Dossiê: tudo que você sempre quis saber sobre cem-quilos no Jiu-Jitsu

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Roberto Gordo ensina ataque do cem-quilos em vídeo que você confere logo abaixo. Foto: Reprodução

* Artigo publicado originalmente nas páginas da GRACIEMAG #182 . Para mais conteúdos exclusivos com o melhor do Jiu-Jitsu mundial, assine a revista mais tradicional do esporte em formato digital *

O cem-quilos costuma ser o ponto de transição entre “o fim do início” e “o início do fim” de um combate. Por se tratar de uma posição básica de estabilização, o controle lateral pode parecer simples, mas não é. Se a técnica não está em dia, o aparente domínio pode virar pó ao permitir a reposição da guarda do adversário, uma raspagem ou até uma fuga para as costas. Foi o que aprendemos com seis tarimbados faixas-pretas de Jiu-Jitsu, que nos guiaram pelos meandros técnicos da imobilização mais popular (e provavelmente a mais eficiente) do Jiu-Jitsu. Confira!

GRACIEMAG: Quais são os detalhes técnicos que não podem faltar num bom domínio do cem-quilos?

LÉO NOGUEIRA: O lutador deve estudar bastante os fundamentos básicos para obter o total controle da posição. Ou seja, antes de se aprofundar na busca por finalizações, o atleta deve estar afiado em relação à troca de base com as pernas, às esgrimas, à ida para a posição norte-sul, à distribuição do peso e ao posicionamento do quadril.

Como se deve equilibrar o tempo necessário para controlar o adversário com a necessidade de seguir o movimento ofensivo rumo à finalização sem afobação?

LÉO NOGUEIRA: O segredo é manter o ritmo ofensivo. Chegando ao cem-quilos, deve-se trabalhar o controle do adversário, manter a posição justa, enrolando os braços em busca das oportunidades de montada ou finalização.

Que papel cada uma das seguintes partes do corpo tem no bom domínio do cem-quilos: pernas, quadril, braços e mãos?

ANDRÉ GALVÃO: Saber jogar o peso no cem-quilos é fundamental. Quem joga o peso de forma errada se arrisca a perder a posição. A movimentação dos pés deve ser usada para matar o quadril e a cabeça do oponente. Antes de você chegar ao cem-quilos, é preciso saber matar o quadril do adversário para depois abraçar a cabeça e jogar o peso do seu corpo sobre o adversário. Para um bom abraço da cabeça, o seu bíceps deve estar bem encostado sobre o pescoço do oponente. Eu gosto de trabalhar com a minha mão fazendo a pegada o mais fundo possível nas costas do adversário, para que meu ombro fique sobre o rosto do oponente. Se você quer que o seu ombro fique “bem pesado”, os pés têm que estar “vivos”.

Nunca deixe o peito do pé no chão quando for jogar o peso em cima do adversário. Some a isso o trabalho dos joelhos, sempre um pouco fora do chão. Se os dois joelhos ficarem muito acima do solo, criarão espaço para a reposição de guarda. Se os joelhos ficarem no chão, eliminarão o peso sobre o adversário. Já o trabalho do quadril vai depender de como você quer estabilizar a posição. Para um peso bem aplicado no ombro, é preciso virar o seu quadril levemente para o chão, mas sem cruzar as pernas.

Imagine que você tem que dar uma aula específica sobre cem-quilos agora. Quais são os tópicos fundamentais que lhe vêm à cabeça para serem transmitidos aos alunos?

ANDRÉ GALVÃO: Costumo transmitir aos meus alunos que o cem-quilos é uma posição que não deve ser perdida. Ou seja, ao chegar nela, não cometa erros. Estabilize e controle o adversário. Ah, claro, o cem-quilos não é uma posição para descansar ou amarrar um combate. Pelo contrário. Incentivo meus alunos a buscarem a finalização, a montada ou a pegada das costas, sem deixar o oponente repor a guarda ou inverter a posição.

 

O cem-quilos parece uma posição fácil de aprender e sem muita evolução, uma vez que se estrutura em técnicas básicas. Com o seu olhar de especialista, o que o cem-quilos de um faixa-preta tem que o cem-quilos de um faixa-branca não tem?

