
“Seja fenomenal ou seja esquecido”. Eis a frase que o professor GMI Jackson Silva tem tatuada no corpo. “Trata-se de um compromisso pessoal com a excelência. Não significa que todos precisem ser campeões, mas que devemos buscar o máximo do nosso potencial, sem aceitar a mediocridade como destino. Nos momentos difíceis, ela me lembra da importância da disciplina, da dedicação e das escolhas necessárias para continuar evoluindo.”
Essa filosofia de respeito ao trabalho e à dedicação foi inspirada na trajetória de gigantes do esporte. Fã da eficiência cirúrgica de ícones como Rodolfo Vieira e Roger Gracie, e moldado diretamente pelas mãos de Guto Campos — mentor de suas principais glórias —, Jackson transformou o aprendizado em sacerdócio. Cada puxada de lapela e cada ajuste de quadril em seu jogo carregam o DNA dessa linhagem de campeões.
O reflexo desse amadurecimento transcendeu as fronteiras brasileiras e fincou raízes profundas no solo árido do Texas. O que começou em 2013 como o primeiro passo tímido de um jovem instrutor assistente desabrochou na robusta realidade da Guetho Texas, em Amarillo. A escola não apenas dobrou de tamanho em julho de 2026, capacitando-se a atender mais de 400 alunos, mas converteu-se em um polo irradiador de disciplina e transformação social na comunidade norte-americana.
Mais do que formar competidores condecorados, Jackson Silva compreendeu que o verdadeiro tatame de um mestre é a sociedade. Ao estender os benefícios do Jiu-Jitsu para além das medalhas — seja por meio de um extenso cronograma de aulas ou de projetos cruciais de defesa pessoal em parceria com o departamento de polícia local —, ele consolida o esporte como ferramenta de segurança e autoconfiança. A seguir, o professor compartilha os bastidores dessa expansão e detalha a engenharia diária necessária para equilibrar a vida de mentor com as exigências de sua própria evolução.

GRACIEMAG: Quem são os professores que moldaram o seu Jiu-Jitsu e qual é a maior lição que você aprendeu com eles?
JACKSON SILVA: Tive a oportunidade de aprender com grandes referências do Jiu-Jitsu. Rodolfo Vieira e Roger Gracie são atletas que sempre admirei pela eficiência e pelo domínio técnico. Entre meus professores, Guto Campos teve uma influência especialmente importante na minha formação e me orientou em algumas das minhas maiores conquistas. A principal lição que levo dessas referências é que excelência não depende de complicar o Jiu-Jitsu. Ela nasce do domínio dos fundamentos, da simplicidade, da precisão e da dedicação constante ao aperfeiçoamento de cada detalhe.
Você começou a ensinar Jiu-Jitsu no Brasil, ainda num pequeno dojô. Recentemente a Guetho Texas, em Amarillo, praticamente dobrou de tamanho, uma baita estrutura… Fale um pouco sobre essa evolução na sua carreira e os benefícios que vocês oferecem aos cidadãos de Amarillo.
Minha trajetória como professor começou em 2013, quando passei a atuar como assistente. Desde então ensinar se tornou parte essencial da minha vida. Em Amarillo, tenho participado diretamente do desenvolvimento da Guetho Texas BJJ e do crescimento da comunidade de praticantes. Em julho de 2026, a academia ampliou sua estrutura, passando de uma capacidade aproximada de 200 para mais de 400 alunos, com uma programação de 164 aulas por mês. Também participo de um projeto de defesa pessoal com o Potter County Sheriff’s Office, em colaboração com Dean Sather e o xerife Brian L. Thomas. Para mim, o valor desse trabalho vai além dos resultados esportivos: está na confiança, na disciplina e nas oportunidades que o Jiu-Jitsu oferece às pessoas.

