O que o Pan tem que os outros não têm?

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No parque temático do Jiu-Jitsu, o monotrilho desgovernado Braga Neto atropelou no absoluto em 2009, num fim de semana rico em emoções variadas, com direito a homenagens a Helio e Carlson Gracie – e adrenalina capaz de deixar o mais cascudo fã de montanhas-russas de orelhas em pé. A reportagem foi publicada originalmente em GRACIEMAG.

Para quem está sempre pela Califórnia, a sensação é manjada, mas sempre mágica. Primeiro, a tensão da fila. Depois, a busca por uma posição boa, para acomodar-se. E por fim, liberdade, gritos e braços erguidos.

Foi o sentimento experimentado por boa parte dos participantes da grande festa do Jiu-Jitsu armada no ginásio da CSU Dominguez Hills, na cidade de Carson, na grande Los Angeles, tanto pelos 2.430 atletas inscritos como pelos 1.500 fãs, professores, curiosos que encheram as arquibancadas (cinco dólares a entrada, uma bagatela se comparado ao ingresso para o parque do velho Walt, cerca de duas horas do estádio).

O destaque do evento foi o clima excelente, com espectadores admirando ou analisando o Jiu-Jitsu (“O estudo continua sempre”, lembrava Rickson Gracie, à beira das dez áreas de luta), e outros tantos fazendo os mais variados negócios ligados ao esporte. Ainda assim, poucos gostaram tanto do passeio quanto Antônio Braga Neto, de 21 anos, e Raissa Paiva, 1 ano e meio.

Lucas Leite vence Kron Gracie no Pan 2009. Foto: Alicia Anthony.

Ele, o campeão absoluto e super-pesado. Ela, a intrépida aventureira que, na manhã de domingo, quebrou as pegadas da mãe, se esgueirou pela grade e saiu correndo pelos tatames azuis cheirando a liberdade, em busca do papai Paiva que se aquecia para estrear contra Rodrigo Comprido, no super-pesado master faixa-preta. No maior campeonato de Jiu-Jitsu de todos os tempos, ninguém queria ficar fora.

Fungando
A trajetória de Braga Neto (Gordo JJ), da fila no cercado de aquecimento à glória final, não foi exatamente um passeio no parque. Teve momentos de tensão, como os nove longos minutos em que bufava por cima da poderosa guarda de Rominho Barral, tentando quebrar a pegada do astro da Gracie Barra – a mão direita quase “costurada” à manga do kimono de Braga Neto, a sola do pé presa ao bíceps, buscando o desequilíbrio que não viria.

“Olha a pegada do Barral! Como é que não cansa?”, espantava-se um árbitro faixa-preta durante a primeira semifinal do absoluto, realizada na tarde de sábado, dia 28 de março.

Feito uma locomotiva, Neto continuava tentando passar, bufando e irritando-se ao mesmo tempo. “O pessoal de fora gritou que eu estava morto. Eu estava gripado, pô! Por isso respirava pela boca”, diria o vencedor, sempre fungando.

Braga Neto contra Rominho Barral. Foto: Ronald De Villa.


Rominho começou a luta encaixando logo uma raspagem, que bem poderia lhe dar uma vantagem. Neto defendeu bem, não deixando o mineiro concluir o single-leg. Quase nove minutos depois, o aluno de Roberto Gordo forçou a passagem de forma mais convincente e levou, por decisão do árbitro.

“Eu já estava sem força, não consegui raspar enquanto o Neto deu uma blitz no final e prevaleceu. Não aconteceu muita coisa, mas foi suficiente para impressionar o juiz, ele mereceu. Foi 51% a 49% pra ele”, comentaria Rominho, recuperado enfim de uma lesão no ombro, mas com uma bursite no joelho que lhe renderia umas semanas sem treinar. “Sobre a pegada, são mesmo muitos anos subindo corda na academia e fazendo barra segurando pelo kimono, tem mistério não”, sorria.

Do outro lado da chave, Rubens Charles Maciel, o Cobrinha, encantou o ginásio ao finalizar Abmar Barbosa (Drysdale JJ) e raspar Rafael Lovato Jr.

Na semifinal contra o pernambucano Otávio Sousa, porém, ele pareceu esquecer o conselho que toda avó dá no parque de diversão: “Segura firme!”. Ao receber uma tapinha na mão para abandonar uma pegada na boca da calça, apontada pelo árbitro Augusto Tanquinho, o paulista achou que a luta tinha sido parada, distraiu-se e permitiu que Otávio efetivasse uma raspagem, virando a luta nos últimos segundos.

Com a vaga na final, o aluno de Zé Radiola, que já se destacara no Pan do ano passado, comprovou que a ideia de ficar mais forte, e subir do peso médio para o meio-pesado, pode ter sido uma boa.

O Pan 2009 foi palco da consagração de muitos azuis, como Francisco Iturralde (Alliance), Nicolas Castellano (Soca), Gianni Grippo (Renzo), Jason Young (Chrispim) e as meninas Christine McDonagh (GB), Nichole Decker (Wander) e Kay Stephenson (Renzo). E o rapaz da foto, Benny Dariush (Ralph Gracie). Foto: Arquivo GRACIEMAG.

