15 anos de saudade: O legado de Carlson Gracie

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Carlson Gracie

Com uma mistura de lições, carisma e folclore, o legado de Carlson Gracie segue forte no mundo do Jiu-Jitsu. Foto: Arquivos GRACIEMAG

Ele nasceu Eduardo, escondia a idade e pintava os cabelos. Tirando isso, Carlson Gracie (1933-2006) era uma pessoa completamente autêntica. Dizia o que pensava e jamais seria falso ou controlaria a língua para que suas ideias fossem suavizadas ou parecessem politicamente corretas. Pelo contrário, costumava criar gírias que tornavam seus pontos de vista ainda mais claros e impactantes. Os creontes sabem bem disso.

Carlson nasceu no dia 12 de agosto de 1933 com o nome de Eduardo. Com poucos meses, seu pai, grande mestre Carlos Gracie, tomou gosto pela força das letras C e R, e alterou o nome do primeiro filho. Ele competiu, venceu seus desafios e cresceu na academia, treinado por Carlos e pelo tio Helio. Tornou-se dono de um coração caridoso que o tornava um fiasco como administrador – Carlson distribuía bolsas para seus alunos treinarem de graça, na mesma proporção em que sua academia conquistava troféus nos campeonatos. De fato, o faixa-vermelha está entre os treinadores mais vitoriosos da história competitiva do Jiu-Jitsu.

Seu coração às vezes era grande até demais, servindo à malícia de aproveitadores. “Eu dizia para ele: ‘Pô, mestrão! Tem um monte de gente te explorando e você não faz nada. Assim você vai morrer sem nenhum tostão no bolso, que nem o Garrincha’. Ele respondia: ‘Ué, qual é o problema? Eu não vou estar morto mesmo?’”, recorda o discípulo Marcelo Saporito.

Carlson parecia um rei que não fazia distinção entre nobres e plebeus. Saporito conta que, durante um longo período, o Gracie levava um grupo de mendigos de Copacabana para tomar banho e dormir na academia. Ao mesmo tempo, Carlson era uma personalidade dos esportes bajulada por políticos, doutores e magnatas, sem jamais ter desenvolvido nenhum tipo de afetação por causa disso. “Ele foi muito feliz, viveu a vida como bem queria, desprendido de valores materiais e preocupações mesquinhas. Sem dúvida, levou para o Céu muitas histórias de vitória e alegria”, diz um dos primeiros faixas-pretas formados pelo Gracie, Fernando Pinduka.

E quando vivo, o que Carlson costumava levar consigo? Comecemos a lista por aquela pochete presa à cintura, completamente indiferente ao que a moda ditava: “Na pochete invariavelmente tinha uma escova para pentear o cabelo, um caderninho com o telefone de um monte de gente e uma máquina de fotografia”, garantia seu amigo de longa data (e também saudoso) Osvaldo Paquetá. “Nunca vi ninguém bater tanta foto naquela época quanto o Carlson. Era impressionante”, confirma o pupilo Wallid Ismail.

E os discos de bolero e música francesa? “Lembro de quando eu tinha 15 anos, e ficava na academia descansando para o segundo treino do dia. O Carlson então botava Edith Piaf na vitrola e me chamava: ‘Vinicinho, vem escutar essa maravilha! Eu aposto contigo que você vai querer gravar essa em fita!’ Eu tinha 15 anos, achava uma porcaria e ele me fazia escutar aquilo por horas a fio”, diverte-se Vinicius Cruz, outro grato faixa-preta do mestre.

A lista de objetos não termina. Um baralhinho, já que se tratava de um amante da jogatina. Um dicionário, para ele decorar ainda mais verbetes e desafiar a inteligência dos amigos. Porém, Saporito lembra de algo mais singelo: um pião que o grande mestre botava para girar sobre o tatame da academia da Figueiredo Magalhães, durante o intervalo dos treinos. “Os olhos dele brilhavam. ‘Tá vendo, bichão? Eu tive infância’, ele costumava dizer. Eu respondia: ‘Ô, Carlson, você ainda não saiu da infância. Você é uma criança grande’”, recorda Saporito.

