Lutador com atrofia muscular ensina como o Jiu-Jitsu une povos e nações

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faixa roxa Kelvin Clay lutando em Abu Dhabi Foto de Marko Nyman

O faixa-roxa Kelvin Clay competindo em Abu Dhabi. Foto de Marko Nyman/Divulgação

[ Texto: Kelvin Clay ]

“Sou lutador de ParaJiu-Jitsu há seis anos, e desde que comecei a competir, sempre dei as caras em categorias sem deficiência. Algumas vezes apareciam lutas casadas com outros deficientes, mas nada constante. Meu amigo e técnico Paulo Melo sabe que por várias vezes pensei em desistir de competir, e quase parei mesmo no ano passado.

“Até que, no início de 2017, encontrei uma postagem no Facebook sobre um campeonato em Abu Dhabi só para deficientes, o World Pro de ParaJiu-Jitsu. Pesquisei a fundo sobre o evento e quem estava organizando; constatei que realmente era a UAEJJF. Foi então que conheci Elcirley Silva e Mario Edson, dois amputados que estavam à frente, juntamente à UAEJJF, em prol da nossa categoria. Logo me colocaram num grupo do WhatsApp com mais de cem atletas do mundo todo, todos com alguma deficiência, todos com o mesmo propósito e todos com a mesma vontade de lutar Jiu-Jitsu.

“Quando percebi que realmente aquilo tudo iria dar certo eu comecei a me preparar a sério. Não foi fácil, mas graças a Deus aqui em Brasília nós atletas contamos com a Compete Brasília, um programa do governo do Distrito Federal que patrocina atletas com passagens aéreas. Sendo assim, eu já estava 50% dentro da competição, mas faltava todo o restante, como hospedagem e alimentação. Já que Abu Dhabi é uma cidade de custo de vida alto, eu precisaria de um apoio forte para o meu sonho se realizar. Foi aí que, por intermédio do meu cunhado Arthur Pilastre, conheci uma grande pessoa, o Pedro Pardal, que sem me conhecer abriu a porta de sua casa para mim, nos Emirados Árabes. Foi imaginável, pois era um rapaz que eu nem conhecia e que me recebeu de braços abertos em sua casa, com sua família. Aprendi que o Jiu-Jitsu de fato não tem bandeira, e não tem fronteira. E isso provou definitivamente que o nosso Jiu-Jitsu une povos.

“Após 15 horas de voo, meu sonho estava realizado, eu estava numa das cidades mais incríveis do planeta, para lutar o primeiro campeonato internacional de ParaJiu-Jitsu do mundo. Foram 15 dias incríveis, em que tivemos transporte todos os dias para a IPIC Arena. Para os atletas com mobilidade mais restrita, como cadeirantes e eu próprio, a UAEJJF mandava Land Rovers para nos buscar e deixava o carro à nossa disposição, atitude que nenhuma federação fizera pela gente antes.

“Dia 14 de abril foi o grande dia. Nossas lutas foram transmitidas para todo o mundo ao vivo pela TV local e internet, e minha família e os amigos puderam assistir ao momento mais feliz da minha vida no Jiu-Jitsu. O primeiro World Pro de ParaJiu-Jitsu contou com 55 atletas, de 16 países e de cinco continentes, com oito línguas e apenas um sentimento: o amor pelo Jiu-Jitsu.

Alguns dos participantes dos eventos do World Pro. Foto: Diego Cunha/Pro Sports

“Neste ano a UAEJJF pretende realizar mais três campeonatos de ParaJiu-Jitsu no Brasil, e em 2018 contaremos com a nossa categoria em todos os Grand Slam e mais uma vez no evento principal em Abu Dhabi, junto com o World Pro. A ideia é termos campeonatos não só no Brasil mas no mundo inteiro. Tudo isso foi acertado num jantar com Abdul Munam Al Hashimi, presidente da UAEJJF, com os paralutadores.

“Fiz duas lutas em Abu Dhabi, uma luta na categoria e outra no absoluto. Fiquei com a prata no peso e o ouro no absoluto – meu sonho estava mais que realizado. Na final do aberto, se bem me lembro, eu raspei e passei a guarda do adversário duas vezes. Foi incrível – e a UAEJJF organizou as chaves de forma a que todos os para-atletas ganhassem alguma premiação, de primeiro ou segundo lugar – 1 mil dólares ou 500 dólares. O que foi perfeito, pois muitos ali fizeram o impossível para estar presente – teve até um que vendeu o próprio carro para estar presente. Agora é treinar cada dia mais, porque certamente não vão faltar campeonatos para nós.

“Eu tenho atrofia muscular parcial na parte superior e inferior do corpo, e ando de joelhos. Fica o meu convite a todas as pessoas que contam com alguma deficiência: venham treinar Jiu-Jitsu. Venham conhecer esse esporte maravilhoso que mudou a minha vida e a vida de milhares de pessoas. No ano que vem o World Pro contará com muito mais atletas, e já estamos trabalhando em cima disso. Venha fazer parte do ParaJiu-Jitsu!”

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