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Ninguém escreveu sobre valentia e espírito do Jiu-Jitsu como Fernando Sabino

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O escritor Fernando Sabino. Foto: Divulgação

O escritor Fernando Sabino. Foto: Divulgação

Falecido há 15 anos, o célebre cronista mineiro Fernando Sabino (1923–2004) foi um exímio nadador durante sua juventude, e entendeu na carne conceitos impenetráveis como a superação, o valor do esforço, a motivação diária e o sabor da vitória – e da derrota.

Após largar as piscinas e se mudar para o Rio, Sabino consagrou-se como um afiado observador da natureza humana, e assim ajudou a mudar a crônica brasileira e a literatura nacional para sempre. E foi assim, numa singela crônica sobre um lanche em Copacabana, que o escritor resumiu, em pouquíssimas linhas (como bom craque), o espírito do carioca valente – sempre pronto a defender o oprimido e o fraco, combater a covardia e não ter medo algum de fazer o certo, custe o que custar.

Não se sabe se o personagem da crônica “Valentia” era um membro da família Gracie tomando seu suco, ou um aluno deles, ou se era apenas criação do autor mineiro. Mas o texto é, de fato, uma pequena obra-prima, lançada em livro pela primeira vez em 1976, na obra “Deixa o Alfredo falar!”, e depois republicada na antologia “Os melhores contos”, de 1986, e que republicamos a seguir pedindo licença à editora Record e ao herdeiro Pedro Sabino.

Leia, divirta-se e reflita: você conhece alguma crônica que resuma melhor o conceito de valentia? Deixe seu comentário.

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“Valentia”

 

ELE entrou num botequim da Rua Barata Ribeiro e pediu à moça atrás do balcão um misto quente:

— E um suco de laranja — arrematou.

— Só temos laranjada — a mulatinha, mirrada e assustadiça, olhou para o vaso de plástico embaçado onde o líquido amarelo borbulhava gelado: — O senhor quer suco mesmo?

— Se for possível.

Ela se dispôs a espremer umas laranjas ali à mão. Em pouco colocava à sua frente o suco de laranja e o sanduíche.

— Muito obrigado. Quanto é?

As despesas ali eram pagas antecipadamente na caixa, e os pedidos feitos mediante a ficha — era o que ele podia observar agora, enquanto comia, reparando o procedimento dos outros fregueses. A mocinha passou a atender um e outro. Ele acabou de comer, sorveu um último gole do suco de laranja:

— Quanto é? — repetiu, limpando a boca no guardanapo de papel.

Ela se deteve diante dele, acabou se voltando para a caixa:

— Seu Manuel, quanto é um suco de laranja?

O homem fez que não ouviu, ela teve de repetir a pergunta. De súbito ele se desdobrou por detrás da caixa, e era enorme assim de pé, o peito estufado dentro da camisa encardida, a gravata de laço frouxo no colarinho desabotoado, o rosto crispado numa careta de raiva que a barba por fazer ainda mais acentuava:

— Quem lhe deu ordem de fazer suco de laranja?

Sua voz carregada de sotaque era tão poderosa e autoritária que se fez no botequim um respeitoso silêncio, todos os olhares se voltaram.

— Esse moço aqui… — balbuciou ela.

Suas palavras mal foram ouvidas, logo esmagadas pelas do patrão:

— Quem manda aqui sou eu. Ele não podia mandar você fazer coisa nenhuma. Pois agora quem vai pagar é você!

A mocinha, aterrada, olhou para o freguês. O freguês não olhou para ninguém: limitou-se a beber o que havia ainda de suco de laranja no fundo do copo e limpar a boca, desta vez com as costas da mão. Ninguém dizia nada, e todos esperavam. Ele se voltou enfim para o homem lá da caixa e perguntou com delicadeza:

— O que foi que o senhor disse?

O homem se adiantou um passo em sua direção:

— Não se meta nisso. Estou falando com aquela parva.

Pequenino, ele parecia um menino ao aproximar-se lentamente da figura agigantada do outro. O silêncio no botequim agora era pesado e cheio de expectativa. E, estupefatos, todos viram quando o homenzarrão se inclinou, carrancudo, para ouvir melhor o que o pequenino lhe dizia quase num sussurro:

— Eu vou te matar, seu cachorro ordinário. Aqui. E agora. Eu vou te matar, entendeu? Diga se entendeu.

— Entendi sim senhor — gaguejou o homem, de súbito apavorado, embora o outro não fizesse o menor gesto ameaçador nem sugerisse possuir nenhuma arma.

— Então diga quanto lhe devo.

O homem balbuciou uma quantia qualquer, indo refugiar-se atrás da caixa. Depois de pagar e guardar calmamente o troco, ele se voltou para a mocinha lá no balcão, que continuava imóvel como uma estátua:

— Olha, minha filha: eu moro aqui perto e vou passar aqui todos os dias. Se esse cafajeste lhe fizer alguma coisa, basta me falar que eu me entendo com ele, está bem?

A mocinha, estarrecida, concordou com a cabeça, o próprio cafajeste quase concordou também com a cabeça. O freguês deu-lhe ainda um último olhar e depois saiu, palitando os dentes com um pau de fósforo.

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