Chance de ouro
Comandante-em-chefe da Alliance enquanto Romero Jacaré se recuperava de uma doença em Atlanta, Fabio Gurgel ensaiou um chiado contra a arbitragem pela derrota de Cobrinha, mas depois, refeito, retornou ao semblante sorridente constante nos três dias do Pan 2009. Juntamente com os irmãos Rickson e Royler Gracie, ele foi um dos campeões de assédio no evento.

“Cobrinha perdeu uma luta ganha nos últimos instantes”, sorria Gurgel, mais um que se divertia como um garoto, apesar de não ter trazido o kimono este ano. “Ele desperdiçou uma chance de ouro de conquistar um absoluto. Ele vai ter outras chances, mas com uma chave de absoluto dessas, em que gastei toda a minha saliva e habilidade na hora que a gente riscou, duvido muito.”

A velha raposa referia-se à sempre instrutiva hora de riscar as chaves da categoria aberta da faixa-preta, elaborada este ano na tenda do GRACIEMAG.com, nos fundos do ginásio. Em 25 minutos, uma aula de argumentação, retórica, persuasão e bom humor melhor que um ano de faculdade de jornalismo. Reverências aos professores Gurgel, Royler Gracie, Léo Vieira, Saulo e Xande Ribeiro; e aos bons alunos Bráulio Estima e Roberto Cyborg, os promissores calouros.

Fiz uns errinhos que vão me ajudar a ser um lutador melhor. Ao pegar as costas e não finalizar, aquilo me quebrou o espírito” Kron

Ainda que as chaves tenham posto Rominho, Cyborg, Braga Neto e outros “pesos pesados” do mesmo lado, isso não diminuiu o feito (ou a alegria) do finalista Otávio Sousa. Na decisão do absoluto, realizada domingo, ele teve atuação convincente contra Braga Neto, dono de um jogo de “manter o peso no joelho da frente e buscar a passagem”, como o próprio campeão resumiria.

Após sete minutos de luta, deu a lógica e o campeão absoluto mundial sem kimono de 2008 enfim matou as defesas do rival, conquistou a liberdade para se movimentar e passou a guarda, aos nove minutos – 3 a 0. A Sousa restou o sorriso e a prata no absoluto: “É, cansei as pegadas”, confessaria ele. Que mostrou força no peso também, e faturou o ouro no meio-pesado.

Dias depois, Braga Neto disse por rádio, entre um seminário (lotado) e outro em São Francisco, o que passava pela sua cabeça: “Estou contando. Faltam 60 dias para o Mundial. Não é muito tempo, mas estou treinando há cinco anos todos os dias. Em 2008 o Xande Ribeiro me tirou para nada, mas quero melhorar. Tenho 21 anos, meu sonho é no futuro ser uma lenda no esporte”.

Rickson: “Não faz sentido ficar triste”

Não bastasse o poder decisivo das pegadas, mais evidente nas finais deste ano (uma tendência, a caminho do que ocorre há tempos no judô?), “segurar firme” foi mesmo o lema do Pan 2009. Na tarde de domingo, foi preciso segurar a emoção, quando se podia ouvir o zumbido de uma mosca, ou mais exatamente o balbuciar de um neném, durante o minuto de silêncio em homenagem a Helio Gracie. Ao microfone, Rickson agradeceu e proferiu seu discurso: “Não faz sentido ficar triste, o que mais se pode querer da vida do que chegar aos 95 anos depois de realizar todos os seus sonhos, deixando um legado como esse? Vamos seguir todos levando a bandeira que ele nos passou”.

Segurem firme, também, foi o recado que Marcinho Feitosa mandou para as academias rivais enquanto a Gracie Barra passava o carro, nos pontos por equipes. O mesmo aviso que um empolgado Carlson Gracie Jr. soltou, depois de ver novamente o renovado Carlson Team campeão entre equipes, na divisão dos iniciantes. “É a molecada nova, uma safra de faixas-brancas que tem tudo para render frutos. A garotada veio comprovar que campeonato de Jiu-Jitsu não é Disneylândia, mesmo que o parque esteja aqui tão perto”, sorriam ele, Ricardo Cavalcanti e Rey Diogo, parafraseando o lema da academia do pai falecido em 2006.

Muitos novatos aparecem para o público e em GRACIEMAG pela 1ª vez no Pan. Foi o caso da então faixa-roxa Hillary Williams, aqui em foto de Mike Pesh.

A cobertura do evento do GRACIEMAG.com também prendeu firme a atenção dos leitores, graças à revolucionária ferramenta do Twitter, que permitiu que espectadores do Brasil e do mundo acompanhassem as ações do Pan 2009 em tempo real. Entre os leitores, dona Miriam, que soube da conquista do filhote Braga Neto no instante em que aconteceu, na noite de domingo.

Se você estava lá ou não, virtualmente ou em pessoa, carimbe a mão para voltar quando quiser ao Pan de Jiu-Jitsu.

Resultados por academia:


Adulto /Adult:
1- Gracie Barra
2- Gracie Humaita
3- Alliance

Master & Senior:
1- Gracie Humaita
2- Carlson Gracie Team
3- Gracie Barra

Feminino / Female:
1- Gracie Barra
2- Gracie Humaita
3- Westside BJJ

Juvenil / Juvenile:
1- Gracie Humaitá
2- Team Mica
3- Península BJJ

Iniciante / Novice:
1- Carlson Gracie Team
2- Gracie Barra
3- Gigante BJJ

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