Mais do que seus utensílios, Carlson Gracie gostava mesmo era de estar com os amigos de fé e as mulheres que amou. “Ele era o tipo de pessoa que não conseguia viver sozinha”, definiu Paquetá.

As próprias regras

 

Carlson Gracie com seus alunos. Foto: Arquivos GRACIEMAG

Genial e genioso, Carlson Gracie sucumbia com a maior facilidade à gordurosa e açucarada mistura açaí-com-xarope-de-guaraná, sendo ele um notório diabético, com o colesterol alto. Carlson chegava a encolher a barriga em certos momentos para disfarçar os quilos a mais que vinha acumulando desde a década de 1970, quando deixou de ser atleta e virou treinador, permitindo-se assim alguns hábitos de glutão.

Quando algum mal-estar se abatia sobre ele, no entanto, era comum vê-lo se agarrar rapidamente à Dieta Gracie, feito uma criança arteira e desobediente que, após cometer uma grande traquinagem, comporta-se como um santinho até as coisas serenarem para o seu lado. Isso aconteceu nos últimos dias de vida do grande mestre: “Ele me ligou sentindo muitas dores, com a fala arrastada. Disse, no entanto, que logo ficaria bom, pois tinha voltado a cuidar muito bem da alimentação”, garantiu Paquetá.

Isso não bastava para Carlson naquele momento. Ele precisava de uma intervenção clínica urgente, o que só aconteceu tempos depois, quando a situação já era crítica. Teimoso em último grau, o Gracie tinha pavor de hospitais. Quando alguém aconselhava que ele procurasse um médico, Carlson rebatia: “Tá me gorando, é?”.

O faixa-vermelha chegava a esconder até da família suas fraquezas de saúde. Talvez porque não quisesse reconhecer que o imbatível fenômeno do vale-tudo das décadas de 1950 e 1960 estava envelhecendo. Ou então pela aguda autoconfiança que o fazia acreditar numa energia interior capaz de livrá-lo de quaisquer apuros da vida. Provavelmente por uma mistura dessas duas hipóteses, Carlson permitiu que uma simples pedra no rim evoluísse para uma infecção generalizada, fazendo seu coração parar às 6 horas de uma manhã fria em Chicago, EUA.

Durante a missa de despedida ao professor, que reuniu mais de 500 admiradores em Copacabana, desafetos de longa data chegaram a se abraçar. Afinal, como o irmão Carlos Robson Gracie disse, durante a missa: “Quando um anjo sobe aos céus, ele promove a união das pessoas. Estou convicto de que Carlson jamais será esquecido”.

A última luta

 

No dia 1º de fevereiro de 2006, Carlson Gracie falece em decorrência de uma infecção generalizada. Foto: Arquivos GRACIEMAG

 

Bastante debilitado, Carlson faz pegadas nas mangas dos paramédicos. Eles tentam tirá-lo de seu apartamento em Chicago, EUA, e colocá-lo na ambulância, na noite de quinta-feira, 26 de janeiro de 2006. “Deixa quieto, pai, eles estão te levando para o hospital”. Ao ouvir a voz do filho, o mestre fecha os olhos, dá sua balançada típica com a cabeça, e enfim se resigna: “Pro hospital? Tá bom”.

Minutos depois, Carlson entra na emergência do Lincoln Park Hospital, com um histórico de oito dias de dores na bexiga e nos rins, e fortes alterações no estado mental. Feitos os exames, é diagnosticado septicemia, uma infecção generalizada no sangue. Tudo porque uma enorme pedra no rim, não tratada, bloqueou as vias urinárias e infeccionou a região, primeiramente, e o sangue e demais órgãos a seguir.