Como é o seu planejamento diário para conciliar a rotina de professor em uma academia de ponta com a preparação física e mental exigida de um competidor de alto rendimento?
Minha rotina exige planejamento. De segunda a sexta-feira, normalmente ensino de duas a três aulas por dia e organizo meus próprios treinos em dois períodos. No primeiro, priorizo a intensidade e as situações que simulam uma competição; no segundo, trabalho com mais controle, corrigindo detalhes técnicos e aperfeiçoando posições. Às terças e quintas-feiras, incluo musculação. À medida que uma competição se aproxima, ajusto o volume, a frequência e a intensidade dos treinos. Conciliar as duas funções exige disciplina, mas também me permite levar para as aulas o conhecimento que continuo construindo como atleta.
Quais são os destaques da sua vida como competidor e o que de melhor você aprendeu ao guerrear nas grandes arenas do BJJ?
Minha trajetória competitiva inclui títulos estaduais em 2015 e 2016 e resultados importantes em competições da IBJJF. Em 2022, conquistei o Campeonato Brasileiro da CBJJ, na faixa-preta Master 1 peso pesado, com cinco vitórias sem sofrer pontos ou vantagens. Em 2024, fui vice-campeão pan-americano, conquistei o bronze no Mundial Master e venci o American National tanto na categoria quanto no absoluto, incluindo uma vitória sobre Jaime Canuto. Competir em grandes arenas e enfrentar atletas de altíssimo nível me ensinou que o resultado é consequência de algo maior. A medalha tem valor, mas o aprendizado mais importante foi amar o processo: treinar, corrigir erros, repetir movimentos e evoluir continuamente.
Qual é o segredo para transformar um aluno mediano num grande campeão?
Acredito que todas as pessoas já são faixas-pretas em alguma área da vida. Uma criança pode dominar um videogame; um empresário, um médico ou uma dona de casa desenvolvem habilidades complexas por meio de prática, repetição, disciplina, adaptação e aprendizado com os erros. O papel do professor é reconhecer essas competências e ajudar o aluno a transferi-las para o tatame. A partir daí, fazemos os ajustes técnicos, físicos e mentais necessários para que ele desenvolva seu potencial. Formar um campeão não é criar uma capacidade do zero, mas ajudar alguém a descobrir e aplicar aquilo que já sabe fazer bem. Todos nós somos faixas-pretas em alguma coisa. O segredo está em aprender a utilizar essa experiência para conquistar a faixa-preta em novas áreas da vida.

Qual foi o principal conselho que você escutou ao longo da sua carreira e como isso mudou a sua vida?
Uma das ideias que mais me marcaram veio do empresário Flávio Augusto: “Estabilidade não existe”. Essa reflexão reforçou minha compreensão de que buscar excelência exige escolhas. Comecei no Jiu-Jitsu muito jovem e deixei de participar de muitas festas, viagens e diversões comuns naquela idade para passar mais tempo no tatame. Mas nunca enxerguei isso como uma perda, porque sempre gostei profundamente do processo de evolução. Há algo especial em aperfeiçoar uma posição por meses ou anos e conseguir executá-la em uma competição. Para competir em alto nível, é preciso priorizar treino, alimentação, sono e recuperação. Muitas pessoas chamam essas escolhas de sacrifício. Eu vejo de outra maneira: quando abrimos mão de algo bom para construir algo que consideramos ainda melhor, estamos fazendo um investimento. Quando você abre mão de algo bom para construir algo extraordinário, isso não é sacrifício. É investimento.
Quais são as dicas que você costuma dar a quem tem o sonho de se tornar um professor/atleta de Jiu-Jitsu de sucesso?
Acredito que o caminho começa por três habilidades. A primeira é desenvolver um nível técnico elevado e resultados consistentes. Gosto da comparação com um guerreiro: quem ensina a guerrear precisa conhecer a batalha e carregar a experiência de quem esteve nela. A segunda é compreender as pessoas e identificar aquilo de que cada uma precisa para alcançar seu potencial. A terceira é a didática: conseguir transformar algo complexo em uma explicação simples, fluida e significativa para quem aprende. Mas essas três habilidades convergem para uma capacidade ainda maior: servir. O professor serve seus alunos ao compartilhar conhecimento de forma acessível. O atleta de alto nível serve seus companheiros oferecendo a melhor qualidade de treino possível, inclusive ajustando a intensidade do rola ao nível e à necessidade de cada parceiro. Às vezes, isso exige oferecer resistência; em outras, reduzir o ritmo. O sucesso também se mede pela contribuição que damos ao desenvolvimento das pessoas ao nosso redor.
Como a sua experiência como árbitro de Jiu-Jitsu contribuiu para a sua carreira de competidor?
Trabalhar como árbitro me proporcionou uma visão mais ampla e precisa do Jiu-Jitsu competitivo. Em uma luta, existem quatro perspectivas importantes. A primeira é a do atleta, que conhece suas habilidades, suas posições e a estratégia que pretende executar. A segunda é a do adversário, que também tem objetivos e um plano próprio. A terceira é a do treinador, que observa o combate de fora, analisa as ações dos dois atletas e oferece orientações. A quarta é a do árbitro, que precisa manter uma posição neutra e avaliar aquilo que efetivamente acontece, e não apenas a intenção de cada competidor. Compreender essa diferença entre o que se pretende fazer e o que realmente se executa foi fundamental para mim. Ao reunir essas quatro perspectivas, passei a interpretar a competição de forma mais completa e a tomar decisões com maior precisão dentro do tatame.

