Crônica do faixa-branca: você recorda sua primeira semana de treinos no Jiu-Jitsu?

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[ Por: Eduardo F., vulgo Dudu * ]

I

Nunca me imaginei treinando Jiu-Jitsu porque não tenho tanta força assim. Nem a força de vontade em mim é algo que se sobressaia. Sou meio Bartleby, personagem que tinha como máxima um preguiçoso “É melhor não”. No entanto, lá fui eu. Primeira aula, só com a parte de cima do kimono, bermuda de basquete e uma faixa-amarela infantil no melhor estilo Zeca Pagodinho, em que poderia estar bordada uma palavra: “Prego”.

II

De cara, alongamento. Algo com o qual não tenho a menor intimidade. Primeira puxada para alongar o músculo posterior de coxa e pã! –aquela fisgada. Fosse na pelada, iria rodar os indicadores acima da cabeça indicando a necessidade de substituição. Mas não posso sair do tatame ainda no alongamento, é patético, pensei. Engoli a dor e tive uma brilhante ideia: no primeiro golpe, finjo que caí de mau jeito. Detalhe que só me atentei mais tarde: Jiu-Jitsu é luta de solo, não há queda na primeira aula. Bola pra frente!

III

Sem delongas e sem surpresas, levei uma escovada de todo mundo com quem treinei, incluindo um adolescente que tinha idade para ser meu filho, o abusado. Ao fim do treino, massacrado, esgotado, raspado, frustrado e suado como um pagador de promessas que subiu as escadarias da Penha, ouço o professor perguntar se eu gostei da aula. A resposta me causa estranheza até agora: Sim! Inclusive, voltei no dia seguinte.

IV

Aula de técnicas de defesa pessoal, bem bacana. O mestre ensina como se livrar daquele folgado que vem mexer contigo por trás. No entanto, os exemplos que ele usou não me pareceram muito próximos da minha realidade. Era sempre um sujeito querendo roubar a namorada de outro na balada, ambiente que não frequento mais. Tratei logo de adaptar o conteúdo. Um carteiro querendo me entregar de qualquer maneira mais um boleto a vencer, uma senhora imprudente quase alvejando meu olho com um guarda-chuva na rua, meu chefe correndo atrás de mim para que eu fique até mais tarde. Funcionou bem melhor assim.

V

Estou na posição de cem-quilos (quase literal, já que estou com 85kg, dez a mais do que seria saudável), em cima de uma menina faixa-roxa com um penteado bonitinho e um kimono com detalhes em animal print. Horas tantas, ela dá a dica para que eu me livre da guarda dela: “Vai, esmaga minha cabeça no tatame.” Bem, eu só pensava no penteado dela, mas obedeci. “Esmaga mesmo!”, ela ordenou. Dane-se o penteado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

VI

Todos que me confrontavam eram alertados de que aquela era a minha quarta aula, que pegassem leve com o faixa-branca aqui. Minha vontade era interromper e dizer: “Opa, mas por outro lado eu jogo basquete bem e sei andar de skate!”. Mas me calo, respiro e o treino recomeça.

VII

Jiu-Jitsu é a arte suave, me disse o mestre antes de uma das aulas. Minutos depois, com um incauto arrochando o estrangulamento em mim, segurando a lapela do meu kimono com uma força absurda, questionei essa suavidade. Porém, de fato, todos foram bacanas e receptivos. Me senti acolhido, e principalmente, respeitado. Talvez fosse essa a suavidade de que o mestre estava falando. Na próxima eu conto como foram as semanas seguintes.

 

 

* Vulgo Dudu, de 40 anos, é um magro barrigudo, além de jornalista e escritor. Enquanto sonha com a faixa-azul, ele escreve mensalmente nas páginas de GRACIEMAG. Assine aqui para ler as outras colunas, seja em formato digital ou revista tradicional.

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