Treino duro, luta fácil: as lições de Jiu-Jitsu do campeão do UFC Rafael dos Anjos

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Rafael dos Anjos agradece aos céus ao ganhar o sofrido cinturão, no UFC 185, em março de 2015. Foto: UFC/Divulgação

Rafael dos Anjos agradece aos céus ao ganhar o cinturão, no UFC 185, em março de 2015. Foto: UFC/Divulgação

Rafael dos Anjos, campeão peso leve do UFC, é um mestre na arte de não desistir. Para o faixa-preta, o trabalho duro sempre pode vencer o talento. Em entrevista à nossa equipe, publicada na GRACIEMAG #218, Dos Anjos confessa que não nasceu habilidoso, mas que seu treino o endureceu a ponto de anular qualquer um.

O niteroiense aproveitou o papo e ensinou ainda como costuma usar a pressão na hora da luta.

Releia os melhores trechos da entrevista, aprenda a trabalhar duro e a ser vitorioso, com as lições do campeão do Ultimate.

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GRACIEMAG: Que lição aprendida em anos de Jiu-Jitsu foi a mais importante em sua conquista do dia 14 de março, quando dominou Anthony Pettis no Texas, pelo UFC 185?

RAFAEL DOS ANJOS: Sempre tive uma filosofia no Jiu-Jitsu, que é a de lidar com oponentes muito habilidosos impondo muita pressão. Se você deixar um adversário talentoso e imprevisível solto, ele vai embora e você não consegue acompanhá-lo. Eu não sou habilidoso, confesso. O Pettis é capaz de dar chute rodado, voadores. Eu não consigo, não dou cambalhota, não dou chute giratório, não chuto me apoiando na grade do Octagon como ele. Mas se você aperta um rival habilidoso, normalmente ele não se acha. Minha arma é a experiência, a pegada forte, e foi o que usei. Eu reparava que, quando o Pettis chutava, normalmente o oponente recuava, e isso o fazia crescer ao longo do combate. Minha estratégia era não dar tempo nem espaço para ele: toda vez que eu tomava uma pancada, em vez de retroceder, eu ia para cima. Por mais que o golpe fosse duro e dolorido, eu andava para frente, nunca para trás.

Foi a tática da pressão o tempo todo, então. Puro Jiu-Jitsu…

Tática é assim. Como eu declarei, todo mundo tem uma estratégia perfeita antes de uma luta. Mas o plano tático só dura até você tomar o primeiro sufoco, o primeiro soco na cara. Eu estava bem confiante desde o primeiro direto que acertei e ele bambeou, mas evito ter pensamentos confiantes muito prematuros. Ainda mais contra ele, que é arisco e com um coração grande. Muitos teriam desistido antes do fim do combate. Só relaxei quando peguei as costas no quinto e último round, e fechei o triângulo na barriga dele. Restavam apenas 20 segundos e vi que o cinturão era meu, e que o “Showtime” Pettis estava vencido. Falei no ouvido dele: “The show is over”. Aquele dia não era dia de “Showtime”, era “Dos Anjos time”.

Ser campeão do UFC significa enfim um conforto financeiro?

Rapaz, quando eu chego em casa, parece aquele ninho de passarinhos com bico aberto, pedindo. O dinheirinho extra é bem-vindo. Nos últimos três anos eu venho lutando muito, mas sempre reinvestindo tudo o que ganho em mais treino, em mais estrutura para a minha carreira. A vida na Califórnia não é barata. Mas chegou a hora de começar a colher os lucros disso.

Você é um lutador temente a Deus. Como funcionam suas orações antes de cada batalha?

Sempre peço antes da luta para que eu não me machuque, mas que meu adversário também não se machuque. Acredito que há diversos meios de você ganhar uma luta sem precisar mandar o cara para o hospital. Você pode finalizar, ele pode dar os três tapinhas e ir para a casa dele ficar com a família. Todo mundo tem família, contas para pagar, dificuldades em casa. Eu luto duro, para ganhar, mas minha intenção não é ferir ninguém.

Em 24 vitórias e sete derrotas, foi a primeira vez que você lutou cinco assaltos. Qual foi o segredo para um gás tão bom durante a luta inteira?

Tudo é a experiência e o tempo de treinos. Treinei muito para chegar até aqui. Estou no UFC há mais de seis anos, foram 17 lutas até ter a chance de disputar o cinturão. Estava com um desvio de septo que está me atrapalhando muito, e por isso acho que o gás vai melhorar ainda mais. Meu médico na Califórnia disse que esses 30 minutos da intervenção cirúrgica no nariz vão mudar minha vida para sempre.

Você sentiu o joelho a um mês de disputar o cinturão. Como sua mente funcionou para cair dentro apesar do imprevisto? Tomou alguma injeção?

Foi a primeira vez que senti o joelho na carreira, ouvi um barulho ao treinar e depois um exame apontou um rompimento parcial do ligamento colateral. Não teve remédio, não teve nada, foi muita vontade e orações mesmo. No dia em que senti, a primeira coisa que fiz foi orar, e perguntar ao Senhor o que eu devia fazer, se cancelar ou seguir com a luta marcada. Abri a bíblia em Ezequiel 37, versículo 6, e Deus falou comigo: “E porei nervos sobre vós e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele…”. Ao ler sobre tendões e nervos, confiei. E aconteceu o que vocês viram. Mas não foi fácil. Na primeira semana, só consegui treinar boxe, plantado no mesmo lugar sem mexer as pernas. Na segunda, fiz só Jiu-Jitsu muito leve, nada de wrestling. No dia D, estava confiante, e nenhuma posição que fiz durante a luta com Pettis me incomodou.

Como os campeonatos de Jiu-Jitsu moldaram você e seu estilo no MMA?

Cara, eu quando jovem lutei muitos campeonatos de Jiu-Jitsu, na verdade eu só fazia isso. Na faixa-preta competi menos, pois já estava buscando ganhar uma grana com o MMA. Um título que guardo com carinho foi na faixa-roxa, quando fui campeão mundial no peso leve, após seis lutas.

Você se manteve leal ao seu professor no Jiu-Jitsu, Roberto Gordo, sem deixar de aprender com novos treinadores, como o Rafael Cordeiro, que hoje afia suas mãos. O segredo é a mente aberta?

Exato, acho que esse lance de só treinar numa escola não tem mais nada a ver. Eu sou fiel ao meu mestre, Gordo, e também ao mestre Rafael Cordeiro. No nível que o esporte atingiu hoje, o atleta tem de se lançar em direção ao novo e tentar aprender mais. O aprendizado é infinito.

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