Rodrigo Boroski e a recompensa do trabalho duro no Jiu-Jitsu

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Rodrigo exibe suas medalhas. Foto: Reprodução

Em meio a treinos de competição e horas de preparação física, é fácil para um atleta deixar a essência do Jiu-Jitsu em segundo plano, focando apenas nos resultados e medalhas que disputará em seu próximo evento. Ciente do prejuízo que tal mentalidade representa para um praticante da arte suave, nosso GMI Rodrigo Boroski prepara seus alunos e reforça que a vitória não é um objetivo, mas sim consequência de um trabalho bem feito nos tatames.

Com uma história incrível de superação, Rodrigo papeou com GRACIEMAG para contar sobre a empreitada de formar novos campeões, além de falar sobre seu duelo contra um câncer e como o mesmo influenciou seu método de ensino. Confira nas linhas abaixo!

* Entre para o time GMI! *

GRACIEMAG: Como você conheceu o Jiu-Jitsu?

RODRIGO BOROSKI: Aos 14 anos, estudava em um colégio militar que era ligado à universidade Gama Filho. Por conta disso, eu tinha muitos amigos que já praticavam Jiu-Jitsu e não demorou para que o professor me convidasse para conhecer o esporte. Nessa época, eu já era faixa-roxa de judô, esporte que praticava desde os 4 anos de idade, então no meu primeiro rola consegui dar uma boa queda no meu adversário. O problema é que esse adversário era um faixa-amarela, ou seja, levei uma surra no chão (risos). Me interessei pelo Jiu-Jitsu, mas no mesmo ano descobri que estava com câncer e fiquei tratando até os 17 anos. No fim do tratamento, decidi treinar Jiu-Jitsu e me matriculei na Chute Boxe, onde tive a oportunidade de treinar com grandes nomes como Anderson Silva, Murilo Ninja e Kazushi Sakuraba.

“A vida não é sobre a espera pelo fim de tempestade, mas sim o aprendizado de como dançar na chuva”. Foto: Reprodução

Como foram seus primeiros anos nas faixas coloridas?

Sempre gostei de competir, mas como o Jiu-Jitsu não era tão difundido nessa época, lutava em campeonatos regionais. Lutei muito nos campeonatos paranaenses, que era filiados a CBJJ, e visitava outros municípios para participar de outras competições. Apesar de sempre estar no pódio desses eventos, ainda tinha limitações por conta do câncer e dos medicamentos que eu precisava tomar, então eu não consegui evoluir muito como atleta. Apesar disso, o meu amor pela arte suave nunca diminuiu.

Qual foi o seu maior aprendizado ao ser graduado como faixa-preta?

Recebi a minha faixa-preta em 2013 e em um momento difícil. Pouco antes de ser graduado, meu câncer voltou e os médicos me deram uma previsão de apenas treze meses de vida. Após um tratamento experimental com células-tronco, eu fiquei um tempo fazendo tratamentos para combater o câncer. Apesar desse problema, só faltava os treinos caso estivesse internado ou fazendo quimioterapia. Não conseguia fazer sparring por conta do mal estar proveniente dos tratamentos, mas essa situação ampliou a minha visão do que é ser um faixa-preta. A faixa não vem apenas porque você é um bom atleta, o que realmente é importante é a sua dedicação à arte marcial.

Apesar das limitações, você não se deixou abalar e seguiu seu caminho na arte suave. Como o ensino modificou a sua percepção do Jiu-Jitsu?

