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	<title>cadeia | Graciemag</title>
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	<description>The Original Brazilian Jiu-Jitsu Magazine — BJJ news</description>
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		<title>Leia um episódio exclusivo do livro novíssimo de Ralph Gracie</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 10:58:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; &#160; &#160; Por: Ralph Gracie &#160; Meu maior problema desde que cheguei na cadeia era esse: ficar sozinho. A solidão era o habitat dos meus demônios, e eu não estava nem um pouco a fim de recebê-los para um café. O primeiro dia foi foda. A sorte, quando você chega lá e ainda está&#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Por: Ralph Gracie</strong></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meu maior problema desde que cheguei na cadeia era esse: ficar sozinho.</p>
<p>A solidão era o habitat dos meus demônios, e eu não estava nem um pouco a fim de recebê-los para um café.</p>
<p>O primeiro dia foi foda.</p>
<p>A sorte, quando você chega lá e ainda está nervoso, é que teu estresse te cansa. Então você tem uma tendência de dormir muito, dormir o tempo todo. E, de fato, eu apagava toda hora.</p>
<p>Quando acordava, fazia flexão. Aí dormia de novo, acordava meio perdido, fazia mais flexão… E assim as horas se arrastavam.</p>
<p>A cadeia tinha cinco celas embaixo e cinco em cima, e no centro um espaço grande que dava acesso pra todas essas celas. Tipo um shark tank.</p>
<p>Mas por causa da pandemia, eles não liberavam a área grande pra geral. Para ficar ali era um por vez. E cronometrado.</p>
<p>Você ia praquele espaço, passeava, e depois de um tempo o oficial pedia pra você voltar pra sua cela, pra que um outro preso pudesse sair e circular um pouco. Era assim, um de cada vez.</p>
<p>Quando soltavam a gente pra ficar no shark tank, dava pra ver as pessoas. Você via o preso de baixo, via o preso de cima, passeava pela frente das celas&#8230;</p>
<p>Ninguém tinha acesso físico a ninguém, só nos víamos através do vidro das portas. Mas eu já estava animado só de poder conhecer as pessoas dali, mesmo que fosse daquele jeito.</p>
<p>Pensava: &#8220;Eu tenho de me adaptar a qualquer lugar. Eu tenho de ser maleável, &#8216;be like water&#8217;. Se eu estou aqui, tenho que &#8216;virar&#8217; isso aqui – por mais que, no meu coração, eu não pertença a esse lugar.&#8221;</p>
<p>Portanto, quando tinha a oportunidade, saía da minha cela e circulava ali, observando como aquela porra funcionava. Como é que os caras se viram? É assim, é assado? Eles se comunicam, trocam coisas, resolvem as paradas?<br />
E fui aprendendo&#8230;</p>
<p>Por exemplo: como os caras não podiam se falar de longe, eles faziam muitos sinais, tipo língua de surdo.</p>
<p>Eu não entendia porra nenhuma daqueles sinais, o bagulho era complexo.</p>
<p>Os caras da cadeia não precisam abrir a boca pra falar. Se comunicam com as mãos.<br />
Um dia um cara tentou falar comigo por sinais e eu pensei: &#8220;Irmão, eu sou o cara errado&#8230; Não sou daqui – apesar de ter uma aparência de assassino psicopata, eu não sou daqui, não sou da cadeia&#8230;&#8221;</p>
<p>Por causa da covid não tinha comida quente, e a gente não estava recebendo as comidas que vinham de fora.</p>
<p>A comida, naquela época, era sanduíche. Basicamente isso: sanduíche de ovo. No almoço e no jantar. E eu não comia pão.</p>
<p>E como eu não comia pão, comecei a trocar.</p>
<p>Perguntei pra um maluco: &#8220;Ei, você quer o pão?&#8221;</p>
<p>O maluco ficou eufórico: &#8220;Quero! Quero sim! Me dá o pão, por favor.&#8221;</p>
<p>Aí eu dava uma chapada no pão – ele vinha num plástico – dava uma amassada naquele saco e escorregava o troço por debaixo da porta.</p>
<p>E assim fui conhecendo os caras lá dentro.</p>
<p>E como eu sempre gostei de agradar, dava uma paradinha na frente da cela de um e passava um pão, parava na cela de outro e passava um biscoito&#8230;</p>
<p>Quando não dava, eu guardava pra trocar depois. E com o tempo fui criando uma espécie de mercado ali, que garantiu minha sobrevivência de um jeito diferente.</p>
<p>Eu comia só laranja, maçã, ovo e umas carnes – um tipo de presunto – e era isso. Também não comia o biscoito. Era um biscoito doce pra caralho, um negócio horrível&#8230; Mas era uma puta moeda de troca. Porque todo mundo queria o biscoito.</p>
<p>Por mais que ainda estivesse sozinho na minha cela, eu já estava conseguindo fazer alguma conexão com as pessoas. Tinha um sujeito, um chinês doido pra caralho, que adorava o tal biscoito. Aí ele passava na minha cela, pegava o biscoito, batia um papo&#8230;<br />
Isso me dava um alento.</p>
<p>Porque pelo menos eu conversava um pouquinho, né?<br />
Era uma sensação boa.</p>
<p>E assim foi indo, dia após dia.</p>
<p>Quando eu ficava solto, trocava o meu pão por laranja, trocava por maçã&#8230;</p>
<p>E de vez em quando eu simplesmente dava as coisas pros outros, sem pedir nada em troca.</p>
<p>Por mais que eu estivesse preso, eu não era um cara ruim. Não sou um bandido nem nada parecido.</p>
<p><em>*** Em “É o que é – Histórias do Pitbull”, de Ralph Gracie (Editora LVM, 2026). Trecho cedido pelos editores ao GRACIEMAG com exclusividade. Confira <a href="https://www.amazon.com.br/%C3%89-que-%C3%A9-Hist%C3%B3rias-Pitbull/dp/655052394X" target="_blank" rel="noopener">mais sobre o livro, aqui.</a></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><iframe title="AULÃO MESTRE RALPH GRACIE NA ACADEMIA GRACIE TIJUCA" width="650" height="366" src="https://www.youtube.com/embed/wqXevF7cT3U?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
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