Fabulário geral do armlock no Jiu-Jitsu

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Rafael Mendes finaliza Cobrinha no armlock

Rafael Mendes estica o braço de Rubens Cobrinha no Pan 2012. Foto: Ivan Trindade

* Artigo publicado originalmente nas páginas da GRACIEMAG #235. Para mais conteúdos exclusivos com o melhor do Jiu-Jitsu mundial, assine a revista mais tradicional do esporte em formato digital *

Valorize o que há de subjetivo no golpe: Certa vez, grande mestre Robson Gracie disse que, após tantos anos de experiência, ele percebeu que “o Jiu-Jitsu é uma mensagem espiritual. Se você treina, você entende isso facilmente. Uma pegada simples no kimono é de um poder extrassensorial”, disse o faixa-vermelha.

Nessa mesma linha de pensamento, podemos constatar que, quem pratica Jiu-Jitsu percebe rapidamente a magia que se revela no ato de esticar o braço do oponente. Todo um estilo de vida transparece a partir de um golpe tão sagaz e emblemático. O armlock define o tamanho da nossa ousadia.

Não é uma questão de acertar ou errar, basta arriscá-lo e você será recompensado. O grande prêmio que o Jiu-Jitsu pode oferecer ao praticante da arte suave é o orgulho de si mesmo. Descobrir-se uma pessoa de atitude, aquela que busca a finalização perfeita e jamais se acovarda.

O corpo inteiro, em sincronia, aplica o ataque: Em 2012, na GRACIEMAG #190, o faixa-preta Ricardo “Franjinha” Miller, da academia Paragon, chamou atenção para uma das falhas mais comuns durante a aplicação do armlock: atacar em etapas, como se o golpe fosse construído numa progressão de ações independentes umas das outras. “Os iniciantes não têm coordenação”, explicou Franjinha, “movem os quadris e só depois controlam o braço inimigo, quando, na verdade, esses dois movimentos (fuga dos quadris e controle do braço) têm que acontecer de forma integrada e simultânea”.

Claro, não há outra maneira para se obter sincronismo e coordenação, apenas a prática intensa proporcionará isso a você, serão muitos anos de repetição. Portanto, não perca um treino sequer. Aqueça fazendo drills de ataques com armlock. E tenha paciência. Um dia, de repente, quando você se der conta, vai estar com um jogo vistoso, dinâmico, esticando o braço de geral com movimentos fluidos, ágeis e muito bem coordenados.

No ADCC 2005, Roger Gracie surpreendeu Eduardo Telles. Repare no polegar de Telles apontando para cima. Foto: Gustavo Aragão

Drills são importantes, porém, nada substitui o treino à vera: “A grande virtude técnica de um faixa-preta não é a quantidade de golpes que ele conhece, mas sim a experiência que ele tem na ‘aplicação real’ de cada golpe”, analisa mestre Carlos Gracie Jr. “O faixa-azul ainda não conhece as minúcias no encaixe do golpe, o timing dos apertos, as angulações corretas”, continua o faixa-vermelha-e-branca. “Ele ainda não sabe o que melhor funciona de acordo com o biótipo do adversário, tampouco sabe do que é realmente capaz quando está exausto e mesmo assim encontra uma oportunidade de arriscar a chave de braço”.

Em resumo: todo mundo está apto a conhecer um armlock, basta assistir a vídeos na internet. Não queremos dizer que a teoria é irrelevante. Pelo contrário, é também enriquecedora. Mas quando falamos de Jiu-Jitsu, falamos, sobretudo, de prática. Não somente de prática de repetição de golpes em exercícios específicos (o que também é fundamental, claro). Falamos, sobretudo, de prática de luta. O “rola”.

Por mais que o drill canse o atleta, o cansaço é diferente se comparado ao de um treino à vera. Este é um cansaço sob pressão, que envolve o risco de errar, a angústia do incerto, o desejo de vitória, a duração do combate, o momento do bote. Enquanto no drill o adversário fica parado como um boneco, no treino à vera ele impõe resistência, reage, contragolpeia. Ou seja, faça drills, estude a teoria das chaves de braço, assista a vídeos na internet, mas jamais deixe de se testar nos treinos e campeonatos. É a partir dos erros e acertos nos “campos de batalha” (e não no ambiente seguro do quartel) que você refinará o ajuste-fino da sua técnica e alcançará o armlock digno de um faixa-preta.

Foto: Gabriel Srur

Armlocks não fazem dormir: Autoridades incontestáveis do Jiu-Jitsu, como o saudoso faixa-vermelha Helio Gracie, já vaticinavam que o golpe mais eficiente do Jiu-Jitsu é o estrangulamento. ”Sim, pois não tem valente que resista ao sono, qualquer um dorme”, nos disse o professor, certa vez. A lição de mestre Helio deve servir como um alerta a todos os lutadores de Jiu-Jitsu, sobretudo aqueles que precisam recorrer ao Jiu-Jitsu numa situação de defesa pessoal. Mesmo que você estique o braço do adversário com um armlock arrochado, isso não significa que a luta está encerrada e o oponente deixa de representar um perigo.

Quem não se lembra do combate entre Vitor Belfort e Jon Jones, no UFC 152, em 2012? A chave de braço que Vitinho encaixou em Jones foi o golpe mais comentado naquele ano. Embora o bote tenha agredido a articulação do cotovelo do americano, Jones arrancou o braço na marra e, mesmo lesionado, seguiu na disputa e venceu Belfort por finalização.