Posso dizer que tenho mais talento para ser professor do que atleta. Apesar do meu empenho, jamais pude me dedicar da forma que gostaria às competições. No entanto, não deixei de continuar treinando e aprendendo, mesmo quando o câncer voltou. Os conhecimentos que eu absorvi através desses anos me ajudaram a desenvolver uma análise crítica e focada. Sempre me voltei mais para a defesa pessoal, tendo em vista que ela exige menos do corpo, e frequentei seminários de grandes nomes do esporte, como Renzo Gracie, Fabio Gurgel e André Galvão. Além disso, tive a oportunidade de treinar por quinze dias com o grande mestre Hélio Gracie. Busquei todo esse conhecimento porque sabia que eu não teria uma carreira bem-sucedida como atleta, então estava focado em ensinar bem os meus alunos. Por conta disso, pude me tornar o primeiro professor na Irlanda com um atleta local que foi campeão mundial.

Rodrigo junto a uma de suas alunas. Foto: Reprodução

Qual é o melhor ensinamento da sua época de atleta que você sempre passa aos seus alunos?

Meus professores sempre me disseram que eu não tinha nada a provar pra ninguém, que era um vencedor por natureza e que deveria me divertir nas competições. Sempre passo esse mesmo ensinamento para os meus alunos, que a prioridade é estar feliz, o resultado é apenas uma consequência. Não me importo que meus alunos percam desde que eles deem o melhor deles. Medalhas vem e vão, mas o campeão de hoje pode ser esquecido amanhã. A verdadeira vitória é mostrar o seu melhor desempenho, algo que te faça feliz e que contribua para sua evolução como ser humano.

Você mencionou a sua preferência pelos treinos de defesa pessoal na sua época de aluno. Hoje, como professor, esse gosto é algo que influencia o seu ensino?

Eu sou um professor à moda antiga, ou seja, prezo muito pela defesa pessoal. Todos os meus alunos sabem se defender de socos, chutes e puxões de cabelo. A ideia é que se você consegue se defender na rua, uma competição não será nada assustador, tendo em vista que temos regras. Mas, acima de tudo, valorizo o trabalho de base. Não importa quanto o Jiu-Jitsu evolua ou se modernize, uma base sólida faz a diferença no currículo de um competidor.

Apesar da importância do treino e do preparo físico, o lado psicológico do atleta pode ser um divisor de águas em um duelo. Como blindar seus alunos para as pressões de um campeonato?

Mantenho uma disciplina muito rígida nos tatames. É uma reclamação recorrente dos meus alunos, mas eu não comemoro as vitórias ou sofro pelas derrotas. É importante que eles lembrem que o resultado da luta é uma consequência, um reflexo de um trabalho que você executou bem ou mal. Além disso, eu busco alimentar em cada um deles o instinto de coletividade, de que as vitórias e derrotas não são individuais, mas sim da equipe. Se eu tenho um aluno que é campeão, o mérito é de toda a equipe que treinou com ele e o acompanhou no campeonato. Ninguém vence sozinho ou perde sozinho.

No pódio do Dublin Open 2018. Foto: Reprodução

Quais são as metas do professor para forjar uma equipe ainda mais forte e se destacar como referência no ensino do Jiu-Jitsu e formação de campeões?

Ao meu ver, não há uma receita para o sucesso. O caminho para ser bem-sucedido, tanto dentro quanto fora do Jiu-Jitsu, é o trabalho duro e, principalmente, a disposição para nunca desistir. Independentemente da habilidade do seu oponente ou de como a luta está progredindo, você não pode se entregar. Se eu tivesse desistido na minha luta contra o câncer, hoje estaria morto. Procuro sempre firmar isso com os meus alunos, especialmente quando eles reclamam que estão cansados. Quanto mais cansado estiver, mais você vai favorecer a técnica ao invés da força e isso é o Jiu-Jitsu.

Estabelecido como um professor de sucesso na Irlanda, quais são os planos para seu futuro no Jiu-Jitsu?

Além de continuar guiando e ensinando meus alunos, estou ganhando peso e me preparando fisicamente para voltar a competir. Devido aos meus altos e baixos com o câncer, nunca me senti tão forte quanto estou agora e pretendo aproveitar isso. Minha meta é participar do Campeonato Europeu e do Mundial no ano que vem.

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