Jiu-Jitsu, a arte de sobreviver aos obstáculos

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Foto de Reginaldo Almeida para GRACIEMAG

* Artigo publicado originalmente nas páginas da GRACIEMAG #216. Para ler mais conteúdos como este assine a revista mais tradicional do Jiu-Jitsu, em versão digital *

Se o faixa-preta é um faixa-branca que não parou de treinar, um mestre de Jiu-Jitsu pode ser visto como um ícone de perseverança. Mas não se engane: o faixa-branca e o faixa-vermelha sempre terão ao menos uma coisa em comum: a necessidade de saltar vários abismos e obstáculos para sobreviver nos treinamentos.

Quem garante é mestre Carlos Rosado, notório aluno de Carlson Gracie. Ele, que segue vestindo o kimono diariamente, lembra com bom humor de uma época, décadas atrás, em que andou afastado do Jiu-Jitsu. “Eu via o Carlson se aproximando e me escondia, trocava de calçada em Copacabana para não ter de dar mais desculpas. Até que me organizei e voltei a treinar, e sou grato até hoje. Noventa por cento dos alunos que eu tive pararam. Depois se arrependem, mas não há como recuperar o tempo perdido”, diz mestre Rosado.

“Motivo para não ir treinar é o que mais existe, são milhões, e cada pessoa vai ter um ótimo. Tudo é razão para sumir da academia. Motivo para treinar só existe um: o benefício que o Jiu-Jitsu leva à pessoa. É esse motivo que tem de prevalecer. O valor do Jiu-Jitsu é incalculável, cabe ao praticante se ater a isso e não faltar”, lembra o faixa-vermelha.

Para perseverar é preciso determinação e paciência. Entender que o Jiu-Jitsu oferece seus dividendos diariamente, mas especialmente ano a ano, década a década. É um esporte para a vida toda. Mas como aproveitá-lo e não desistir precocemente? GRACIEMAG coletou os ensinamentos mais valiosos para o leitor que um dia cogitou largar o kimono no fundo do armário. Confira!

O MEDO
É a primeira ameaça ao praticante que sonha com uma vida melhor, mais saudável, e de preferência com a faixa-preta na cintura. O primeiro passo é entender que o medo não é um adversário a ser aniquilado, e sim um aspecto da vida com que precisamos aprender a conviver. “Medo todos nós temos”, ensina Rickson Gracie, “a diferença é que o covarde não é capaz de controlá-lo”. O medo vai acompanhá-lo até a faixa-preta e além: primeiro vem o temor de vestir o kimono pela primeira vez, depois o pavor do amasso, o medo de perder para aquele mesmo colega sempre… O medo será seu companheiro de jornada, e não uma sombra. A questão essencial: o medo manda em você ou é você que domina e manda nos seus instintos?

FALTA DE APOIO EM CASA
Hoje faixa-preta consagrado, o astro do UFC Demian Maia precisou sobreviver a diversos obstáculos até se tornar professor. Dono de academia em São Paulo, o que o deixa mais triste é quando um aluno ou aluna abandona os treinos após começar um namoro, ou um casamento. “Parar de ir treinar porque um(a) namorado(a) não gosta que a pessoa chegue tarde da academia é a razão mais boba e que mais me incomoda. Acho paradoxal a pessoa deixar de fazer algo que gosta por imposição de uma pessoa que, teoricamente, a ama, e deveria ficar feliz de ver o parceiro fazer algo saudável e prazeroso”, aconselha Demian. Convença seu amor de que a arte suave é saudável para ambos e para a relação. E leve-o para a academia também.

GRANA CURTA
O custo da mensalidade pode ser um obstáculo angustiante durante sua jornada no Jiu-Jitsu. Mas pode ser vencido por quem realmente quer treinar. Converse com seu professor, exponha seu problema antes de abandonar a academia. Dinheiro foi um problema para Demian Maia em seu começo de carreira, e olha onde ele está hoje: “Como eu sempre quis ser profissional, o mais difícil eram os custos com viagens para competir. Os bons campeonatos eram todos no Rio, e o dinheiro do ônibus e da comida já era apertado, eu não tinha condições de pagar estadia. Tive a sorte de ter um amigo de escola, o Rubens, cujo pai morava no Rio, e eu dormia na casa dele. Fiquei lá dezenas de vezes. Inclusive quando meu amigo não podia ir eu ligava e o pai sempre me recebia. Sou muito grato a eles, não sei se conseguiria chegar aonde cheguei sem essa ajuda”, recorda o astro do UFC. Conte com amigos. Gratidão e acolhimento também fazem parte da cultura do Jiu-Jitsu.

