A ascensão e queda de Conor McGregor no UFC

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Conor McGregor no Rio de Janeiro. Foto de Carlos Arthur Jr.

 

[ Por: Mauro Ellovitch ]

De um garoto pobre em Dublin a campeão peso-pena do UFC, a trajetória de Conor McGregor foi meteórica e fulgurante.

Desde que foi contratado em 2013 como uma jovem promessa, Conor mostrava-se extremamente confiante e carismático. Fora do octógono, vestia ternos caros, ostentava o visual estiloso, falava bem e usava tiradas rápidas e sagazes para provocar os oponentes, constantemente se promovendo para o público. Dentro do “cage”, era rápido e preciso, com excelente movimentação e contragolpes devastadores.

Tinha muito talento e estava longe de ser apenas um falastrão. Não demorou a mirar no campeão José Aldo, colocando-se como a antítese do discreto e humilde brasileiro. Em apenas dois anos, conseguiu criar a rivalidade que planejara, tirou Aldo do sério e soube aproveitar um descuido nos 13 segundos iniciais para nocautear o campeão, no UFC 194.

Esportivamente, contudo, McGregor parecia sempre estar buscando a coisa errada.

Sempre foi evidente que o objetivo maior do irlandês era a popularidade imediata e, principalmente, ganhar dinheiro. Sua preocupação com a promoção das lutas era cada vez mais intensa, e sobrepujava sua preocupação com a preparação para o combate. Após conquistar o tão sonhado título do peso-pena, Conor não deu a merecida oportunidade de revanche a José Aldo, que fora o campeão dominante da categoria por tantos anos. Nem sequer demonstrou a mais remota vontade de defender seu cinturão.

Sempre digo que defender um título é mais difícil do que conquistá-lo. O campeão tem muito mais a perder, é mais estudado pelos oponentes e a perda do cinturão tira qualquer aura de invencibilidade. Ganancioso e calculista, McGregor sabia disso e passou a pedir uma unificação de cinturões em disputa contra o campeão dos leves – inicialmente, Rafael dos Anjos e, depois, o sucessor Eddie Alvarez.

Essa superluta, além de ser comercialmente interessante, tirava a pressão do irlandês. Se ganhasse, seria consagrado como o primeiro campeão simultâneo de duas categorias do UFC. Se perdesse, usaria a desculpa de que se arriscou numa categoria nova, direto contra o campeão, e ainda manteria seu cinturão dos penas. A chamada situação ganha-ganha.

Vamos ser justos e dar o devido crédito ao irlandês, porque nesse UFC 205 ele brilhou em todos os aspectos. Foi divertido e carismático na promoção, capitaneou o primeiro evento realizado no Madison Square Garden em Nova York (um antigo sonho de Dana White), vendeu uma enormidade de pay-per-view e fez uma luta perfeita. Usou esquivas e contragolpes cinematográficos para dominar e nocautear Alvarez com direito a espetáculo.

McGregor conseguira toda a validação e adoração que sempre quis. Ele estava no topo do mundo.

O problema de se chegar ao topo com propósitos tão pouco inspiradores, como McGregor fez, é saber o que fazer dali em diante. Quando você não aspira nada mais elevado, o caminho depois do topo é sempre para baixo.

Ao continuar em sua busca por fama e dinheiro, Conor conseguiu o feito de realizar uma luta de boxe contra o igualmente fútil, talentoso e ganancioso Floyd Mayweather. Mayweather era campeão invicto da nobre arte com 49 vitórias na carreira. Uma lenda do esporte. Era óbvio que Conor não tinha a menor chance de vencê-lo. E quem disse que isso importava? Tratava-se de mais uma situação ganha-ganha, na qual McGregor receberia a maior bolsa já paga na história a um lutador de MMA.

A lógica imperou, Mayweather venceu, Conor não fez feio e ambos lucraram centenas de milhões com a promoção e venda desse combate sem sentido.

Com todo esse dinheiro, muitos imaginaram que jamais veríamos McGregor de volta ao octógono. Como a vontade de ser um respeitável campeão nunca foi o que motivou o faroleiro irlandês quando estava no começo da carreira, ninguém cogitaria que isso mudasse agora que ele era multimilionário. Todavia, não levaram em consideração a maior paixão de Conor, ainda maior do que todo o dinheiro do mundo: a necessidade de atenção.

“A antiga convicção não estava lá. Tudo parecia forçado, artificial. As piadas de não tinham mais timing, as ameaças tinham um tom vacilante, a confiança não estava mais no olhar de Conor McGregor. Era como um cinquentão divorciado usando abadá do Chiclete com Banana e querendo parecer jovem.”

