O camponês que mudou o judô nacional

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Chiaki Ishii foi o primeiro medalhista olímpico do judô brasileiro – Foto: Estadão

Se você fosse brasileiro e subisse assobiando até o dojo no sétimo andar da mítica escola Kodokan, ou sentasse no auditório de 900 lugares do oitavo andar do edifício, localizado no distrito cultural Bunkyo Ward em Tóquio, você poderia travar o seguinte diálogo com o sisudo sensei de plantão:  

– Com licença, posso ajudar? Ah, você é brasileiro? Conheço um grande lutador brasileiro.

– Quem? Anderson Silva? Royce Gracie? Eder Jofre? Minotauro?

– Não. O grão-mestre Chiaki Ishii!

Pronto, aí era comentar que as filhas dele também eram lutadoras para arrancar um sorriso do mestre japonês, e se sentir à vontade.

O mestre japonês, naturalizado brasileiro em 1969, acostumou-se a abrir portas, e após a aposentadoria foi um dos coordenadores técnicos e táticos que mudou a cara do esporte no Brasil. Ishii faleceu nessa sexta-feira, 16 de outubro, aos 85 anos, e jamais deixou de ser aquele durão japonês de Ashikaga, cidade famosa por seus tecidos de seda.

“Eu sonhava ganhar uma medalha olímpica desde pequeno”, recordaria ele, que começou a treinar na academia Zoshikan, fundada por seu bisavô e comandada por seu vô. Seu pai Yukichi Ishii se tornou aluno de Jigoro Kano. Até que explodiu a Segunda Guerra, e o pai de Chiaki acabou prisioneiro na Segunda Guerra. Voltou vivo, e contava ter ajudado na construção da famosa ponte do rio Kwai, que virou filme.

“Eu me preparei bastante para conquistar a vaga para Tóquio, em 1964, mas não consegui”, conta Ishii, nascido em 1º de outubro de 1941 – mesmo dia e mês, por sinal, do professor Helio Gracie. “Isao Okano, que era três anos mais novo do que eu, ganhou a luta na seletiva para os Jogos de Tóquio, ficou com a vaga e foi campeão olímpico. Eu fiquei arrasado”.

Como Chiaki não era o filho mais velho e tinha meia dúzia de irmãos, não tinha obrigação de ficar no Japão para um dia cuidar dos pais. E foi atrás dos seus sonhos: tornar-se um caubói, como via nos filmes que amava. “Um vizinho dele havia voltado do Brasil, e dizia que era o país do futuro”, conta a ex-judoca Tânia Ishii, a mais velha de Chiaki. O jovem se despediu da família e da namorada, navegou 60 dias, e desembarcou em Santos em maio de 1964 – com 200 dólares e um kimono.

Passou a ganhar a vida como agricultor em Presidente Prudente, em São Paulo, até que anunciaram um pequeno torneio de judô nos arredores. Seus amigos queriam ver o massa bruta de 93kg em ação e o fizeram se inscrever. Ishii pôs todo mundo para voar e chamou atenção.

A partir daí, recebia muitos convites, mas ele aprendera com seus mestres no Japão que lutar por dinheiro era uma desonra. Para se manter treinado e ganhar a vida, entrou no sumô e fez vários desafios. O vencedor levava uma bolsa inusitada: uma saca repleta de arroz.

Uma vez estabelecido, o lutador durão providenciou a vinda da namorada, Keiko. Sabia que moraria no país até morrer. Só não sabia a quantidade de medalhas e alunos que teria.

Como atleta, Chiaki era rápido e de mente aberta – competiu no Jiu-Jitsu, sempre gostou de aprimorar suas técnicas de chão, e fazia muita musculação: “Eu levantava 180 quilos no supino”. Como não queria lutar por dinheiro, dividia os treinos com seus empregos de mero mortal. Sempre que havia uma competição internacional, sumia do trabalho. Acabava despedido.

Em 1971, se tornou o primeiro medalhista do Brasil em Mundiais, em Ludwigshafen, na Alemanha. Levou o bronze. No ano seguinte, em Munique-1972, repetiu a façanha. Era a primeira das 28 medalhas brasileiras no judô.

Que não veio fácil. Naquele ano, Chiaki passou três meses no Japão, treinando com amigos sob o comando do sensei Kyioshi, irmão de Ishii. Na estreia, o faixa-preta de 30 anos derrotou o senegalês Mohamed Dione em 16 segundos, por ippon. Contra Jen-Wuh Juang, de Taiwan, a luta levou o dobro: 38 segundos. Na terceira, ele passou por Pavle Bajcetic, da antiga Iugoslávia. Perdeu a quarta luta para o alemão Paul Barth, que lutava em casa, na decisão: “Aquela luta eu ganhei, mas o árbitro japonês porcaria puxou hantei para o alemão”, reclamaria para sempre.

Na quinta luta, porém, demonstrou pontaria de caubói e paciência de camponês. Valendo o bronze, venceu com um bonito ippon contra o alemão oriental Helmult Howiller, em 57 segundos. O sonho do garoto estava realizado.

Em 1999, quando sua filha Vânia Ishii foi campeã no Pan-Americano de Winnipeg, seu velho pai atendeu o telefone em casa, em São Paulo, respondeu um “Parabéns.

Chiaki Ishii tinha três filhas: Tânia, Luiza e Vânia Ishii (foto) – Foto: Folhapress)

Valeu a pena”, e voltou a dormir. Enquanto isso, a filha fazia a maior festa, após pular no tatame e vibrar muito. “Tive de aceitar o jeito dela. Ela é totalmente brasileira”, dava de ombros o pai e mestrão, com o olhar gelado dos vaqueiros de filmes.

“Aprendi desde garotinho que nos tatames não se pode demonstrar euforia. Aprendi apanhando, apanhando, apanhando. No Brasil é diferente: quanto mais elogiar, melhor. Tem de dizer que o lutador é um gênio, um herói. Quem age assim ao meu ver não será campeão”, ensinava, em declarações à “Folha de SP”, na época do Pan.

Treinador durão com as três filhas, Chiaki formou uma legião de campeões nos tatames brasileiros e internacionais. Depois daquela derrota na seletiva em 1964, Chiaki quase desistira do judô, aos 19 anos. Mas o judô jamais desistiria dele.

Por isso, o Brasil lhe será eternamente grato. Vá em paz, sensei.

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