Os desafios de manter o Jiu-Jitsu ativo em tempos de crise. Foto e arte: Reginaldo Almeida para GRACIEMAG

ESTAGNAÇÃO TÉCNICA
Todo aluno chega a uma encruzilhada no Jiu-Jitsu, uma estrada cheia de poeira onde um corvo sentado na placa costuma berrar: “Como você é ruim! Desista disso!”. Ignore a ave de mau agouro metafórica. Em 99% dos casos, o que o praticante vê como estagnação é tão-somente o curso natural do Jiu-Jitsu, uma fase em que os colegas de treino mais novatos começam a melhorar, ganhar casca e endurecer o treino. O ideal nesta fase é não pensar nos resultados de treinos na academia, e refletir: “O que eu sabia executar no início, como faixa-branca? O que eu sei hoje?”. A constatação provável é que seu corpo, sua mente e sua técnica evoluíram bastante. Não desanime e siga em frente, e as mudanças vão certamente acompanhar você. Em breve, você vai estar amassando todo mundo novamente – se não desistir.

CONTUSÕES E DORES CRÔNICAS
O Jiu-Jitsu envolve o corpo todo, e por isso as contusões podem aparecer ao longo do tempo. O segredo para sobreviver a este obstáculo é seguir um conceito essencial da arte suave: “Pintou um problema? Resolva o problema imediatamente, não deixe o problema crescer”. Isso vale para uma pegada incômoda na sua gola ou para uma dorzinha que persiste. Converse com um especialista no assunto (em toda academia tem um médico), dê um tempo ao seu corpo para se recuperar, contra-ataque as dores com alimentação natural e tratamento adequado. O inimigo das contusões vale ser aniquilado na raiz. Para isso, antes que ele apareça faça uso também de musculação, aquecimento apropriado (chegue cedo no treino), alongamento, ioga, natação, pilates, o que cair melhor para você. Cálcio, magnésio e outros mineiras podem ajudá-lo a se defender das lesões e acelerar a cura. “Malhação é importante”, prega o professor Jefferson Moura. “Quem luta Jiu-Jitsu deve fortalecer toda musculatura que envolve as articulações, mas ao meu ver o principal conjunto é o dorsal, das costas, e a musculatura paravertebral”.

DESGASTE MENTAL
Após anos e anos comendo o tatame, tanto o praticante pode ser acometido pelo desgaste e pelo estresse. Não se trata de um cansaço físico, mas emocional, de fazer a mesma coisa por décadas a fio, entre as mesmas quatro paredes. É um obstáculo, na realidade, existente em qualquer esporte: “Teve uma época em que perdi a motivação de competir, passei a achar meio idiota usar todo meu tempo para jogar alguém de costas no chão”, disse-nos certa vez o judoca Flávio Canto (GRACIEMAG #92), que ao vencer esta fase viveu seus melhores dias como lutador. O segredo é alternar o treino com sessões sem kimono e com atividades prazerosas ao ar livre, em meio à natureza. De preferência, procure sempre atrair amigos novos para o convívio na academia, o que vai renovar as turmas, aumentar o clima de camaradagem no treino e quebrar a monotonia.

Foto: Luca Atalla

O EGO E AS DERROTAS
Todo praticante um dia vai sofrer um amasso desconcertante. O segredo para não sucumbir ao trauma de uma grande derrota é entender que más atuações fazem parte da vida. “No Jiu-Jitsu você não perde. Ou você ganha ou você aprende”, pregava grande mestre Carlos Gracie. A lição é encarar o sufoco como um degrau rumo ao aprendizado, como a consequência de um erro passível de corrigir. Trabalhe sua falha mais recorrente, participe de seminários, intercâmbios e aulas particulares para acelerar o progresso. “Como professor, vejo que o maior desafio dos alunos é vencer o ego. Para uma criança, perder ou ganhar nos treinos é brincadeira. O adulto perde esse sentimento”, diz Rafael “Gordinho” Correa. O irmão de Roberto Gordo ensina a lidar com o revés, nos treinos e em campeonatos. “Derrotas acontecem. O segredo talvez seja jamais culpar os outros. Sempre culpei a mim mesmo, e não aos companheiros, árbitros ou professores. Quando se puxa a culpa para si, você passa a pensar objetivamente no que precisa melhorar”. Faça uma lista dos seus objetivos no Jiu-Jitsu: perder peso? Aprender a se defender? Fazer amigos? Ganhar coragem? Levar a equipe ao triunfo? Ser o melhor lutador do mundo? Vai então perceber que ganhar ou perder no treino é microscópico perto da realização de um sonho. Volte no dia seguinte e aceite que a sua perícia nos tatames se desenvolve progressivamente, numa perspectiva de longo prazo. “No Jiu-Jitsu você tem de ser o prego por muito tempo, antes de querer ser o martelo”, ensina Renzo Gracie.

PREGUIÇA
Matar o treino por pura preguiça talvez seja o pecado capital do praticante de Jiu-Jitsu. É preciso ter em mente que treino adiado é treino perdido para sempre, e que as faltas sucessivas minam seu progresso. Para o campeão Robert Drysdale, o segredo é não pensar muito na hora de botar o kimono na mochila: “Jiu-Jitsu para mim é algo divertido, mas ao mesmo tempo encaro quase como obrigação. Nunca me dou a opção de ir ou não treinar. Simplesmente vou”.