No Jiu-Jitsu competitivo, cenas semelhantes também acontecem com frequência. A mais emblemática de todas certamente foi registrada na luta entre Roger Gracie e Ronaldo Jacaré, na final da categoria absoluto do Mundial 2004. Mesmo com o braço “pendurado” após o ataque brutal de Roger via armlock da guarda, Jacaré seguiu na luta e se tornou campeão. Ou seja, nem sempre o armlock perfeito corresponderá aos três tapinhas do inimigo, muito menos ao fim do combate. Esteja preparado para esse cenário, caso ele venha a acontecer.

Foto: Dan Rod

O golpe mais versátil de toda a cartilha do Jiu-Jitsu: Quando vertemos os golpes do Jiu-Jitsu com kimono para a modalidade sem kimono e também para o âmbito da defesa pessoal, os estrangulamentos sofrem uma redução radical em seu leque de opções.

Veja, por exemplo, o caso de Roger Gracie, o maior especialista em estrangulamentos da montada nas lutas de Jiu-Jitsu com kimono. Na condição de lutador de MMA, Roger sofreu uma diminuição drástica em seu arsenal. “Para estrangular da montada numa luta de MMA, a eficiência cai de 100% para perto de zero. O jeito então é dar porrada e obrigar o cara a virar de costas. Ou então fazer o inimigo expor um braço e aí eu arrisco um armlock”, analisa Roger.

E é nessa análise que se revela talvez a grande virtude do golpe protagonista desta reportagem: a versatilidade. O professor da Gracie Barra Márcio Feitosa explica: “Isso se aplica não só quando comparamos o armlock com estrangulamentos, mas também quando comparamos o golpe com outras chaves, como a americana, a kimura ou a chave de pé. O armlock pode ser aplicado em um número maior de ângulos e situações, com fácil adaptação a qualquer posição”.

Esteja você por cima ou com as costas no chão, atacando da montada ou defendendo-se de uma blitz pelas costas, com ou sem kimono, sempre haverá um atalho para atacar o braço do adversário pela mecânica do armlock.

Foto: Dan Rod

A teoria de Arquimedes e outras sugestões para o arremate do armlock: A física, mais exatamente a teoria das alavancas desenvolvida pelo filósofo grego Arquimedes (“Dê-me um ponto de apoio e uma alavanca e eu moverei o mundo”), é fundamental para a compreensão da mecânica do armlock. Lembre-se sempre da porta, das dobradiças e da maçaneta. A física diz que uma força aplicada em uma alavanca é proporcional à distância do seu ponto de apoio.

No caso da chave de braço, se você usa o seu quadril como ponto de apoio e pousa o cotovelo do adversário ali, você está no caminho certo. Porém, se você aplicar a força com as mãos sobre o antebraço dele, numa região próxima ao cotovelo, em vez de prender e pressioná-lo pelo punho, você dificilmente vai obter pressão suficiente para finalizá-lo. Ao aplicar essa mesma força no punho ou na mão, a pressão (ou “torque”) aumenta consideravelmente, pois a distância do ponto de apoio (cotovelo) para o local onde se exerce força na alavanca (punho) é decisivamente maior. Esse é um dos principais macetes para você arrematar o golpe com sucesso.

Existem outros, como posicionar o polegar do adversário apontando para cima. Isso evita que o adversário gire o pulso, o que facilitaria a defesa. Outra sugestão é pesar a perna sobre a cabeça do oponente, deixando a nuca dele colada ao chão (no caso do armlock partindo da montada). Aproxime os joelhos. Nessas condições, dificilmente o golpe não será bem sucedido. Há quem ainda aconselhe o domínio da perna do adversário para evitar que ele se movimente e escape.

Foto: John Lamonica

Conheça as defesas para o armlock e melhore a forma como você ataca: O Jiu-Jitsu é um jogo de espelhos. Quanto mais você estuda as defesas de um golpe, mais você compreende os elementos necessários para se utilizar o mesmo golpe na hora de atacar. E vice-versa.

Para você ser um bom lutador, você precisa ser completo, equilibrando o seu conhecimento entre os aspectos defensivos e ofensivos da arte suave. Sendo assim, jamais negligencie o estudo sobre as defesas para o armlock. São diversas minúcias e, claro, como já mencionamos anteriormente, só a prática do treino à vera será capaz de revelar a você o que funciona e o que é balela.

“Considerando o armlock que sofremos dentro da guarda do adversário, a técnica de defesa mais básica consiste em sempre acompanhar os quadris do oponente”, ensina Ricardo Franjinha. “Se o seu corpo ficar sempre no mesmo eixo dos quadris do adversário, será mais difícil que ele tenha sucesso no encaixe do armlock”.

Além disso, o professor alerta para os erros que não podemos cometer em tal situação: “Quanto à postura, o principal erro é deixar a cabeça baixa ou permitir que o oponente a controle. Não se pode deixar que o adversário tenha pegadas boas sem que se tente quebrá- -las. No que tange ao movimento, como já disse, o principal erro é não seguir a movimentação dos quadris do adversário, ou, antes disso, não controlar os quadris do oponente”.

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