FÁBIO LEOPOLDO: O cem-quilos é uma posição de domínio realmente fácil de aprender. O difícil é manter o controle, o que só se aprende com horas de treinos. A grande diferença entre um faixa-branca e um faixa-preta é que o faixa-preta soma a técnica de controle com um senso geral da posição de luta, que o permite saber se o adversário está realmente controlado ou não. É a tal da “experiência”. Ou seja, não depende só do professor. O aluno deve ter consistência nos treinos.

O cem-quilos não vale pontos em competições, ao contrário do joelho na barriga, por exemplo. Sendo assim, qual o principal motivo para o atleta buscar o primeiro e não o segundo após passar a guarda?

FÁBIO LEOPOLDO: Cada dia que passa acredito mais nas posições básicas que são; cem quilos, montada e pegada das costas. Na verdade, a pontuação do cem-quilos está na estabilização da passagem da guarda. O motivo de buscá-lo consiste no fato de ser o ponto de partida para uma infinidade de finalizações.

Quem está por baixo no cem-quilos espera uma brecha para repor a guarda, raspar ou até ir para as costas. Quais são os erros mais cometidos por quem aplica o cem-quilos e como não cometê-los?

REGIS LEBRE: Um dos grandes erros que vejo cometerem no cem-quilos é a falta de pressão no domínio. Isso ocorre porque o atleta mantém os joelhos no chão e não usa os dedos do pé de forma adequada. Com isso, ele perde o controle da cabeça do oponente, deixando-o livre para se defender.

Quando se chega ao cem-quilos, uma das mãos passa por baixo da nuca do adversário, enroscado a cabeça dele. Trata-se de uma pegada inquestionável. Porém, há controvérsias sobre o melhor posicionamento para a outra mão. Onde que essa, digamos, “segunda mão” deve se encaixar com maior eficiência?

REGIS LEBRE: Quando controlo a cabeça, quero em seguida a esgrima da axila. Se o adversário é esperto e defende, procuro controlar o quadril do mesmo lado que estou controlando a cabeça. Ou seja, seguro a calça do meu adversário para evitar a fuga do quadril e consequentemente a reposição.

É possível malhar partes específicas do corpo para se ter um domínio lateral com mais pressão e sem brechas? Que exercícios específicos você recomendaria?

RODRIGO MEDEIROS: Acho que a pressão do cem-quilos tem que vir dos dedos dos pés contra o chão e não dos braços, um erro que muitos cometem. Tirar o joelho do chão para manter a pressão é também um fator importante, pois joelhos no chão tiram a pressão que vem dos pés. Acho que o melhor exercício para o cem-quilos é uma posição de yoga abdominal (prancha), na qual você coloca os dois cotovelos no chão em 90 graus e tira todo o resto do corpo do solo, apoiando-se apenas nos dedos dos pés e nos cotovelos.

Da mesma forma, quais são os treinos técnicos mais recomendados para afiar o domínio do cem-quilos?

RODRIGO MEDEIROS: Gosto muito de treinos específicos para todas as posições. Existem dois treinos que uso para aperfeiçoar o cem-quilos que funcionam mesmo. O primeiro é treinar o cem-quilos sem usar as pegadas, usando apenas a pressão corporal. O segundo exercício é do grande mestre Carlson Gracie, no qual o atleta de cima tenta manter o cem-quilos, mas o atleta de baixo está sem kimono, escorregando e sem oferecer pano para o de cima fazer pegada. Depois desse tipo de treinamento, quando você chega ao cem-quilos e tem o kimono como ferramenta, tudo fica mais fácil

Quem tem o melhor domínio do cem-quilos atualmente no Jiu-Jitsu e o que ele (ou ela) pode nos ensinar sobre a posição?

RAFAEL LOVATO: Eu diria que, provavelmente, Roger Gracie tem o melhor cem-quilos. Ele é sempre capaz de montar e finalizar. Roger nos ensina que a montada deve ser sempre a nossa primeira opção a partir do cem-quilos, a não ser que o adversário abra espaço para uma finalização direta.

Muitos detalhes de posicionamento já foram mencionados nesta reportagem, principalmente no que se trata dos pés e dos joelhos. Você acrescentaria mais alguma minúcia para a plena estabilização do cem-quilos?

RAFAEL LOVATO: Acho que podemos concluir o tema com o seguinte: conecte a lateral do seu quadril com a lateral do quadril do oponente. Quem praticar bastante vai entender o que estou dizendo.

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