Vinicius Draculino, Jiu-Jitsu e os vagalumes no breu

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Draculino conquistou o ouro na divisão master & sênior no Mundial Sem Kimono 2008. Mas tirou muitas outras lições. Foto: Luca Atalla

Draculino conquistou o ouro na antiga divisão master & sênior no Mundial Sem Kimono 2008. Mas tirou muitas outras lições. Foto: Luca Atalla

Do baú de GRACIEMAG, um célebre artigo de 2008, assinado pelo professor Vinicius “Draculino” Magalhães, em nossa edição #139. Confira, aprenda com ele e assine GRACIEMAG para ler matérias similares. Oss!

“Já fiz três lutas de MMA, no Brasil e nos Estados Unidos, e posso afirmar: lutar Jiu-Jitsu é muito mais tenso e complexo. Eu já sabia disso, e repeti essa constatação em voz alta, no ginásio da Califórnia State University Dominguez Hills, no sábado, bem antes de tudo acontecer. Eu ainda não podia saber, claro. Mas, umas 24 horas depois, naquele domingo fatídico, eu acordaria na maior tranquilidade, pensando que era a manhã da luta – até ver que ao meu lado estava o Wellington Megaton, com os trajes de árbitro do 2º Mundial de Jiu-Jitsu Sem Kimono. Caí numa tocaia. Mas deixemos isso para o fim.

A história começou no sábado, 9 de agosto de 2008. Não, na real começou antes, no mês de maio. Foi quando aceitei a missão de estabelecer nos EUA e comandar a Gracie Barra Texas, na cidade de Houston. Após um período totalmente voltado para o MMA e para o desenvolvimento dos meus alunos, achei que era a hora de voltar a botar a cara nos torneios e sentir a adrenalina de competir entre a garotada.

Estou com 37 anos. Não lutava um campeonato na categoria adulto desde 2002, no Pan da IBJJF. Com as coisas mais mansas, e com 150 alunos em Houston, quis mostrar a eles que o Jiu-Jitsu é para todos, e que mais vale cair dentro e lutar do que ficar pensando em desculpas ou se esconder atrás da fama.

A merda de ficar afastado é que você perde muito a tarimba, as manhas de competição – o ritmo da luta, a malandragem, coisas assim. Estranhei até como bater o peso para o campeonato, depois de tanto tempo sem enfrentar as balanças. O segredo é saber quantos quilos você perde ao dormir, e assim calcular certinho quanto você precisa bater pela manhã, para não ficar nem muito acima nem muito abaixo do seu peso ideal. Por isso passei aqueles dias carregando minha balança a tiracolo pelo ginásio, enquanto o pessoal brincava comigo.

A melhor sensação para mim foi na hora de aquecer, aquele frio na barriga antes da primeira luta. Não se trata de medo, você sabe. É pura adrenalina nas veias. Como eu estava dizendo, o vale-tudo e o MMA são extremos, claro, e podem ter lances brutais. Mas por outro lado você conhece o adversário, estuda o estilo do rival com antecedência, ganha uma bolsa boa, passagens aéreas para você e seu time – e faz uma luta só e a missão está cumprida. Praticamente o oposto do Jiu-Jitsu, em que lutamos por amor ao esporte, não faz ideia sobre quem vai encarar e o que pode acontecer.

A única coisa certa em todos os torneios de Jiu-Jitsu, por exemplo, é que vai haver ao menos uma grande surpresa, uma zebra a galopar nos tatames. O negócio é fazer tudo certinho para que não seja contra você.

Preparei meu Ipod com 4 mil músicas. Nada de hip-hop, que sou da antiga, mas acabei não escutando meu rock favorito antes da hora da verdade – “Angel of death”, da banda Slayer. Olha aí, vai ver que foi isso que fez a diferença, que causou aquele lance com os vagalumes. Tremendo papelão, foi o que pensei na hora. Mas claro que não me envergonho agora. Vergonha eu teria caso eu mutucasse, fugisse da luta ou agisse como um frouxo.

Em campeonatos de Jiu-Jitsu, e aí vale com ou sem kimono, já vi o certo dar errado, o errado dar certo, a técnica perder para ignorância e vice-versa. Depende do dia de cada um, e de outra série de fatores. Essa é a magia do esporte. E é essa magia que me faz estar lá sempre no ginásio, mesmo quando eu não vou lutar, e encarar calor ou frio nos ginásios da Califórnia.

Naquele fim de semana, o calorão estava especial, e o clima dentro da área de lutas não era mais ameno. Afinal, não é sempre que podemos ver em ação Saulo Ribeiro, Roberto Godói, Baret Yoshida, Jorge Pereira e tantos outros nomes da minha época. Tanto que a divisão de masters tinha mais astros que na categoria adulto.

Porém, formado por uma nova geração de astros, faixas-pretas cascas-grossíssimas, o adulto foi um espetáculo para os torcedores. Acostumado a um tempo em que víamos um mar de caras feias e lutadores cheios de marra, me impressionou ver como a molecada atual é educada, cordial e respeitosa com a gente e entre eles. Todos se cumprimentavam, trocavam reverências, numa clara demonstração que lutam para se divertir e evoluir, antes de tudo. Alguns, inclusive, me disseram que eu era um grande exemplo, por estar ali inscrito entre eles após faturar o ouro na minha divisão de 37 anos. Foi muito legal ouvir isso.

