Rodrigo Cavaca e sua mente campeã como atleta e treinador de Jiu-Jitsu

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Rodrigo Cavaca aplica uma gogoplata em Kitner Mendonça na final acima de 99kg. Foto: Gustavo Aragão/GRACIEMAG

Rodrigo Cavaca e seu gogoplata afiada. Foto: Gustavo Aragão/GRACIEMAG

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Grande mestre Carlos Gracie costumava dizer para os filhos e sobrinhos que “a boca é uma das principais armas no Jiu-Jitsu”, primeiro para comer bem, depois para conversar, convencer um agressor que era má ideia brigar e tentar uma saída diplomática antes de se ir às vias de fato. Hoje, no Jiu-Jitsu, Rodrigo Cavaca, professor e líder da Zenith BJJ, também faz da boca e da fala calma e ponderada uma arma perigosíssima – para os oponentes. Cavaca formou o ídolo Marcus Buchecha, que sempre creditou parte do seu sucesso às instruções do professor – antes, durante e depois de cada torneio. Qual seria o segredo para um córner instruir de forma eficaz seu atleta? Como um professor pode “entrar na mente” do aluno e motivá-lo de modo a não abandonar seus sonhos? Com a palavra Rodrigo Cavaca, peso pesadíssimo campeão mundial em 2010 e técnico muitas vezes campeão mundial.

GRACIEMAG: Do treinador Bernardinho ao ídolo Michael Jordan, todo grande campeão prega que a diferença entre um craque e um gênio do esporte está no aspecto mental. O que você aprendeu sobre mentes vencedoras nesses anos todos de Jiu-Jitsu, ao ganhar o Mundial e ao instruir o campeão Marcus Buchecha?

RODRIGO CAVACA: Olha, no meu ponto de vista, o gênio nasce gênio, e talento não se ensina a ninguém. Nós podemos potencializar a parte técnica e a psicológica de um atleta, mas o coração de vencedor e a técnica rara já nasce com ele ou ela. Quando temos um atleta muito esforçado, sabemos que precisamos acrescentar a parte técnica a ele, pois seu lado psicológico já é forte, graças ao seu perfil natural. Já com o atleta talentoso, temos de trabalhar para fortalecer seu lado psicológico, pois não podemos deixá-lo acomodar devido à sua vantagem técnica constante em relação aos outros. Ao longo da minha carreira como atleta e treinador, pude avaliar diversos perfis, como por exemplo o Marcus Buchecha, desde os 14 anos de idade, quando ele começou a treinar. Ele era infanto-juvenil e já tinha muita facilidade em absorver as informações que lhe eram passadas. Na faixa-azul, com 16 anos, ele se destacava nos treinos e competições por meio do seu rápido poder de raciocínio – numa fração de segundos ele conseguia buscar diversas opções para atacar ou defender durante um treino ou uma luta, e essa sempre foi sua maior arma, a velocidade de raciocínio na transição de uma posição para outra. Lógico que com o passar do tempo, o seu repertório foi aumentando, e quanto mais posições em mente, mais opções ele tinha para usar. Com esse leque de técnicas, Buchecha foi fortalecendo cada vez mais seu lado psicológico, pois não tinha medo de arriscar nenhuma posição quando lutava. A falta de receio somada com sua velocidade, a altura e o peso avantajados formaram um atleta cada vez mais preparado para vencer tecnicamente e psicologicamente. Creio que nossa mente manda em nosso corpo, pois com ela bem, temos condições de render ao máximo em cada dia de treino, superar cada obstáculo que surge no caminho, e se isso acontece, estaremos prontos para brigar pelos maiores objetivos, sejam eles quais forem. É o segredo do Jiu-Jitsu.

Rodrigo Cavaca abraca Marcus Buchecha apos vitoria do pupilo no Mundial 2013 da IBJJF Foto Divulgacao

Rodrigo Cavaca abraca Marcus Buchecha apos vitoria do pupilo no Mundial 2013 da IBJJF Foto Divulgacao

Como um professor consegue construir uma mente forte no aluno? É possível entrar na mente do atleta?