Com o tempo e os anos passando, a preguiça pode se tornar um monstro, como atesta o professor Alexandre “Gigi” Paiva: “Quando a gente vai ficando velho, fica com mais preguiça de fazer as coisas. Fazer uma atividade com prazer é o melhor jeito de ficar bem fisicamente”. Mentalize o prazer que o Jiu-Jitsu dá, os ganhos e benefícios para o seu corpo e espante a moleza. Alterne os treinos com uma excelente preparação física, de preferência ao ar livre para espairecer.

DESESTÍMULOS NA ACADEMIA
Alguns alunos, em especial iniciantes, podem se sentir desestimulados de acordo com a atenção (ou não) que os instrutores aparentemente lhe dão. O curioso é que isso pode ser causado por percepções extremas. Uns sentem que os instrutores “não estão nem aí” para ele, e outros que o professor “pega no seu pé”. Nesses casos, o aluno passa a se ver como um fardo para os mestres e colegas e pode acabar por abandonar a academia. Duas dicas: se você acha que o professor não está prestando atenção a você, pode acreditar que muito provavelmente ele está, bem mais do que você pensa. Os elogios virão com o tempo, se você se esforçar. Se o professor estiver pegando no seu pé, agradeça, pois ele pode estar apostando alto em você. O importante é relaxar e seguir treinando, procurando sempre manter o bom clima com os parceiros de treino. Para isso, procure não comentar treinos. “Eu jamais comento resultado de treino nem com meu irmão ou meu pai”, ensina Flávio Canto.

Até o astro Anderson Silva se afastou dos treinos por motivos financeiros. A ajuda dos amigos, como os irmãos Nogueira, foi essencial para construir o campeão. Foto: Gustavo Aragão

MUDANÇA E DISTÂNCIA GEOGRÁFICA
É difícil crer que você vive num local que ainda não tenha um dojô por perto, mas pode acontecer. O remédio para isso é logo arrastar um colega de trabalho ou de estudo para o mundo do Jiu-Jitsu, assim vocês podem dirigir/viajar juntos para a academia mais próxima. Nos dias em que isso não for possível, vocês podem arrumar um espaço para treinar um com o outro na sua localidade. Pode ocorrer também de você treinar há anos numa academia e ser obrigado a se mudar, e não se adaptar às novas escolas do lugar. Cabe a você ajustar o foco: você não será obrigado a mudar de mercado, empresa e banco? Por que não aceitar a importância do Jiu-Jitsu em sua vida e se ajustar ao novo lugar? Lembre que os treinos e sua saúde estão em primeiro lugar.

PRESSA & PRESSÃO
Se o praticante exagerar e puser a faixa-preta como único objetivo ao treinar, e ficar pensando apenas na faixa-preta, o sonho pode começar a ganhar um peso difícil de carregar. Em vez de se concentrar nas técnicas e na evolução pessoal, o aluno começa a pensar em mudar de academia, em achar um mestre mais generoso com graduações. É quando a pressa e a pressão tomam o lugar do prazer. Lembre que você procurou uma academia de Jiu-Jitsu para adquirir conhecimento, não uma faixa para satisfazer o ego. A arte suave é para o longo prazo, como ensinou Saulo Ribeiro: “Não importa se você a receber em quatro ou 15 anos. De qualquer maneira, você vai passar o resto da sua vida com a faixa-preta amarrada à sua cintura. Construir a faixa-preta é o que realmente importa”.

SÍNDROME DO NINHO REVIRADO
Algumas aves, quando percebem que seu ninho foi remexido e os ovos tocados enquanto elas buscavam alimento, jamais retornam e vão fazer morada em outro canto. Por contusão, mudança ou filhos, muitos lutadores se veem obrigados a passar uns meses ou mesmo anos longe da academia. É quando pode ocorrer a síndrome do ninho revirado: os treinos e o clima não são mais como ele deixou. Os sparrings evoluíram e hoje o esmagam. O professor talvez não o mime tanto. A academia ficou mais cheia, ou mais vazia. Se o praticante decidir ficar nostálgico demais, ou vaidoso demais, corre o risco de parar de treinar. O macete é reconquistar seu espaço aos poucos, agradecer pelo sufoco que os velhos amigos agora lhe impõem e seguir sua jornada rumo à almejada faixa-preta. Caso o desconforto seja insuportável, tudo bem: Jiu-Jitsu em primeiro lugar. Arrume outro ninho similar e continue treinando.

DESORGANIZAÇÃO E FALTA DE TEMPO
O fato de você ser desorganizado em vários aspectos da sua vida não é razão para deixar o Jiu-Jitsu. Pelo contrário: sua assiduidade, pontualidade e respeito pelo horário dos outros vão aumentar com os anos de treinos. Seu dia anda atribulado demais para o Jiu-Jitsu? Veja o que diz o faixa-preta Bruno Fernandes: “O dia tem 24 horas, há tempo de sobra para dar um treino. De mais a mais, se você não consegue reservar uma hora do seu dia para fazer aquilo que ama, há alguma coisa muito errada com sua rotina e sua vida”, afirma o professor do astro canadense GSP.

Foto: Gustavo Aragão

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