Eu sabia que não precisava provar nada a ninguém – exceto a você mesmo, todos os dias da vida. Por isso eu cheguei a rir ao ver uma luta da garotada. Percebi que para chegar perto da explosão, timing e pujança dos garotos, eu precisaria de uns cinco campeonatos em sequência. Foi o ritmo forte da maioria, mais do que a técnica, que me chamou a atenção. O que dizer de Rubens Cobrinha? A luta dele pelo ouro dos leves, contra Jeff Glover, foi a luta que mais me impressionou no evento. Um verdadeiro jogo de xadrez, vencido por Cobrinha por uma vantagem ao quase chegar do lado e dar um bote nas costas.

Na minha divisão, o peso-pena, Bruno Frazatto venceu Denilson Pimenta na final. Pimenta luta desde a minha época também, e é um cara bem forte e completo. Bruninho usou sua guarda para raspar e virar a luta no finzinho, quando perdia por 2 a 4. Um lutão de duas, com o perdão da expressão chula, “putas velhas de tatame”.

O grande nome do evento, claro, foi Antonio Braga Neto, campeão absoluto após vencer Gabriel Vella numa final sensacional, no cair da tarde de domingo. Braga Neto surpreendeu ao, com segundos de luta, ir para cima e derrubar Vella, caindo por cima.

No feminino, a mesma coisa, vi muita técnica e humildade. Além da campeã absoluta, a faixa-marrom Ana Laura Cordeiro, campeã após vencer Ana Carolina e Penny Thomas, ainda vi Letícia Ribeiro finalizando bonito no peso-pluma.

E, para coroar, ainda teve o Saulo Ribeiro, campeão meio-pesado numa divisão cheia de garotos, como Gregor e Igor Gracie, que estavam cheios de fome de vitória.

Campeonatos são assim, uma grande festa, em que mesclam-se estilos e experiências. No meu caso, senti falta de ritmo, acredito. Admito que, mesmo após vencer o peso-pena entre os veteranos, não fiquei completamente satisfeito com minha exibição. Achei minhas duas lutas truncadas.

Até que chegou a hora de lutar entre os adultos. E eu, que quase não cometia erros tolos quando era competidor assíduo, acabei cometendo aquele erro primário, logo em minha primeira luta no adulto.

Era cerca de uma e meia da tarde de domingo. Eu sabia que meu oponente, Johnny Ramirez, era um aluno do Rodrigo Medeiros e um cara bem duro. Afinal, ele tinha feito uma luta boa com meu aluno Samuel Braga, em que o Samuel venceu por dois ou três pontos. Fiz minha tática, então: pus na guarda, raspei como manda o figurino e fiquei ali por cima fazendo minhas vantagens na meia-guarda.

Quando a luta parou e voltou no meio, tentei dar uma movimentada maior. Fui fazer uma passagem de guarda um pouco arriscada quando não há o kimono, em que se bota a mão no joelho para pressionar e passar por cima da perna. Deu no que deu.

Ao ver a gravação depois, eu não sabia se ria ou chorava. Meu braço escorregou certinho e caiu dentro do triângulo dele. Eu pulei para dentro do golpe!

Rapidamente, tentei fazer a defesa tradicional do triângulo, no que ele laçou minha perna. Golpe arrochado, vi então voltar aquela poderosidade da antiga, dos tempos em que minha geração foi criada a ferro e fogo. Eram tempos duros, quando incutiam na gente que devíamos ir até o fim para não ser finalizado. E, com os três tapinhas, não poderíamos testar de fato onde era o fim, certo?

Dormir ou bater? Eu, que nunca tinha batido na minha vida num campeonato, decidi que não seria logo agora, aos 37 anos. Não, eu não desistiria depois de velho, naquele Mundial Sem Kimono da IBJJF.

Naquele instante, com meu pescoço imprensado dentro do triângulo, cinco reflexões cruzaram minha mente na velocidade do pensamento:

1. Puta merda, que erro! Caí dentro do triângulo feito um idiota.

2. Preciso me defender.

3. Ih, não vai dar para defender. Caramba, agora eu sei exatamente como o Royler se sentiu no ADCC 2003. O que faço?

4. Ferrou. E agora: bater ou não bater?

5. Bater é o caralho. Vou ficar aqui mesmo.

Cheguei até a sonhar. Dormir num golpe é uma sensação estranha, porque é um lance suave. Não é nada traumático, como um nocautaço no vale-tudo. Primeiro, aparecem umas luzes piscando, como um bando de vaga-lumes. Quando você não espera mais, dorme.

Jiu-Jitsu, portanto, é isso: errou, já era, apagou. Deixo claro, primeiro, que meu jovem oponente teve todos os méritos. Segundo: batucar e desistir em campeonato não é demérito para ninguém, pelo contrário. Isso é loucura minha que ninguém deve pensar em seguir, não.

The end.

Draculino com os alunos na GB, em foto de Bruno O’Hara / Divulgação.

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