Oito especialistas liderados pelo médico brasileiro Mauricio Consalter passam a acompanhar Carlson, agora medicado por fortes antibióticos. O estado é crítico. Mas o lutador pouco a pouco se recupera, até que, no dia 31 de janeiro, ele dá sinais claros de melhora. “Sua pressão estava sobre controle, seus batimentos estavam perfeitos, e ele não tinha mais febre. Recuperou a consciência e pôde falar normalmente”, lembra o doutor.

O filho Carlson Jr. revive o clima da véspera: “Ele começou a perturbar todos no hospital. Brigava com os médicos, beliscou a bunda da enfermeira, e me esculhambou. Achei que papai tava recuperado, mas ele me alertou: ‘Fica por aqui porque esse é o último dia que você vai me ver’. Estranhei ele falar aquilo, porque tava bem”.

Não era permitido qualquer acompanhante na UTI. Júnior foi então para casa e, enquanto a infecção silenciosamente mastigava o coração do pai, não conseguiu dormir. Às 6h do dia 1º de fevereiro, com baixa frequência cardíaca, o grande mestre foi entubado. Iniciou-se uma série de procedimentos para tentar reanimá-lo, mas não houve resposta. Quarenta minutos depois, Carlson Gracie foi declarado morto. Ele conseguiu resistir por mais de uma semana sob um quadro gravíssimo de infecção generalizada, e todos os órgãos se recuperaram. Menos um. Justamente o que nele era maior, o coração.

Qual foi o legado de Carlson?

 

Carlson eternizado na rua Figueiredo de Magalhães, berço de sua primeira academia. Foto: Carlos Arthur Jr.

“Todo seminário que faço eu lembro uma ou outra posição que aprendi com meu pai. Raspagens, armadilhas de ataques duplos, tudo muito moderno e bastante eficiente até hoje” Carlson Gracie Jr.

“O ensinamento mais marcante que o Carlson nos passava era a humildade” José Mario Sperry

“Parece que foi ontem. Eu encaixava a chave kimura na posição norte-sul e sempre caía para pegar o armlock. Carlson então tirava a botinha dele e entrava no tatame bufando: ‘Nunca faça isso de novo! Você está em cima, com a kimura encaixada, e puxa a posição para ficar por baixo, no armlock! Tá maluco! Se perde a posição você fica por baixo, então continue na kimura!’” Ari Galo

“Carlson dava muita ênfase à distribuição de peso, para o aluno não perder a posição e cair por baixo já cansado. Ele me ajudou muito a lapidar minha chave americana” José Mario Sperry

“Carlson nos ensinou sempre que o maior segredo no Jiu-Jitsu é acreditar em si mesmo, pois ninguém é melhor do que ninguém” Ari Galo

“Acredito que foi o Carlson o primeiro a abrir as portas do Jiu-Jitsu para o mundo, ensinando, incondicionalmente, todos que a ele procuraram” José Mario Sperry

“Treinei com o Carlson desde os 8 anos, e ao longo da minha vida inteira só vi o Carlson triste e chateado uma vez: durante a separação da equipe, em 1998” Ari Galo

“O Carlson foi o maior treinador de todos. Ele sabia respeitar as características de cada lutador. Ele lapidou meu jogo de guarda e me ensinou a usar a essência do Jiu-Jitsu nas lutas profissionais. Muitos lutadores do UFC hoje deviam relembrar Carlson e lapidar os recursos de guarda” Carlão Barreto

“Carlson foi nosso melhor formador de lutadores e o professor mais rigoroso na concessão de faixas. Aprendi muito com ele sobre como um mestre avalia o aluno. Quando eu lutava, nutria uma série de receios e achava que o Carlson exagerava nos elogios, que ele via algo em mim que nem eu enxergava. Carlson era genial nessa análise, na observação das reações dos alunos em momentos críticos. Minhas vitórias, então, são frutos da minha disciplina e dedicação aliadas à grande capacidade do Carlson de extrair o melhor de cada um” Carlos Rosado

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