Grandes heróis que nos inspiram: Dan Henderson, o campeão de quase tudo

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Dan Henderson, em foto de Erik Fontanez/GRACIEMAG.

Dan Henderson, em foto de Erik Fontanez/GRACIEMAG.

Após disputar 47 lutas de MMA em 46 anos de vida, Dan pode ser apontado como o mais valente dos lutadores modernos; afinal, ninguém enfrentou tantos ícones do esporte de maneira tão destemida.

Já vimos muitos atletas gabarem-se de que lutam contra qualquer oponente, mas, depois… São tantas exigências e tantos empecilhos criados que acabam por jamais encaram seus adversários mais perigosos.

E hoje a situação piorou: temos campeões recém-empossados escolhendo lutas e preferindo “money fights” (lutas mais rentáveis e sem tanto mérito esportivo) a defenderem seus cinturões contra desafiantes mais bem ranqueados. Por isso digo, sem pestanejar, que não se fazem mais lutadores como o velho Hendo.

Daniel Jeffery Henderson nunca recusou uma luta, nunca arrumou desculpas. Enfrentou quase todos os grandes lutadores de sua era, em diferentes categorias de peso. Casos de Rodrigo Minotauro, Daniel Cormier, Vitor Belfort, Rich Franklin, Wanderlei Silva, Yuki Kondo, Maurício Shogun, Quinton Jackson, Lyoto Machida, Ricardo Arona, Renato Babalu, Gerard Mousasi, Murilo Bustamante, Rashad Evans, Michael Bisping, Renzo Gracie e Rogério Minotouro, para ficar em apenas alguns. Sempre sério, discreto e profissional, nem os maiores lutadores de MMA de todos os tempos lhe intimidavam – pelo contrário: Henderson duelou contra Anderson Silva (no UFC 82) e derrubou o Último Imperador Fedor Emelianenko (no StrikeForce: Fedor vs Henderson).

Mas a passagem dos anos e as sequelas das batalhas começaram a cobrar seu preço. Não estou falando da perda dos dentes ou dos cabelos, medos que afligem muitos homens. O americano já não contava com isso há muitos anos. (Ele quebrou os dentes da frente ainda na época em que era um wrestler olímpico, enquanto possuía “clareiras avançadas” na cabeça desde os 30 e poucos anos).

Seu estilo de luta era baseado na combinação de três fatores: mãos pesadas, boas quedas e um queixo extremamente duro. Com a idade, o vigor já não era o mesmo e não havia fôlego para derrubar constantemente os adversários. O queixo, que havia permanecido por 39 lutas sem sofrer um nocaute, não se recuperou totalmente das mãos de Vitor Belfort em 2013 e passou a falhar.

A única coisa que permaneceu imutável foi a notória “bomba H”, o mais mortal soco de direita já visto no esporte. Uma arma poderosíssima, permanentemente engatilhada e que podia apagar qualquer oponente com um único disparo certeiro. Por mais que a “bomba H” continuasse sendo sua companheira perigosa e inseparável, Hendo passou a depender exclusivamente dela. Era sua muleta, seu cão guia. O tempo estava reduzindo Dan Henderson a um lutador unidimensional.

Daí veio a sequência de seis derrotas em suas últimas nove lutas. Tudo bem que as três vitórias foram nocautes espetaculares, mas todos se perguntavam até onde o “vovô” Henderson iria. Após ser campeão do Grand Prix do UFC 17, do torneio Rings, das categorias até 84kg e 93kg do Pride (simultaneamente!) e do StrikeForce na divisão meio-pesado, só lhe faltava mesmo o cinturão do UFC. Contudo, essa hipótese parecia cada vez mais improvável.

Eis que, numa inimaginável combinação de sorte, oportunidade e marketing, Michael Bisping virou campeão e – estimulado pelo apelo dos fãs e pela vontade de se vingar da derrota mais humilhante de sua carreira (o nocaute acachapante sofrido no UFC 100) – o inglês passou a pedir para enfrentar Henderson em sua primeira defesa de cinturão.

E então, no UFC 204, em 8 de outubro de 2016, Dan Henderson pisou no octógono da Manchester Arena para disputar sua derradeira batalha, uma última luta após 20 anos de carreira, e pelo título que ainda não tinha.

Li alguns críticos e ouvi muitos amigos dizendo que “os tempos eram outros”, que “o raio não cairia duas vezes no mesmo lugar” e diversos clichês para menosprezar as chances de Henderson vencer essa luta. Racionalmente, eles até podiam ter razão quanto ao favoritismo de Bisping. Mas, no momento em que a “bomba H” atingiu o queixo de Bisping e o levou o britânico a knockdown ainda no primeiro round, não houve um cético que não tenha se levantado da cadeira para torcer alucinadamente pelo “vovô”.

Bisping sobreviveu ao duro castigo e voltou melhor para o round seguinte. E não é que, faltando alguns segundos para o final da etapa, Dan acertou outra pancada de direita e o campeão desabou de novo? Nesse momento, todas as frias certezas se esvaíam e se transformavam na emocional esperança de consagração do veterano combatente.

O cansaço, naturalmente, veio para o senhor de 46 anos de idade e o campeão mais jovem, ainda que muito ferido, passou a ter maior volume de jogo. A partir daí, seguiram-se três rounds em que Bisping acertava mais golpes, porém o americano era mais contundente e perigoso. Uma verdadeira guerra de 25 minutos que levava seus protagonistas à exaustão.

Ainda assim, a poucos segundos do fim de sua longa jornada profissional, Hendo inesperadamente se joga no octógono numa improvisada cambalhota. Depois de tantos anos, de tantos golpes, de tanta seriedade, o velho lutador se permitiu, enfim, um momento de descontração e comemoração antes do soar do gongo. Independentemente da decisão dos jurados, partiria do MMA com mais um grande combate, o último momento de aclamação.

Os jurados decidiram pela vitória do campeão Michael Bisping. Vendo o rosto ileso de Hendo e a face desfigurada de Bisping naquele momento, você poderia pensar que os julgadores estavam loucos. Todavia, não estamos falando de uma briga no pátio, em que perde quem sai com “a lataria mais amassada”. No UFC a pontuação é feita round a round, e tivemos três deles muito equilibrados e difíceis de pontuar. Não se pode dizer que foi uma decisão absurda, mas trouxe uma grande frustração para quem viu Hendo lutando suficientemente bem para garantir o cinturão que lhe faltava.

A verdade é que, diante de uma carreira tão bela, essa decisão controversa não tem tanta importância. Pior para o UFC, que não vai ter Dan Henderson em sua galeria de campeões, mas vai ter Bisping, Johny Hendricks e outros menos votados.

Enquanto isso, Daniel Jeffery Henderson caminha sereno rumo ao Valhalla, paraíso viking onde só é permitida a entrada dos guerreiros que deixam suas vidas anteriores após batalhas gloriosas.

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