MMA

A despedida de Glover Teixeira e o MMA que emociona

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Glover Teixeira se prepara para enfrentar Jamahal Hill. Foto: Divulgação/UFC

O UFC 283 acabou com a comovente despedida de Glover Teixeira após uma dura e anticlimática derrota para Jamahal Hill na luta principal da noite.

O americano sagrou-se campeão com muito mérito. Diferente do maluco, digo, inventivo Jiri Prochazka, Hill estudou o jogo de Glover e aplicou com disciplina o que já funcionara contra o nosso veterano. Combinou uma ótima defesa de quedas para evitar o perigoso jogo de chão do brasileiro com os jabs constantes que deram resultado para Alexander Gustaffson e os golpes no corpo que ajudaram Prochazka. O resultado foi uma maiúscula vitória por decisão unânime dos jurados.

Há quem veja a supremacia de Hill na luta como um 7 a 1 em uma partida de futebol. Eu vejo mais como aquele heróico 1 a 0, no qual o time perdedor teve jogadores lesionados durante a partida, levou pressão o jogo inteiro no campo defensivo, mas se manteve perigoso até o final. Cada vez que Glover levava uma dura sequência de golpes, se recompunha e voltava a avançar era aplaudida como aquele chutão salvador do zagueiro que isola a bola para evitar o ataque adversário. É o tipo de contenda que nos faz acreditar em milagres.

E como torcemos por um milagre nessa luta. A cada contragolpe que o brasileiro acertava, mesmo após receber 4 ou 5 socos do adversário, o grito da torcida era quase uma prece. Justamente no último round, parecia que o milagre viria. Foi quando um exausto Glover finalmente conseguiu aplicar uma boa queda contra Jamahal e passar a guarda do adversário.

O brasileiro estava em uma posição na qual era muito superior e de onde já conseguira a finalização na conquista do cinturão contra Jan Blachowicz. Quase podíamos visualizar a finalização redentora chegando, daquelas de levantar a arena e fazer história. Foi aí que Glover decidiu ir para a posição de montada. Pouco depois, o escorregadio americano conseguiu se esgueirar por baixo e inverter a posição. Nem sempre a vida é um filme da Disney e, dessa vez, o milagre não veio.

Ainda assim, Glover foi um samurai. Mesmo resignado pela idade e o desgaste terem tomado seu gás, mesmo sobrepujado pela velocidade e potência de Hill, mesmo frustrado por não conseguir colocar seu jogo de grappling em prática, Teixeira continuou avançando. Apanhando, batendo, caindo, levantando até o trágico soar final do gongo.

Você pode estar pensando: “caro cronista, você está apenas romanceando a surra que o Glover levou”. Não, meu amigo. Se você não entende a beleza de um guerreiro de 43 anos de idade lutar bravamente por 25 minutos contra um adversário bem mais jovem, mesmo estando gravemente ferido, exausto, com todas as células de seu corpo pedindo para desistir, impulsionado apenas pelo coração e pelo grito da torcida, você não entende nada de MMA.

Esse é o MMA que emociona, que assusta e encanta. Não o tecnicismo modorrento que ganha combates fazendo de tudo para pontuar o suficiente sem se arriscar. É o oposto da horrível filosofia do “MMA de resultados” que agrada aos frios analistas. É o esporte e a arte marcial no que eles têm de mais puro. E é assim, de cabeça erguida, que Glover Teixeira se aposenta. Fará muita falta.

* Mauro Ellovitch é promotor de Justiça, faixa-preta de Jiu-Jitsu e autor do livro “Sangue, Suor & Letras – Crônicas do MMA”.

 

 

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