“Besteira o sujeito ter medo de morrer. Devia ter medo de nascer”, dizia Helio Gracie

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De chinelos, calça de tecido simples e camiseta cinza, Moisés da Silva, de 44 anos, guia os primeiros visitantes à quadra 18, lado esquerdo, fila 11, área 4 do Cemitério Municipal de Petrópolis, o “cemitério velho” da cidade.

É este o endereço da última morada de grande mestre Helio Gracie (1913-2009), sepultado ontem às 16h55m, após uma infecção pulmonar (pneumonia) que resultou na morte do professor, por falência múltipla dos órgãos.

A cerimônia foi simples, e realizada pontualmente, como bem gostava o mestre. E “sem esculhambação”, exatamente como pedira o professor. Puxadas pelo filho Royce, de óculos escuros, cerca de 70 pessoas, entre parentes, alunos e admiradores, deram a última salva de palmas para o grande mestre de 95 anos. Além delas, um simpático vira-lata preto seguiu o cortejo. (Veja fotos da despedida do professor aqui.)

“Não teve discurso nem nada, foi rápido. E tinha bastante gente, e vi um pessoal emocionado sim”, diz o coveiro Moisés, observador, enquanto ajeita as duas coroas de flores, enviadas pelo senador Arthur Virgilio Neto e pelos diretores do Colégio Padre Antonio Vieira.

Fazendo uso das cordas como alavanca, o funcionário de 62kg baixou o corpo do grande mestre com agilidade. “O filho dele pôs a faixa-preta em cima, descemos o caixão e pronto. Ele era o número um das lutas. Bateu em todo mundo, né? Foi bonito. Mas como funcionário eu não posso se emocionar. A emoção atrapalha o trabalho”.

O pequeno cemitério, no qual estão famosos como o escritor austríaco Stefan Zweig, cantores e artistas de TV (e até o juiz de futebol Jorge Emiliano, o Margarida), tornou-se a última morada do brasileiro mais casca-grossa que já existiu.

Entrevistado por GRACIEMAG em 2005, o genial professor respondeu assim à pergunta feita por Raphael Nogueira, “O senhor tem medo da morte?”

“Morte? [Breve risada por parte de mestre Helio]. Por que medo da morte? Não preciso de nada, não tenho nada, não quero nada. Acho besteira o sujeito ter medo de morrer. Devia ter medo de nascer. Já disse aos meus filhos que quando eu morrer quero uma festa. Sem bebida, sem esculhambação. Mas quero uma festa com música, comida… Não sei se vocês acreditam em reencarnação, mas todos nós vamos e voltamos até o dia em que não precisamos voltar mais. Meu irmão Carlos dizia que o sujeito só não volta à Terra quando ele se enquadra no todo. Enquanto você pensar erradinho você volta para evoluir. O inferno é aqui mesmo.”

Descanse em paz, Helio Gracie.

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