Uma estátua para mestre Carlson Gracie em Copacabana

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Enfim em bronze, o mestre de ouro Carlson Gracie. Foto: Carlos Arthur Jr.

A esquina escolhida foi certeira. Primeiro, por ser próxima de sua clássica academia em Copacabana; segundo, por ficar no cruzamento de uma batalha vencida pelo Brasil (Tonelero) com um professor (Figueiredo Magalhães). Dificilmente haveria lugar mais apropriado para Carlson Gracie passar a eternidade.

“Primeiro tentamos que ele virasse nome de rua, já que a academia da Figueiredo fica no cruzamento de uma rua pequena, mas uma lei municipal impediu a troca”, relembrou o faixa-preta Mauricio “Saddam” Carneiro, um dos maiores entusiastas da homenagem concluída nesta segunda, 12 de agosto. “A prefeitura então fez uma contraproposta de dar o nome do mestre a uma nova rua no Recreio, mas não tinha nada a ver, ele jamais pisou lá. Desse modo ficou legal. Demorou mas aconteceu. Como Carlson nos ensinou, a única luta que não vale a pena é aquela de que a gente desiste”, concluiu o DJ Saddam.

Até meio-dia, a estátua estava coberta com um pano escuro. Do alto dos prédios, curiosos se aboletavam, fotografando da janela. Ao redor da escultura feita por Edgar Duvivier, centenas de amigos, fãs e familiares – uma dúzia de Gracies estava por lá. O primeiro irmão de Carlson, o faixa-vermelha Robson Gracie, disse em discurso: “Ao olhar em volta, só vejo heróis. Os heróis formados por Carlson”. O senador e prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto não resistiu e chorou. O filho, Carlson Gracie Jr, se desdobrou para receber todo mundo enquanto enxugava a testa, sob o calorão de 31 graus, o sol a pino. Não estava faltando ninguém. Ou estava?

“O Carlson, se estivesse aqui, tinha ido embora no primeiro discurso”, ria um aluno. “Detestava fazer social, ficar jogando confete não era mesmo com ele”, concordava outro. Se vivo estivesse, Carlson estaria celebrando hoje 87 anos.

Em 1956, dois anos antes de o Brasil se render ao rei Pelé, era Carlson o grande herói nacional, depois de vencer seu mais temido ex-parceiro de treinos, o baiano Valdemar Santana. Porém, para os habitantes do bairro, Carlson era mais que um herói: era um de seus filhos mais ilustres e divertidos.

Uma dele, escutada na tarde de hoje: Carlson, garante um velho amigo, não era bobo no vôlei de praia, e adorava jogar e apostar durante as partidas – apostava em duplas, quadras e até um contra quatro, o poderoso. Certo dia, instigado pelos companheiros, topou o desafio: Jiu-Jitsu, ele contra o resto da rede.

Era ali por 1969, Carlson perto de se aposentar como atleta. Regras do desafio: ninguém podia sair dos limites da quadra, e Carlson teria de correr atrás de cada um, derrubar e finalizar em um tempo dado, minutos ou segundos. Quando já tinha quedado e esticado o braço de quase todos, viu um dos malucos se atirando para cima dele, num contra-ataque kamikaze. Segundo testemunhas, o maluco se agarrou ao professor, todos às gargalhadas, até que o tempo acabou. O nome do “amarrão” autor da façanha: Carlos Arthur Nuzman. O campeão dos Gracie encontrara alguém mais competitivo que ele.

Para o juiz, professor e escritor Luís Carlos Valois, que hoje mora na Alemanha, o poder de Carlson permanecia irresistível mesmo longe da academia. “Um dia, anos depois de parar de treinar, encontrei o Carlson no Rio e despejei todos os meus problemas, tudo que estava dando errado na minha vida, na minha carreira”, contou Valois. “Carlson ouviu e respondeu: ‘Valois, ninguém vai te derrubar!’. Saí de lá imenso, pronto para tudo. Carlson sabia encontrar um gigante dentro de qualquer baixinho.”

Duas horas depois de dona Marly, viúva do mestre falecido em 2006, baixar o pano e revelar a estátua, ninguém queria ir embora. Serginho Mallandro fazia todos rir, mesmo falando sério. Fernando Pinduka e Hugo Duarte trocavam ideias e anunciavam ao GRACIEMAG.com um seminário Jiu-Jitsu + luta livre. Um funcionário da prefeitura, por fim, explicava a um repórter curioso que, no lugar de Carlson, havia antes ali uma coluninha em que volta e meia alguém tropeçava e caía. A partir de hoje, lá estará o mestre que sempre ajudava os outros a levantar.

Carlson Gracie está em bom lugar.

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