“Prepare-se de acordo com o modelo da competição”, ensina Rafa Ribeiro

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Leandro Lo em combate de 10 min pelo circuito da IBJJF. Foto: Divulgação. 

Texto: Rafael Ribeiro*

Imagine se Usain Bolt fosse correr provas de 100m, 200m, 400m, 800m e 1500 metros na mesma Olimpíada. Repare, o esporte é o mesmo: corrida. No entanto, quais seriam as chances de o ídolo jamaicano ganhar os 100m e os 1500m? Ínfimas, garanto, praticamente impossível, afinal, as distâncias mudam completamente a preparação do atleta. Preparar-se para competir nas provas de 100m anula a preparação para os 1500m e vice-versa.

No Jiu-Jitsu podemos citar dois tipos de eventos que se tornaram bastante “distintos” nos últimos anos, levando os atletas a desenvolverem características bem específicas, atreladas ao modelo de cada competição. Refiro-me ao abismo entre “torneios com kimono” e “torneios sem kimono”. 

O maior evento NoGi é o tradicional e prestigiado ADCC. Regras bem diferentes do que costumamos seguir nos eventos com kimono. A principal delas talvez seja a permissão das chaves de calcanhar. Foi exatamente nesse ponto, a partir de um tipo de golpe, que vimos uma leva de atletas se especializar no estilo sem kimono. 

O principal deles é o atual campeão absoluto do evento, o americano Gordon Ryan. Ele e vários outros atletas “especialistas” estão dominando o cenário NoGi. A maioria deles só luta eventos NoGi, só treina NoGi e se prepara tática, física e mentalmente para eventos NoGi. Sendo assim, uma preparação bem mais específica e que contribui significativamente para esse domínio nos resultados.

Gordon Ryan em ação no ADCC. Foto: Divulgação. 

Podemos comparar também dois eventos de Jiu-Jitsu com kimono. Por exemplo, o Grand Slam da AJP e o Sul Americano da IBJJF. As diferenças entre eles obriga os atletas a adotarem treinamentos bem distintos. Veja: 

1) Do ponto de vista técnico

Na AJP, as lutas têm duração de cinco minutos. Na IBJJF, para faixas-pretas adultos, o tempo de combate é o dobro: dez minutos. Isso muda completamente o sistema de treinos de tatame. 

Hoje o BJJ se apoia num conceito antigo de que sempre “é preciso treinar mais”. Esse “treinar mais” significa maior volume de treino. Intermináveis horas fazendo sparring e drills. 

Quando você aumenta muito o volume, acaba perdendo intensidade e velocidade. Pense num treino em que você vai precisar fazer dez rolas de 10 minutos, com 1 minuto de descanso. Pense também num outro treino em que você vai fazer três rolas de 5 minutos por 5 minutos de descanso. Qual dos dois treinos você acha que faria com mais vigor e intensidade?

O segundo, é claro! 

Então perceba: nosso modelo de treino quase nunca privilegia a velocidade das ações. Estamos culturalmente e historicamente ligados à resistência das ações. E a própria arte marcial traz esse conceito de “guerreiro resiliente”. Mas, para sermos eficientes tecnicamente em espaços de tempo curtos, com altas velocidades, precisamos mudar muita coisa nas estruturas de treinos de tatame. Como por exemplo: fazer treinos mais breves e drills com altas velocidades. Se você for competir na AJP, esse é o modelo a ser seguido: treinos curtos e ágeis. 

Combates de 5 min na AJP influenciam a sua forma de treinar. Foto: Divulgação. 

2) Do ponto de vista tático

Na AJP, com a redução do tempo, o início de luta pode fazer muita diferença. Dificilmente vejo escolas treinando esse fundamento: a tática vencedora para o minuto inicial. Lembrando que início de luta envolve a eficiência de puxar para a guarda, e isso é bem diferente do que só treinar quedas. 

Outro ponto importante é o minuto final. Ele ganha mais importância com a questão do vencedor ser o último a pontuar no critério de desempate. Nesse caso, é necessário formatos de treinos em que exista uma exigência do atleta em fazer o maior número possível de pontos apenas no último minuto.

3) Do ponto de vista físico

Este é um tópico amplo e que merece um artigo por si só. Para selecionar apenas um breve aspecto da perspectiva física, gostaria de falar sobre a prevenção das lesões. Se você vai disputar um evento de lutas de 10 minutos, com duas categorias envolvidas (peso e absoluto), o seu corpo deve ter um condicionamento específico e uma blindagem adequada a esse tipo de formato competitivo. 

Se você vai disputar um evento mais curto, com lutas breves, propondo-se a atuações mais explosivas e intensas, a abordagem é outra no que diz respeito ao trabalho de prevenção. 

É necessário portanto que a ciência do treinamento se faça presente nas diferentes rotinas dos treinos. 

4) Do ponto de vista emocional

Começar perdendo na AJP e na IBJJF terá consequências diferentes na parte mental. Como você irá reverter? Se por um lado você tem menos tempo, por outro, a vantagem vale um ponto. Então você precisa estar preparado para cada uma dessas situações específicas. Mais calma ou mais agressividade? Mais controle ou mais ataque? A ideia é quanto mais especificamente você estiver preparado, maior será o controle das suas emoções.

5) Do ponto de vista teórico 

Muitos atletas, por lutarem diversos eventos com regras diferentes, confundem-se nas horas de agir. Patrick Gaudio, por exemplo, foi desclassificado no absoluto do Europeu 2020 justamente por se confundir em relação às regras. 

O atleta precisa saber perfeitamente a regra e o formato de cada evento. E se concentrar nisso. Assim como todos os outros quatro pilares que falei anteriormente precisam estar claros na cabeça do atleta. 

Rafa Ribeiro puxa o treino de Isaque Bahiense. Foto: Divulgação. 

Gostaria de concluir este artigo da maneira mais clara possível: o atleta não deve se considerar “preparado” para competir no ADCC, pelo fato de ter feito uma preparação impecável semanas antes para disputar o Mundial de Jiu-Jitsu da IBJJF. Assim como o campeão do ADCC não deve achar que, uma semana após conquistar o título do evento NoGi, está condicionado a brilhar em termos de desempenho num campeonato da AJP. 

Repito: o lutador precisa entender claramente quais são as diferenças no tipo de treinamento para cada competição e como vai reagir nas situações específicas. Isso é a teoria do treino e é ela que leva o atleta ao estado de “consciência plena”. Estado esse que permite que o atleta encontre o seu mais sofisticado nível de desempenho esportivo. Oss! 

* Rafael Ribeiro é preparador esportivo de atletas amadores e profissionais, com foco em MEC (Modalidades Esportivas de Combate) e surfe. Ministra cursos de extensão e pósgraduação. Atualmente é responsável pela preparação esportiva dos atletas profissionais de Jiu-Jitsu Isaque Bahiense, Mahamed Aly, Márcio André, Pedro “Paquito” Ramalho e Hiago Gama. Também já treinou Michael Langhi e Renato Cardoso. Instagram: @rafaribeirojj

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