McGregor não podia tolerar que estava sendo substituído no UFC, que Khabib Nurmagomedov havia conquistado o título peso leve com um indefectível cartel invicto e já estava construindo um legado maior do que o do irlandês. Não podia suportar a mídia especializada dizendo que Khabib o amassaria e ocuparia seu trono. Foi esse o orgulho que precedeu a queda. No caso, as muitas quedas que Nurmagomedov aplicou em Conor até vencê-lo com autoridade, por finalização, no UFC 229. E, por mais que Conor nunca vá admitir, ficou claro que enquanto o daguestanês fosse campeão, suas chances de ostentar o cinturão novamente seriam muito pequenas.

Com a aposentadoria de Khabib, o retorno de Conor voltou a ser constantemente ventilado. McGregor viu, então, uma nova oportunidade de adoração. Ele estava mais velho, mais maduro, era pai de três filhos. Estava cansado de só ser lembrado pelas estripulias nas entrevistas coletivas. Quem sabe agora não seria a hora de o público amá-lo como lutador? Era hora de deixar para trás manchetes que envolveram prática de atos obscenos em iates. Conor queria se ver como um embaixador do esporte.

Por isso, nesse novo retorno, McGregor se mostrou mais contido e respeitoso. Fizera uma luta tranquila contra Donald Cerrone, que também é carismático e um dos favoritos dos fãs de MMA. O passo seguinte era aceitar uma revanche contra Dustin Poirier, um oponente que já vencera em 2014 como peso-pena, mas que evoluíra muito ao subir de categoria. A cereja do bolo para o “novo McGregor” seria doar parte da bolsa para as obras de caridade que Poirier apoia e fazer uma coletiva de imprensa exaltando seu oponente. Tudo muito bonito, até que, no segundo round da luta principal do UFC 257, Dustin acertou sua mão pesada, abalou Conor e seguiu batendo até nocautear o irlandês.

“Cidadão McGregor”: Conor surrupia o cinturão de Aldo em coletiva de imprensa. Foto de Jeff Bottari/Arquivos

“E agora, José?”, perguntaria o poeta Drummond. Ou melhor, “E agora, Conor?”. Os gloriosos novos planos haviam desmoronado. Sua querida imprensa o estava desmerecendo. Seus fãs já não estavam mais tão fervorosos. Os demais lutadores o estavam achincalhando. Seu ego não aceitava essa mudança súbita de caçador a caça, de piadista a piada. O que fazer?

De todas as decisões possíveis, McGregor escolheu a pior. Apesar de estar naturalmente mudado pela evolução que o tempo e as circunstâncias trazem a todos, o irlandês decidiu retomar o antigo personagem e voltar a ser o “Conor McGregor de antigamente” na luta de desempate contra Poirier. Nos meses de divulgação do UFC 264, passou a gritar novamente, fazer seus números e bravatas em redes sociais.

Mas a antiga convicção não estava lá. Tudo parecia forçado, artificial. As piadas não tinham mais “timing”, as ameaças tinham um tom vacilante, a confiança não estava mais no olhar. Era como um cinquentão divorciado usando abadá do Chiclete com Banana e querendo parecer jovem.

McGregor chegou a tentar fazer piada insinuando que a esposa de Dustin Poirier estaria atraída por ele, Conor, mas soou como uma grosseria tosca digna de um Colby Covington. O próprio Poirier percebeu e rebateu as ofensas: “Você já foi melhor nisso”.

Na hora do combate, apesar de tomar a iniciativa, Conor não tinha mais a mesma movimentação leve ou a mesma confiança para se arriscar a contragolpear.

Dustin encurtou a distância e McGregor aceitou ser derrubado. O irlandês passou a levar uma surra de Poirier até conseguir se levantar nos instantes finais do round. Foi então que, em um passo em falso para trás, seu pé virou e ele apoiou mal seu peso, fraturando a tíbia e a fíbula – uma lesão aflitiva para todos que estavam assistindo, imagine para ele.

O combate acabou por interrupção médica. Enquanto Poirier se consagrava e devolvia as provocações, McGregor, sentado na lona, tentava parecer superior numa atitude patética, com direito a receber um gesto catártico de xingamento: o dedo médio apontado pela esposa de Poirier.

Não deixa de ser simbólico que McGregor tenha causado em si mesmo a lesão que o derrotou. Conor está se tornando o “Cidadão Kane” do MMA. Tido pela maioria dos críticos de cinema como o melhor filme de todos os tempos, “Cidadão Kane” conta a história de Charles Foster Kane, jornalista inicialmente batalhador, que se torna multimilionário e controlador de um conglomerado de imprensa. Após o sucesso financeiro, Kane continua obcecado pela adoração do público e pela busca por poder.

No fim da fita, o protagonista acaba sozinho e infeliz, após perder todos que o apoiavam. Torço para que isso não aconteça e que o “Cidadão McGregor” possa ter um final mais feliz.

 

 

* Mauro Ellovitch é faixa-preta e colunista de GRACIEMAG e NOCAUTE. Quer ler as outras crônicas de Mauro? Assine já nossa publicação digital, aqui, e leia hoje mesmo.

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