A teoria da “fruta madura” e o que pode dar errado no Rio

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Anderson bota o cinturão na linha, literalmente, diante de Yushin Okami e Dana White (atrás). Foto: Wander Roberto/UFC.

Nunca a festa do UFC teve um cenário tão bonito. O Rio de Janeiro não é para principiantes, mas os convidados estrangeiros estão se virando bem. Visita ao Cristo Redentor, tigelas de açaí, molecada de luvinhas na favela e a beleza das praias e montanhas fizeram astros, treinadores, jornalistas estrangeiros e membros da organização do Ultimate se entreterem enquanto as brigas não começam.

Um ou outro escorregão, como o do colega Ben Fowlkes, que se perdeu na tradução e informou seus leitores que um canto da torcida do Flamengo, “Eu sempre te amarei” (ou “I will always love you”, pode confirmar com José Aldo, Ben) queria dizer algo como “Vocês nunca sairão da Maré (a favela)”. Ou de outro que perguntou a Dana White se ele teme um quebra-quebra pelas ruas caso Anderson Silva e Rodrigo Minotauro percam amanhã, nas duas lutas principais e mais aguardadas pelos fãs cariocas.

Não, não há chance de quebra-quebra por aqui em caso de derrotas. Talvez o povão pudesse chamar um pessoal de Vancouver ou Chicago, mas relaxem, nem assim. O risco, porém, das derrotas de Anderson e Rodrigo existe, e o choque poderia ser grande.

“Uma derrota dos dois poderia prejudicar um esporte que busca se firmar no país”, prevê Eduardo Alonso, manager de Mauricio Shogun, espantando a ideia de um “Maracanazo” de 1950 para os jovens fãs do MMA. “Não acredito. Claro que o japonês pode surpreender, mas acho que vai depender principalmente do primeiro assalto, se ele não impuser o jogo dele, o Anderson domina”.

Para um outro brasileiro, ligado à outra equipe, há porém o temor pelo pior. “Estou torcendo pelo Anderson, mas temo que a fruta está madura demais, alguma hora cai. Acho que vai ser em breve”.

“Uma derrota marcante seria prejudicial a um esporte que busca se firmar no país” Eduardo Alonso, manager

Curioso que Anderson Silva tenha se referido a sua luta com “Okamikaze”, no feliz apelido dado pelo jornal “O Globo”, como uma final de Copa do Mundo de futebol no Maracanã, “contra a Argentina”. Mesmo o confiante campeão invicto do UFC, que não perde desde 2006, sagazmente evitou citar o Uruguai, este sim o rival responsável pelo grande trauma esportivo do Rio, e do Brasil.

Aqui, vale relembrar o que foi a derrota conhecida como “Maracanazo”. Foi no dia 16 de julho de 1950, com o Maracanã, maior estádio do mundo, cheirando a novo, incompleto até, e abarrotado com o maior público de sua existência. Como escreveu o jornalista Lúcio de Castro, da ESPN, um estudioso do assunto, “Nunca houve história maior e jamais existirá em nosso futebol. Uma das maiores da história da nação, transcendendo as quatro linhas. Brasil x Uruguai, final da Copa de 1950 é incomparável com qualquer outra coisa em nosso futebol”.

O Brasil jogava pelo empate, goleara todos os oponentes sem dó até a final, mas aos 34 minutos do segundo tempo, Alcides Gigghia calou o estádio. Todos os ingredientes de uma tragédia grega estavam lá, como lembra o jornalista. “A maior plateia da história de uma partida de futebol (que também jamais se repetirá), uma cidade e um país em festa desde a véspera, o título ganho antes da bola rolar, o oportunismo de políticos e cartolas…”

Descontando o tamanho da tristeza de uma nação que já amava o futebol, um final infeliz para o UFC Rio poderia gerar algo parecido? Para a imprensa japonesa no Rio, a chance é remota.

“Yushin Okami é guerreiro, mas ainda não é nem um ídolo no próprio Japão, onde o MMA declinou depois do Pride”, disse-me um observador da emissora de TV paga japonesa WOWOW. “Os japoneses esperam apenas que ele faça o seu melhor e honre a oportunidade que teve, com uma luta bonita. Mas todos sabemos que Anderson é o melhor de todos. Se Okami vencer, será ótimo para ele, e ainda mais para o UFC Japão que se aproxima”.

“A única luz que vejo para o japonês é derrubar e amarrar desde o primeiro assalto” Rafael Cordeiro, treinador

Para a equipe de Anderson, Okami deve ser respeitado, mas sua consagração vai ter de esperar. E uma das razões principais é que, diferentemente do Brasil de 1950, não houve oba-oba nos treinos. “O Anderson está pronto para mostrar algumas surpresas, tanto no chão quanto em pé”, piscou o treinador da Atos Jiu-Jitsu, Ramon Lemos. Para Rafael Cordeiro, ex-treinador do Silva na Chute Boxe, o brasileiro vai confirmar seu valor. “A única luz que vejo para o japonês é derrubar e amarrar desde o primeiro assalto. Se soltar o jogo e vier para trocar em pé, será destroçado pelo Anderson”.

A festa está armada, portanto. Mas e se der zebra no sábado? Será o MMA (e os 15 mil fãs na Arena) capaz de sentir um baque similar ao do Maracanã, com suas mais de 210 mil testemunhas?

Para o especialista Lúcio de Castro, não:

“Existiria um sentimento de Maracanazo, mas só ali na hora, na arena. Além da proporção, do significado do futebol para o brasileiro, existe uma questão básica que diferencia e faz com que uma eventual derrota não tenha tanto desdobramento. No gol do uruguaio Gigghia, o Brasil vivia um momento ainda sem vitórias. Era o tal ‘Complexo de Vira-Latas’, termo cunhado pelo Nelson Rodrigues, que as vitórias sepultariam no futuro. Nossa inserção no mundo das lutas foi, e é, totalmente distinta. Já entramos por cima, desde os primórdios, desde os desbravadores, com um brasileiro menor do que os gringos ganhando deles – o Royce. Portanto, nem uma eventual derrota abalaria essa certeza do mundo das lutas, a certeza de que o Brasil é a maior potência nesse universo. No futebol, a coisa não foi tão fácil, e essa afirmação só viria quase uma década depois do fatídico gol”.

E para você, leitor? A fruta está madura ou não? Para o GRACIEMAG.com, pode estar, sim. Mas, quem tentar arrancá-la do pé, muito provavelmente vai levar uma picada de Aranha.

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