Realmente essa sincronia nossa sempre foi um grande diferencial. Eu sempre busco trabalhar com meus alunos essa parte, mas é difícil no começo você conseguir fazer o atleta acreditar que aquilo que você está dizendo naquele momento de sufoco vai dar certo para ele. Para que isso funcione, é preciso um trabalho diário dentro da academia, conversas sobre os adversários que ele vai enfrentar, esmiuçar cada situação de perigo que possa ocorrer na luta… Eu sempre estudei todos adversários dos meus alunos e lógico que os meus também, com isso, passei a montar estratégias para todos eles. Quando você tem o conhecimento de onde vem o perigo, você consegue transmitir a informação certa na hora certa para seu atleta, sem gritar, sem nervosismo, sem nenhuma palavra que o deixe mais nervoso do que já está na luta. A sua informação precisa ser direcionada com curtas palavras chaves, pois o atleta não tem muito tempo para fazer o que você está pedindo, então quanto mais direcionada for a palavra, maior será a confiança do atleta no técnico, e teremos mais chance de dar certo. Após o mundo todo observar a confiança que meus atletas tinham e têm comigo, ficou mais fácil para trabalhar com os mais novos hoje em dia, pois eles viram que se funcionava com os faixas-pretas campeões mundiais, iria funcionar com eles também. Atualmente você pode ver alunos meus faixas-azuis sendo instruídos durante toda a luta e obtendo sucesso na maioria das vezes. Claro que o atleta também precisa ter um nível técnico e físico preparado para poder utilizar as orientações que estão sendo passadas. Resumindo, a gente só adquire a confiança e ganha a mente do atleta através desse trabalho diário de confiança entre treinador e lutador.

Como seu aspecto mental foi alimentado durante sua campanha vitoriosa no Mundial 2010? Foi seu melhor ano na carreira, certo?

Acredito que 2010 e 2013 foram meus melhores anos como atleta, já que em 2013 fechei com o Mundial pesadíssimo com o Buchecha, e o professor e o aluno vencerem juntos foi um feito inédito. Especificamente em 2010, eu estava no auge da minha forma física, vim mantendo uma sequência de mais de um ano de treinos intensos e ainda me especializei na chave de pé reta, que foi minha arma secreta para vencer todos os eventos da IBJJF naquele ano. Eu comecei a praticar a chave de pé em 2009 e no ano seguinte o golpe encaixou de vez. Como venci o Europeu, cheguei até as finais do Pan e ganhei no Brasileiro, cheguei mais confiante ainda para o Mundial daquele ano, mas tinha outro aspecto: naquela temporada, na Checkmat, eu tinha parceiros de treino tão fortes quanto qualquer outro atleta do mundo, o que me fazia pensar: “Se eu treino bem com esses caras, como que alguém pode me surpreender fora daqui?!”. Concluindo, esses fatores deixaram minha mente pronta para vencer aquele Mundial de 2010, campeonato em que tinham pelo menos oito atletas que poderiam sair campeões no peso pesadíssimo, exemplos de Roberto Cyborg, Braga Neto, Big Mac, Antonio Peinado, Marcio Pé de Pano, Marcio Corleta, Gabriel Vella; cia. Aquela medalha de ouro foi a idealização do meu maior sonho.

O que passa na mente do faixa-preta quando está no córner?

O técnico deve transmitir confiança e ao mesmo tempo passar calma para seu atleta, saber a hora de acelerar a luta e fazer o atleta diminuir a intensidade na hora certa, isso tudo usando palavras técnicas e sensatas. Não adianta o técnico gritar: “Passa a guarda! Monta!”. Isso é grito de torcida, pois é óbvio que o cara quer passar a guarda, isso ele sabe, está tentando fazer a luta inteira mas não consegue, para que o treinador continuar insistindo em falar isso? O técnico tem de transmitir em uma fração de segundos a orientação de como o atleta vai conseguir a passagem de guarda, que pegada fazer, por exemplo. Ele deve fazer com a mão direita para facilitar a passagem de guarda? Onde vai a mão? Isso passa tranquilidade e confiança para quem luta. Sempre digo que quem grita é torcida, técnico orienta com inteligência.

Seu professor, Léo Vieira, também foi um campeão mundial que virou um ótimo córner. O que aprendeu com ele?

O Léo foi um cara que me ensinou muito. Eu sempre fui um cara muito explosivo com as palavras, era mal educado, gritava, era fanático pelo meu time, cheguei a ser suspenso pela CBJJ e precisei pagar quilos de alimentos para poder voltar a lutar. E ele foi um dos grandes exemplos que tive ao meu lado na minha vida, me orientou a melhorar esse meu lado. Ele sempre foi muito calmo, educado, e transmitia segurança para todos seus alunos com esse jeito, e foi me ensinando a ser assim. Comecei a prestar mais atenção no jeito que ele agia e fui copiando, pois o que é bom, temos que copiar, assim como faço até hoje com os bons exemplos que tenho ao meu lado. Lembro um dia no Europeu em Portugal, se não me engano em 2011, eu havia ficado bravo com alguma coisa do nosso time, e queria brigar, falei palavrões. Ele então me chamou na arquibancada, somente ele e eu, e me falou: “Cavaca, você precisar melhorar esse seu jeito, você é um líder, você é exemplo para muitas pessoas”. Percebi que ele tinha total razão, com certeza foi dali em diante que comecei realmente a amadurecer, e lembro sempre desse momento quando vejo um aluno meu se exaltando. Hoje proíbo brigas, palavrões e qualquer outro ato agressivo na minha equipe, pois temos de evoluir um pouco a cada dia de nossas vidas como seres humanos.

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