A arte e a adrenalina de retornar ao MMA, por Jorge Britto

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Jorge Britto em ação no Prospect FC, em março deste ano. Foto: Reprodução

Após oito anos longe dos cages, nosso GMI Jorge Britto, de 40 anos, resolveu que era hora de mais um desafio extremo: voltar a treinar e realizar um combate de MMA.

O professor carioca radicado no Canadá, líder da Jiu-Jitsu For Life em Toronto, fez então uma luta de despedida, no evento Prospect Fighting Championship, dia 8 de março. O adversário foi o mais jovem Lloyd Galindo.

Após sofrer um corte na testa, no segundo assalto, Jorge viu a luta ser interrompida pelos médicos. A despedida dos cages não teve o sabor doce da vitória, mas permitiu ao faixa-preta tirar lições importantes. Conversamos com a fera, formada na Gracie Tijuca, sobre os ensinamentos colhidos. Confira!

GRACIEMAG: Após oito anos parado, você fez uma luta de despedida do MMA. O que aprendeu?

JORGE BRITTO: Minha última luta havia sido em 2012 – eu vinha bem, mas do nada senti uma dor forte, esquisita – quando olhei, meu antebraço estava partido, o osso quase pulando. Ainda terminei o round por cima, no cem-quilos, mas não voltei para o terceiro round. Tive de colocar uma placa e seis pinos, e dei um tempo para me recuperar. A esposa estava grávida, e me concentrei na academia, na parte administrativa e nos alunos. O MMA então tinha sido posto de lado, até que nas últimas férias, no Rio, bateu a saudade. Enquanto corria na praia, me lembrei dos treinos que eu fazia naquela mesma areia, nas vésperas dos combates, e percebi que aquela motivação estava fazendo falta, que era bacana para turbinar minha forma. Quando voltei para casa, o destino aprontou: recebi um email de um evento em Toronto buscando lutadores. Estou com 40 anos, e pensei, era a hora de me pôr à prova, de não aceitar o conforto e pedir uma saideira das luvinhas.

O que passou na sua cabeça durante o confronto?

Bem, a luta no fim não saiu como queríamos. A gente sempre trabalha para vencer, mas acho que senti a diferença de peso. Nunca tinha lutado na divisão até 77kg, minha categoria era a dos 70kg. O cara era maior e tudo mais, mas minha crença no Jiu-Jitsu era mais forte. Na hora ali, infelizmente o oponente trabalhou melhor a distância e sofri um corte na testa no segundo round. O ferimento foi fundo, rendeu 12 pontos. Tive algumas chances, mas ele conseguiu evitar e vencer. Mas não fiquei triste. O Jiu-Jitsu me ensinou a estar preparado para vencer e para perder também – o grande mérito do Jiu-Jitsu é afastar o medo de tentar as coisas. Perder, vencer… O importante é voltar bem para depurar as lições. Obviamente eu queria muito vencer, pois treinei muito. Cheguei a romper o bíceps no camp, e nem assim cancelei o combate. O nosso orgulho fica sempre ferido, mas é preciso superar. Lembro que durante a luta eu o pus para baixo e faltou capitalizar como eu gostaria, mas vida que segue. O que deixo de legado aos meus alunos e ao meu filho é a dedicação, buscar o melhor, superar as dores e problemas. Como o mundo tem feito agora, nesta fase de doença. Pior é viver com o arrependimento de não ter feito.

Você fez 23 lutas de MMA na carreira. O que aprendeu sobre si mesmo e sobre defesa pessoal?

Comecei no Jiu-Jitsu na década de 1990, e muito se falava do Ultimate, dos Gracie e tal. Pegávamos as fitas VHS com lutas do Rickson, quase um deus pra gente na época. Acompanhamos muito dos primórdios do vale-tudo. Era nossa formação. Se você fosse competir no Jiu-Jitsu, a evolução natural era lutar vale-tudo. Eu era faixa-roxa e treinava com Fabrício Morango e Cristiano Marcello, então faixas-marrons, e eles começaram a treinar para um vale-tudo no Mato Grosso, e ali comecei a me experimentar, nos treinos. Comecei a me testar em torneios sem kimono, contra o pessoal da luta-livre, e em 2004 decidi estrear de vez. Apareceu uma oportunidade no Storm Samurai, do Rafael Cordeiro, um evento que dava acesso ao Meca. Estreei com vitória, mas a intenção era a mesma de sempre, a mesma deste ano: a de me desafiar. Pois foi lutando vale-tudo que eu entendi a eficiência do Jiu-Jitsu de verdade, seus conceitos e minúcias.

Como sua cabeça de lutador mudou com esses combates?

Posso dizer que essas 23 lutas de MMA foram a minha formação não apenas como lutador e professor, mas como ser humano. Não fosse a luta, e todo o processo de treino que vem junto – o perigo, as lesões, a superação diária – acho que não seria quem eu sou hoje. Pude experimentar a teoria e a realidade de tudo, e isso ajudou a me conhecer profundamente. Não há melhor professor que a emoção da vitória e da derrota.

Algum resultado ruim te marcou como lição?

Há exatos 15 anos, em março de 2005, sofri um nocaute técnico do casca-grossa Marcelo Brito, no Storm Samurai, que me levou a mudar totalmente de vida – pessoal e espiritualmente. Depois daquela luta eu praticamente comecei do zero. Remodelei muita coisa na minha vida e na minha carreira. O meu compromisso depois daquela derrota, inclusive, foi contra o hoje consagrado Rafael dos Anjos. Atualmente ele me mataria numa luta de MMA (risos), mas na época, que eu tinha mais experiência, fizemos luta duríssima e acabei vencendo na decisão dividida. Poderia ter ido para ele também, foi muito parelho. Mas foi a maior vitória da minha vida, não por ter sido sobre o Rafael, mas o fato de eu ter dado a volta por cima. Vencer ali foi importante para mim.

Você ainda recomendaria ao jovem faixa-preta ou marrom testar suas habilidades numa luta de MMA?

Olha, o MMA me fez conhecer muitas pessoas, tive a oportunidade de treinar na Black House, vi de perto caras como Anderson Silva, Vitor Belfort e Lyoto Machida, acompanhei as técnicas, a ética de trabalho e a força mental desses campeões. Aprendi muito, e aproveitei as chances que eu tive de aprender. Eu vejo com bons olhos os jovens campeões que se testarem em duelos, mesmo que amadores, de MMA. Sou da linhagem do Jiu-Jitsu que prega sua eficiência em situações reais, e utilizo o esporte como uma ferramenta de transformação (pessoal e social) e também de defesa. Os treinos servem para testar nosso controle emocional e lidar com situações de extremo nervosismo. E, no fundo, não existe melhor forma de testar e ampliar isso do que numa situação real de combate.

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