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	<title>lanchonete | Graciemag</title>
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	<description>The Original Brazilian Jiu-Jitsu Magazine — BJJ news</description>
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		<title>Ninguém escreveu sobre valentia e espírito do Jiu-Jitsu como Fernando Sabino</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 16:32:29 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_220173" style="width: 2410px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-220173" class="size-full wp-image-220173" src="https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao-.jpg" alt="O escritor Fernando Sabino. Foto: Divulgação" width="2400" height="1600" srcset="https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao-.jpg 2400w, https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao--300x200.jpg 300w, https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao--1024x683.jpg 1024w, https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao--768x512.jpg 768w, https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao--1536x1024.jpg 1536w, https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao--2048x1365.jpg 2048w, https://www.graciemag.com/wp-content/uploads/2019/12/Fernando-Sabino-divulcao--150x100.jpg 150w" sizes="(max-width: 2400px) 100vw, 2400px" /><p id="caption-attachment-220173" class="wp-caption-text">O escritor Fernando Sabino. Foto: Divulgação</p></div>
<p>Falecido há 15 anos, o célebre cronista mineiro Fernando Sabino (1923–2004) foi um exímio nadador durante sua juventude, e entendeu na carne conceitos impenetráveis como a superação, o valor do esforço, a motivação diária e o sabor da vitória – e da derrota.</p>
<p>Após largar as piscinas e se mudar para o Rio, <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Sabino" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Sabino</a> consagrou-se como um afiado observador da natureza humana, e assim ajudou a mudar a crônica brasileira e a literatura nacional para sempre. E foi assim, numa singela crônica sobre um lanche em Copacabana, que o escritor resumiu, em pouquíssimas linhas (como bom craque), o espírito do carioca valente – sempre pronto a defender o oprimido e o fraco, combater a covardia e não ter medo algum de fazer o certo, custe o que custar.</p>
<p>Não se sabe se o personagem da crônica “Valentia” era um membro da família Gracie tomando seu suco, ou um aluno deles, ou se era apenas criação do autor mineiro. Mas o texto é, de fato, uma pequena obra-prima, lançada em livro pela primeira vez em 1976, na obra “Deixa o Alfredo falar!”, e depois republicada na antologia “Os melhores contos”, de 1986, e que republicamos a seguir pedindo licença à editora Record e ao herdeiro Pedro Sabino.</p>
<p>Leia, divirta-se e reflita: você conhece alguma crônica que resuma melhor o conceito de valentia? Deixe seu comentário.</p>
<p>*****</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-size: 18pt;"><em><strong>“Valentia”</strong></em></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>ELE</em> entrou num botequim da Rua Barata Ribeiro e pediu à moça atrás do balcão um misto quente:</p>
<p>— E um suco de laranja — arrematou.</p>
<p>— Só temos laranjada — a mulatinha, mirrada e assustadiça, olhou para o vaso de plástico embaçado onde o líquido amarelo borbulhava gelado: — O senhor quer suco mesmo?</p>
<p>— Se for possível.</p>
<p>Ela se dispôs a espremer umas laranjas ali à mão. Em pouco colocava à sua frente o suco de laranja e o sanduíche.</p>
<p>— Muito obrigado. Quanto é?</p>
<p>As despesas ali eram pagas antecipadamente na caixa, e os pedidos feitos mediante a ficha — era o que ele podia observar agora, enquanto comia, reparando o procedimento dos outros fregueses. A mocinha passou a atender um e outro. Ele acabou de comer, sorveu um último gole do suco de laranja:</p>
<p>— Quanto é? — repetiu, limpando a boca no guardanapo de papel.</p>
<p>Ela se deteve diante dele, acabou se voltando para a caixa:</p>
<p>— Seu Manuel, quanto é um suco de laranja?</p>
<p>O homem fez que não ouviu, ela teve de repetir a pergunta. De súbito ele se desdobrou por detrás da caixa, e era enorme assim de pé, o peito estufado dentro da camisa encardida, a gravata de laço frouxo no colarinho desabotoado, o rosto crispado numa careta de raiva que a barba por fazer ainda mais acentuava:</p>
<p>— Quem lhe deu ordem de fazer suco de laranja?</p>
<p>Sua voz carregada de sotaque era tão poderosa e autoritária que se fez no botequim um respeitoso silêncio, todos os olhares se voltaram.</p>
<p>— Esse moço aqui&#8230; — balbuciou ela.</p>
<p>Suas palavras mal foram ouvidas, logo esmagadas pelas do patrão:</p>
<p>— Quem manda aqui sou eu. Ele não podia mandar você fazer coisa nenhuma. Pois agora quem vai pagar é você!</p>
<p>A mocinha, aterrada, olhou para o freguês. O freguês não olhou para ninguém: limitou-se a beber o que havia ainda de suco de laranja no fundo do copo e limpar a boca, desta vez com as costas da mão. Ninguém dizia nada, e todos esperavam. Ele se voltou enfim para o homem lá da caixa e perguntou com delicadeza:</p>
<p>— O que foi que o senhor disse?</p>
<p>O homem se adiantou um passo em sua direção:</p>
<p>— Não se meta nisso. Estou falando com aquela parva.</p>
<p>Pequenino, ele parecia um menino ao aproximar-se lentamente da figura agigantada do outro. O silêncio no botequim agora era pesado e cheio de expectativa. E, estupefatos, todos viram quando o homenzarrão se inclinou, carrancudo, para ouvir melhor o que o pequenino lhe dizia quase num sussurro:</p>
<p>— Eu vou te matar, seu cachorro ordinário. Aqui. E agora. Eu vou te matar, entendeu? Diga se entendeu.</p>
<p>— Entendi sim senhor — gaguejou o homem, de súbito apavorado, embora o outro não fizesse o menor gesto ameaçador nem sugerisse possuir nenhuma arma.</p>
<p>— Então diga quanto lhe devo.</p>
<p>O homem balbuciou uma quantia qualquer, indo refugiar-se atrás da caixa. Depois de pagar e guardar calmamente o troco, ele se voltou para a mocinha lá no balcão, que continuava imóvel como uma estátua:</p>
<p>— Olha, minha filha: eu moro aqui perto e vou passar aqui todos os dias. Se esse cafajeste lhe fizer alguma coisa, basta me falar que eu me entendo com ele, está bem?</p>
<p>A mocinha, estarrecida, concordou com a cabeça, o próprio cafajeste quase concordou também com a cabeça. O freguês deu-lhe ainda um último olhar e depois saiu, palitando os dentes com um pau de fósforo.</p>
<p>****</p>The post <a href="https://www.graciemag.com/ninguem-escreveu-sobre-valentia-e-espirito-do-jiu-jitsu-como-fernando-sabino/">Ninguém escreveu sobre valentia e espírito do Jiu-Jitsu como Fernando Sabino</a> first appeared on <a href="https://www.graciemag.com">Graciemag</a>.]]></content:encoded>
					
		
		
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