Formação/introdução de mais de 100 alunos; Participação em competições nacionais e internacionais; Conquista de títulos por atletas da equipe (incluindo aluno Deivid Martins, campeão Lisboa Open 2024; aluna Lara Flório, 3a colocada no Europeu Kids 2024; aluna Alícia Mendonça vice-campeã Nacional 2025); Desenvolvimento de programas voltados para crianças, adultos e atletas de competição; Expansão da visibilidade da equipe na região do Barreiro, Setúbal. Minha contribuição sempre esteve voltada para o crescimento sustentável do esporte, formando praticantes, atletas e futuros líderes dentro da comunidade do Jiu-Jitsu, ajudando a equipe expandir de 11 escolas em 2022 para mais de 25 unidades presentes no território português hoje.

Voltando ao trabalho à frente do dojô, qual é o segredo para transformar um atleta mediano num grande campeão?
O principal fator é a construção de um sistema consistente de treinamento. Atletas campeões não surgem apenas pelo talento, mas pela combinação entre metodologia, repetição técnica, preparação física adequada e desenvolvimento mental. Como treinador, procuro criar um ambiente de alta performance, com metas claras, acompanhamento constante e foco na evolução diária. O objetivo é transformar hábitos de excelência em rotina, permitindo que o atleta alcance seu máximo potencial competitivo.
Como você se define como professor de Jiu-Jitsu? Fale um pouco da sua metodologia.
Minha metodologia foi construída a partir da experiência adquirida ao longo de 17 anos de treinamento sendo 9 deles faixa-preta, competindo internacionalmente e ensinando alunos de diferentes perfis e nacionalidades. Além disso, criei um sistema de interação em que durante a explicação das técnicas os alunos iam sendo questionados sobre a pontuação da luta decorrente. Ainda com o objetivo de formar novos líderes abri o Study Hall que consiste em dar a responsabilidade de ministrar a aula aos alunos avançados sob minha supervisão, os preparando assim para: postura séria e adequada diante da classe, controle e domínio das técnicas, comprometimento com horários respeitando o início e o fim da aula.

Quais foram as suas principais conquistas em campeonatos na faixa-preta e quais lições essas medalhas deixaram para você?
Ao longo da minha carreira como faixa-preta, conquistei títulos importantes em diferentes países. Esses resultados foram obtidos enfrentando atletas experientes e representantes de algumas das principais equipes do cenário internacional. Mais do que medalhas, essas conquistas demonstram a consistência de uma carreira construída ao longo de anos de dedicação ao esporte. A combinação entre resultados competitivos, atuação internacional como professor e liderança de uma academia própria me proporcionou uma visão abrangente do desenvolvimento do Jiu-Jitsu em diferentes países.
Quando alguém hesita em treinar Jiu-Jitsu, o que você costuma dizer para convencer essa pessoa a vestir o kimono e começar a jornada na arte suave?
Eu procuro entender primeiro os objetivos da pessoa. Cada um chega ao Jiu-Jitsu por um motivo: saúde, autoconfiança, disciplina, defesa pessoal ou até mudança de estilo de vida. Mostro como a arte pode impactar positivamente todas essas áreas. Mais do que convencer, meu papel é ajudar a pessoa a enxergar o que o Jiu-Jitsu pode transformar na vida dela.